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#SomosTodosAndrade

O Festival Taguatinga de Cinema 2019 presta homenagem póstuma ao ator mais querido do público de cinema de Brasília. Em 50 anos de carreira, Andrade Júnior fez mais de 100 filmes. Entre os trabalhos mais recentes do ator, morto em 2019, aos 74 anos, está o longa-metragem A repartição do tempo, do diretor candango Santiago Dellape. Este ano, Andrade já tinha filmado o curta A Terra em que Pisar, de Faustón da Silva.

Autodidata, Argemiro Gomes de Andrade Junior, natural do Ceará, empenhou seu talento e dedicação na construção das artes cênicas de Brasília. Antes, suas mãos haviam ajudado a erguer a cidade, no mesmo ano de 1959, quando chegou aqui, com a idade de 14 anos. Aos 17, Andrade começou a fazer teatro, onde pavimentou seu caminho para as telas.

O cinema se tornou sua grande paixão. Ali, o ator encontrou um lugar de mestre, com presença constante em filmes brasilienses dirigidos por diretores do quilate de Vladimir Carvalho e André Luiz Oliveira. Andrade fez também A Terceira Margem do Rio, do cinema novista Nélson Pereira dos Santos. 

Em Brasília, foi cultuado sobretudo por cineastas estreantes, com os quais fez muitos filmes de curta-metragem. Um dia, a vida e a arte de Andrade viraram filme: o curta-metragem “A louca história de Andrade Junior” é um tributo ao ator, dirigido por Érico Cazarré.

Pela televisão, Andrade tinha pouco interesse. O ator dizia que as novelas tinham grande potencial artístico, mas eram feitas a partir de uma fórmula batida e sem graça. Ainda assim, ele fez participações em telefilmes, como Meio Expediente, dirigido por Santiago Dallape e produzido pela Globo Filmes. Em Meio Expediente, Andrade viveu um Papai Noel de shopping center.

Em 2019, cinco dias após sua morte, Andrade Júnior foi homenageado com a “Mostra Andrade Júnior – Um dia de homenagem ao mito do cinema”, realizada no Cine Brasília. Cinco anos antes, em 2014, o 3º Festival Curta Brasília fez tributo ao ator com a Mostra Onipresença: o cinema de Andrade Júnior. 

Mais do que reverenciar a vida e a profícua carreira de 50 anos de Andrade Júnior,  Brasília soube ser terra fértil e acolhedora para este homem de grande talento artístico e hábitos considerados excêntricos, amigo leal, com coração do tamanho do mundo. A ele, todo nosso amor e admiração.



O ensino do cinema nas universidades públicas do Brasil

No dia 4 de outubro, a cineasta Érika Bauer, uma das homenageadas do Festival Taguatinga de Cinema de 2019, participa de um debate promovido por nós, em parceria com IFB do Recanto das Emas, sobre o ensino do cinema nas universidades públicas. Nesta entrevista, Érika, que é também professora de Roteiro e História do Cinema da Faculdade de Comunicação Social da UnB, traça um breve painel sobre o assunto. 

Qual é o panorama do ensino do cinema nas universidades públicas brasileiras? Se eu fosse responder a esta pergunta há dois anos, diria que não estávamos mal, pois o número de cursos de audiovisual nas universidades públicas cresceu bastante, o que se refletiu inclusive no nosso festival de cinema universitário e em tantos outros festivais. A liberdade de expressão e a diversidade impulsionaram um intensa e potente produção, levando aos festivais filmes que refletem a forte presença da cultura das mais diferentes regiões. Inventivos, engraçados, muitas vezes também densos, tristes, os filmes universitários carregam a força de uma juventude que pensa e recria o país. Lembrando também que grande parte dos cineastas que hoje reinventam o cinema no Brasil veio das universidades públicas.

De que a maneira as transformações por que passaram as universidades públicas nos últimos anos, com sua popularização e mobilidade, impactaram os cursos de cinema? Houve um aumento incrível da procura por cursos de audiovisual. As transformações pelas quais as universidades públicas passaram, trouxeram uma verdadeira chuva de esperança na produção universitária. O olhar mudou, e o sistema de cotas reajustou uma longa e injusta história de exclusão. Nasceram a partir daí filmes de periferia com novos olhares, de quem lá vive, mudando o discurso e a reflexão. A autoestima é uma construção, e depois de 15 anos da democratização das universidades públicas,  podemos dizer que suas sementes já começaram a frutificar. 

No curso de Audiovisual da Faculdade de Comunicação da UnB, há incentivo ao trabalho coletivo com a utilização de recursos mínimos, como perspectiva apresentada aos alunos para a produção profissional de filmes? Sim. Existe uma verba mínima para o estímulo da produção coletiva, que acontece durante o 7o semestre, durante a disciplina “Realização audiovisual Bloco II”. Eles aprendem que o trabalho coletivo é fundamental, que a participação de cada um na construção da obra é que vai dar sentido ao filme. A partir de um roteiro escrito em sala de aula e votado democraticamente, os estudantes aprendem o valor do trabalho coletivo em audiovisual.

Você destacaria alguma peculiaridade do curso de Audiovisual e/ou do corpo de professores de cinema da UnB? Preocupação com a formação do espírito crítico e coletivo, da cultura ampla e sempre voltada para o conhecimento do Brasil e seu cinema, além da experimentação. Também trabalhamos com as particularidades de cada estudante, dando-lhe os instrumentos necessários para o seu desenvolvimento,  que será desenvolvido nos projetos de final de curso. 

Com a proliferação de cursos de cinema no Brasil, como parte de uma tendência mundial, a pergunta que surge é se há uma indústria forte capaz de absorver os formandos. Para surgir um indústria forte, é preciso investimento e uma ampla formação do olhar do povo brasileiro, a partir da valorização da educação, sobretudo para absorver a riqueza do cinema que o país está fazendo. Sem isso, nossa indústria não se estabelecerá, serão apenas lampejos otimistas. Mas sobreviveremos,  pois continuaremos realizando nossos filmes. Depois que os estudantes conquistam sua formação profissional e acrescentam mais consciência a seu imaginário, não há como detê-los Sempre haverá alguém criando, escrevendo, gravando seu grito, seu poema, seu amor à vida. Principalmente com os crescentes avanços tecnológicos, com os aparelhos celulares cada vez mais adaptados para o audiovisual, prontos para registrarem os movimentos do mundo e novas histórias.



olho no olho, um convite à ação

Por Rita Andrade*

por que precisamos falar de cultura? porque estamos vivos! porque esse mundo é tão meu quanto seu e, embora digam que ele tem um dono, ele não tem um dono, ele é uma responsabilidade minha, sua, nossa. dizer que ele tem um dono é mais uma falácia para desmobilizar, é um investimento na destruição de um dos traços marcantes da nossa cultura, a alegria!

em tempos de estímulo a queimadas na amazônia, de destroços assombrosos de brumadinho, de cocôs,  dia sim, dia não, de bozo e adão, precisamos falar, sim, de cultura, da nossa cultura, dos fazeres artísticos, das rendas, dos bordados, dos tijolos e dos cacos de cerâmica, dos últimos barracos, das vilas, das batalhas de rap, do funk e punk, dos muitos são joãos, dos despachos que fazemos e desfazemos aqui nesse quadradinho.

uma verdade é que somos feitos de gentes de todos os cantos e aqui temos um pouco  de todos, isso gera uma cultura pulsante que se faz presente nos palcos cada vez mais silenciados, na música calada, na poesia e seus levantes, nos grafites nos cantos da cidade, nas danças com batuques moucos, no samba sem avenida, no cinema sem ingresso para entrar no festival…  é por isso que precisamos falar de cultura, da cultura que fazemos e em que acreditamos, que é atacada pelos que têm medo das nossas cores, das nossas vozes, nossos ritmos e nossos movimentos.

e quando falamos dessa bendita cultura, falamos dos cheiros, dos saberes e dos sabores, da opressão, dos guetos, das panelas – ah como tem panelas na nossa cultura: panelas no centro e nas periferias! – , de estilos e tribais, panelas onde fazemos nosso arroz com feijão temperado com agrotóxicos e fazemos nossos conchavos. aliás, não podemos mesmo falar da nossa cultura sem citar as panelas nas janelas, no fogão e  na cabeça. viva o menino maluquinho que mora em mim e mora em você, viva os nossos malucos da cultura os que lutam, criam, xingam, sofrem, sorriem, escrevem projetos e projetos e ganham FAC!!!!

e não dá para falar de cultura candanga, brasiliense, distrital e tal, sem falar de FAC, LOC, LIC, direitos e deveres, conselhos, prestações de conta. isso porque cultura no DF é lei!  por tudo isso e muito mais, precisamos sentar debaixo de um ipê amarelo ou de um pé de manga, colocar nossos celulares no bolso, olhar nos olhos e falar sobre a nossa cultura, depois publicamos a foto na rede!

não basta estarmos no terceiro lugar em produção cultural no ‘brezil’, não basta sermos eruditos, populares, nem tradicionais, não basta ser a capital do rock e tocar xote, baião, xaxado, fazermos chorinho como ninguém. não basta o circo ser moderno, dulcina sair da UTI, se não lutarmos pelo diacho dessa cultura. continuamos vendo nossos teatros fechados, os espaços sucateados, os artistas sendo criminalizados, os cinemas evangelizados, a arte confinada no setor comercial sul, a arte que não tem mais parte e que segue com os ventos fracos que ainda sopram do passado recente. precisamos falar sobre a nossa cultura, porque estamos vivos e respirando, seguimos de pé e em movimento!    

*Rita Andrade é Diretora de Produção e Coordenadora de Departamentos e Equipes em promoção de eventos culturais e projetos de audiovisual, Artista Educadora, graduada em Artes Cênicas, Conselheira de Cultura do DF e ativista do movimento em defesa da cultura.



A sinfonia cinematográfica de Messias

No set de filmagem, logo depois que o diretor ou a diretora grita “Ação!”, a sinfonia orquestrada por Messias é feita de gestos precisos, silêncios, companheirismo e muita disposição para o trabalho. No sobe e desce das gruas, como fiel escudeiro do diretor de fotografia, o maquinista Messias, que nasceu Manoel Messias Filho, experimenta a realização profissional.

O amor pela sétima arte surgiu quando Messias conheceu o estudante de cinema Eduardo Sodré, morador do condomínio onde ele trabalhava como vigia noturno. Aquele encontro tão afetuoso e inspirador mudou o rumo da vida dele. Para usar um jargão cinematográfico, o início da amizade com Eduardo lhe valeu um “ponto de virada”. Messias abandonou o emprego para se dedicar ao cinema, encerrando um passado sem profissão definida e sem paixão por um ofício.

No começo, a vida como profissional do cinema andava a par e passo com a de músico integrante da banda Eminent Shadow. Apesar do relativo sucesso obtido pela banda no meio underground, Messias optou por dedicar-se inteiramente ao cinema. 

Até montar sua própria empresa, ele seguiu a trilha do cinema trabalhando nas locadoras de vídeo Millenium e Movie Center, em Brasília. Nessa época, ele começou a receber convites para integrar equipes de filmagens. O primeiro filme que fez foi o curta-metragem ‘Leo 1313’, de Betse de Paula, em 1997, como estagiário de luz e maquinária. Depois veio ‘O som, as mãos e o tempo’, do cineasta Marcos Mendes. E então a coisa deslanchou à base de muita dedicação e estudo. 

Hoje, Messias é dono da Aicon Ações Cinematográficas, empresa que ele mesmo criou com o nome do filho e que atua também nos ramos publicitário, do marketing político e do videoclip, fazendo locação e transporte de equipamentos. No currículo, a Aicon tem as campanhas vitoriosas de Lula e Dilma Roussef à Presidência da República. Fez filmes publicitários da Petrobrás e do Banco do Brasil, da Vivo, da Oi, da Volkswagen e da Mercedes-Benz, entre as de outros grandes clientes. E fez também eventos de grande porte como o Brasil Club e o Porão do Rock, além de videoclipes de artistas locais e nacionais.

Em 22 anos de cinema, do primeiro filme até hoje, a lista de curtas-metragem de Messias atingiu a marca dos 30 filmes; a de longas, novelas e séries de televisão bateu a casa das duas dezenas. Aos 45 anos, ele trabalha a todo vapor. Somente este, Messias já rodou seis curtas e quatro longas.

Messias conta que a Aicon surgiu da necessidade de apoiar a realização de filmes de baixo orçamento, principalmente aqueles de diretores estreantes. E arremata: “Eu sei quanto vale o apoio para quem está começando. Sou muito grato aos amigos que me deram força para seguir na profissão e trabalhar com afinco, principalmente a Eduardo Sodré, Cássio Pereira e William Alves, além de João de Castro, que foi a pessoa que mais me incentivou. Ajudar a quem está começando no setor é uma forma de retribuir o que esses amigos fizeram por mim”. 

Este ano, Messias é um dos três homenageados do Festival Taguatinga de Cinema, ao lado da professora de cinema da UnB, Érika Bauer, e do ator Andrade Júnior (in memorian). Uma frase que define o sentimento de Messias em relação à sua carreira no cinema, e que ele repete amiúde, é também definidora do espírito que impulsionou o desejo de homenageá-lo. Com os pés bem fincados no aqui e no agora, Messias costuma dizer: “hoje, eu sou a realidade que eu sempre quis ser”. 



O Fundo de Apoio à Cultura “subiu no telhado”

Por Carlos Augusto Cacá*

No dia 14 de junho deste ano, o governador Ibaneis Rocha publicou no Diário Oficial o Decreto 39.896/2019. O principal objetivo do decreto é possibilitar os desvios dos recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) para a realização da reforma do Teatro Nacional e outras obras. Para poder fazer isso, o governador decretou o fim de todas as barreiras protetoras desse fundo.

De imediato, o decreto não tem nenhum efeito, pois ele não altera as normas da lei, onde estão também previstas as barreiras protetoras do FAC. Então, seria preciso alterar a lei para tornar válidas as aberrações previstas no decreto. Por isso, podemos ver a medida como uma espécie de declaração da intenção do governo: Ibaneis planeja fazer as mesmas alterações na Lei Orgânica da Cultura, onde o FAC está definido, e vai mandar para a Câmara Legislativa um projeto de lei para derrubar cada barreira de proteção desse fundo. Se ele conseguir o apoio da maioria dos deputados distritais, a cultura do Distrito Federal irá por água abaixo.

O que é o Fundo de Apoio à Cultura

Na linguagem da administração pública, um fundo é uma parte do orçamento público que tem que ficar separada do restante dos recursos arrecadados. Eles são criados conjuntamente pelos Poderes Executivo e Legislativo, por meio de uma lei, para proteger atividades que são essenciais para a qualidade de vida do povo. São coisas como Educação, Cultura, Saúde, Pesquisa Científica e outras que não podem ser sacrificadas por causa de dificuldades financeiras dos governos. Por isso é que as leis de criação dos fundos estabelecem limites mínimos para investimentos e criam barreiras protetoras para evitar que o desvio de recursos.

Quais são as medidas de Ibaneis que podem destruir o FAC

Veja quais são as principais barreiras protetoras do Fundo de Apoio à Cultura que o governador já revogou com o Decreto 39.896/2019 e que precisa revogar também na lei a fim de colocá-las em vigor:

1 – O FAC não pode ser usado para projetos de instituições governamentais. Se isso for permitido, é certo que não sobrará nada além de migalhas para os projetos culturais apresentados pelos artistas. O decreto de Ibaneis revogou esse impedimento. Mas isso só terá efeito se o governo conseguir fazer a mesma revogação na lei. Portanto, podemos deduzir que o governo irá enviar projeto de lei à Câmara Legislativa com o mesmo objetivo.

2 – Para concorrer ao FAC, é necessário ter mais de dois anos de residência no Distrito Federal. Sem isso, empresas de qualquer lugar do Brasil poderiam inscrever projetos para concorrer ao FAC ao lado dos projetos dos artistas que vivem e recolhem impostos no DF. Isso permitiria a utilização dos nossos impostos, por meio do FAC, para fomentar o desenvolvimento cultural de todo o país. É praticamente a transformação do FAC num fundo nacional de cultura, mas com ônus financeiro apenas para os contribuintes do Distrito Federal. Por mais absurdo que pareça, o Decreto 39.896/2019 faz isso ao revogar a exigência de dois anos de residência no DF.

3 – Existe um limite máximo de recursos que um beneficiário pode receber por ano. Esse tipo de restrição é necessário para evitar que haja excessiva concentração de recursos nas mãos de poucos beneficiários. A concentração prejudicaria os pequenos projetos de artistas que estão em início de carreira ou que não possuem grandes estruturas de produção. Se os recursos do FAC se concentrarem nas mãos de quem já está mais bem estruturado, o fundo deixa de ser um elemento de inclusão e renovação da produção cultural da cidade. Uma vez que o decreto eliminou esse limite, concluímos que o projeto de lei do governo irá no mesmo sentido. A tendência é favorecer grandes empresas culturais em prejuízo da cultura popular e dos artistas iniciantes.

4 – Existe um limite de 2 projetos por beneficiário por ano. Essa também é uma medida para evitar a concentração de recursos nas mãos de poucas empresas ou de um pequeno número de produtores culturais. No entanto, o decreto eliminou esse limite, certamente com o propósito de possibilitar o direcionamento de maiores recursos para poucas empresas que passarão a desenvolver vários projetos para o próprio governo.

Ameaças à cultura devem ser preocupação de todos

Como parte da estratégia para impedir que a LOC seja desvirtuada, a Frente Unificada de Cultura do DF, criada para defender políticas democráticas para o nosso setor, está mobilizando todas as forças sociais que pode. Vimos esclarecendo à sociedade sobre as ameaças à cultura e pedindo que cada pessoa defenda, junto ao deputado que ajudou a eleger, a destinação exclusiva do FAC à produção cultural diversificada, com possibilidades de acesso para todas as camadas sociais de todas as cidades do Distrito Federal. Aos artistas locais, pedimos para informarem ao público presente em seus espetáculos quais são os prejuízos em termos de fruição cultural. 

Pelo Decreto 39.896/2019, o governo deixou claro que tem a intenção de utilizar os recursos do FAC para os seus próprios projetos, destinando migalhas aos projetos dos artistas locais. Se isso se confirmar, a tendência será acabar com a expansão cultural de projetos destinados à comunidade, principalmente, àquelas que só têm acesso a atividades culturais que recebem apoio público. Não podemos deixar que isso aconteça.

* Cacá é poeta, escritor, sociólogo e militante cultural. Trabalhou 22 anos como Auditor de Controle Externo, analisando a legalidade e economicidade de atos governamentais.



Conquista de territórios

O Festival Taguatinga de Cinema tem uma história de 21 anos de conquistas. Começamos como Mostra Taguatinga de Cinema, em 1998, no Botequim Blues, e chegamos ao Teatro da Praça, em 2012, como festival de cinema. De espaço alternativo de exibição e discussão de filmes, nos convertemos, passo a passo, em ponto de afluência de centenas de filmes representativos da produção brasileira atual de curta-metragem.

Em 2017, em reconhecimento à importância do trabalho que realizamos como disseminadores e fomentadores da cultura cinematográfica, passamos a integrar o Calendário Oficial de Eventos do Distrito Federal, a partir de um projeto de autoria do deputado Cláudio Abrantes (PDT), aprovado por unanimidade pela Câmara Legislativa do DF. 

Faremos este ano a nossa 14a. edição com uma equipe de mais de 60 pessoas envolvidas na realização das mostras competitiva e paralela, de oficinas, palestras e debates entre realizadores. Organizamos o primeiro TaguaMapi em 2017, um espaço recriado em 2018 para promover o mercado do audiovisual  por meio de vozes e experiências fundamentais. 

Realizadores e realizadoras dos quatro cantos do país passaram a nos conhecer e a inscrever seus filmes em nosso festival graças ao fato de estarmos no Guia Kinoforum – Festivais de Cinema e Vídeo e integrarmos o Fórum de Festivais.  Somente para a edição deste ano, tivemos quase 700 filmes inscritos para a nossa mostra competitiva. Figurar nas duas listas gerou uma demanda também em relação ao público de fora do DF, demanda a qual respondemos com transmissões em tempo real dos eventos que acontecem no âmbito do festival, levando-o a milhares de pessoas. 

É com imensa alegria que seguimos conquistando novos territórios, em que pese o momento crítico pelo qual passa a cultura do nosso país, particularmente, o cinema nacional. Somos, desde as origens, um espaço de resistência que seguirá florescendo com a força criativa de todos nós que fazemos deste festival a nossa profissão de fé no cinema brasileiro de curta-metragem.



Nossa história de amor pelo cinema dos afetos e da resistência política

Desde a sua criação, há 21 anos, o Festival Taguatinga de Cinema tem como objetivo promover o cinema brasileiro de curta-metragem que existe como expressão da nossa resistência vital e artística. A existência do festival está vinculada a uma produção cinematográfica que reivindica a imagem e a palavra não só para denunciar, mas também para criar desvios poéticos inspirados em vidas que atuam no caminho dos afetos e ampliam seus poderes de realização e mudança até os limites possíveis.

Através de um pensamento curatorial permeável às novas ideias e aos novos movimentos de cinema, nós do Conselho Curatorial do Festival Taguatinga de Cinema estamos comprometidas, pela ética fundadora do festival, com filmes que abraçam a realidade do nosso país, desafiam limites e propagam os avanços políticos, sociais e culturais tecidos na permanência da luta das mulheres, dos LGBTQIA+, dos povos negros, indígenas e das demais populações subalternizadas. 

Nossa atenção está orientada, sobretudo, para os sujeitos que estão filmando em modos de produção não tradicionais, inventando novas formas cinematográficas, visibilizando corpos, legitimando modos de vida e de conduta sintonizados e comprometidos com os avanços civilizatórios. 

Entendemos que curar é acolher e cuidar daqueles realizadores e realizadoras que são marcados pela exclusão sistêmica. Assim, buscamos, com todo amor e cuidado, promover a cura para as desigualdades que são próprias do campo do cinema, combatendo privilégios, colocando em crise mecanismos estruturais que dão visibilidade a certos tipos de filme e mantêm outros na invisibilidade.  

Diante de um conjunto tão diverso de filmes que representam a produção contemporânea brasileira de curtas metragens, entendemos que é nosso dever enxergar e dar a ver certas experiências de natureza social que o novos sujeitos do cinema estão elaborando e projetando para o mundo, valorizando assim outras subjetividades. 

Acreditamos que, procedendo dessa forma, estamos impulsionando um novo pensamento de cinema, no momento em que muitos filmes estão sendo feitos por quem, até bem pouco tempo, pela dificuldade de acesso aos meios de produção audiovisual, era objeto e não sujeito.

Nossa pequena contribuição à escrita da história do cinema brasileiro é no sentido de tornar possível o encontro entre os filmes e o público espectador, pois sabemos que é somente neste encontro que os filmes ganham vida. Ao assumir a nossa condição de passeurs, ou seja, de profissionais que acompanham e protegem os filmes selecionados, como no dizer do crítico de cinema francês Serge Daney, nós corremos com eles todos os riscos. E é isso, precisamente, o que nos anima. 

Nina Rodrigues e Adriana Gomes



O Festival Taguatinga de Cinema 2019 acontecerá em outubro

A realização da 14a. edição do Festival Taguatinga de Cinema se dará de 2 a 5 de outubro, e não mais de 7 a 10 de agosto, como estava previsto inicialmente. A mudança de data se deve ao atraso no anúncio, pelo governo do Distrito Federal, de políticas públicas de incentivo à cultura.  Apesar da campanha que o atual governo está promovendo contra a cultura do DF, a realização do FestTaguá está assegurada porque este é um festival nascido das águas da resistência.

FAC ameaçado

Há anos, o FestTaguá é majoritariamente financiado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal, um dos mais importantes do país. O FAC-DF é uma conquista da classe artística brasiliense que, embora garanta ao público o acesso a uma enormidade de projetos artísticos, está sob ameaça desde o início do governo de Ibaneis Rocha. Um dos editais lançados e aprovados em 2018 foi recentemente cancelado para que os recursos do fundo fossem destinados à reforma do Teatro Nacional Cláudio Santoro, o que fere a Lei Orgânica de Cultura do DF. O cancelamento, no entanto, foi suspenso em 11 de junho pelo Tribunal de Contas do DF.

Existimos na resistência

Somos parte da Frente Unificada da Cultura, criada este ano para garantir o cumprimento da LOC em sua integralidade, e temos compromisso com o cinema brasileiro de curta-metragem e com o público.  Por isso, como todos os anos, faremos em 2019 uma edição potente do FestTaguá, com filmes que mostram a força e a diversidade criativa da produção brasileira de curtas e com a realização de diversas atividades formativas em parceria com o IFB – Instituto Federal de Brasília –  e do TaguaMAPI, nosso evento de mercado. Resistiremos e floresceremos.



Resultado dos filmes selecionados para a Mostra Competitiva

Depois de dois meses e meio de trabalho, procedendo a uma análise criteriosa dos 668 curtas metragem inscritos na 14a. edição do Festival Taguatinga de Cinema, a Curadoria Oficial do festival divulga a lista com os 22 selecionados. Os filmes estão listados abaixo por ordem alfabética.

  • A Sússia, de Lucrécia Dia Moura (TO)
  • À tona, de Daniella Cronemberger (DF)
  • Boca de Loba, de Bárbara Cabeça (CE)
  • Codinome Breno, de Manoel Batista (RN)
  • Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados, de Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cristiano Araújo e Pedro Maia de Brito (MG)
  • De longe, ninguém vê o presidente, de Rená Tardin (SP)
  • Entre parentes, de Tiago Aragão (DF)
  • Leningrado, linha 41, de Dênia Cruz (RN)
  • Megg – A Margem que Migra para o Centro, de Larissa Nepomuceno e Eduardo Sanches (PR)
  • Motriz, de Taís Amordivino (BA)
  • O grande amor de um lobo, de Kennel Rogis e Adrianderson Barbosa (RN)
  • O Jirau da Hydro, de Márcio Crux (PA)
  • O Meu Balão Vai Voar, de Chia Beloto e Rui Mendonça (PE)
  • Onde mora o afeto, de Josianne Diniz (DF)
  • Osmildo, de Pedro Daldegan (DF)
  • ProfanAÇÃO, de Estela Lapponi (SP)
  • Positive Youtubers – A Machinima Documentary, de Leandro Goddinho (SP)
  • Pretas raras, de Gabriela Batista de Gusmão (DF)
  • Quando elas cantam, de Maria Fanchin (SP)
  • Rua da Poesia, de Gabrielle Sousa, Gabriela Luna e Isabela Godoi (RJ)
  • Sair do armário, de Marina Pontes (BA)
  • Terra, de Maurício Ferreira (DF)


FESTIVAL ONLINE | Conheça os dois filmes vencedores

os dois mais votados no festival online

O período de votação do nosso Festival Online encerrou-se às 23h59 de sexta-feira, 31 de maio, e hoje, após três dias dedicados à verificação da validade dos votos recebidos por cada filme, anunciamos com alegria a classificação dos seguintes filmes:

1º Colocado
MIKSANG (O OLHAR AMOROSO), que recebeu um total de 535 votos

2º Colocado
A HISTÓRIA MUDA, com 519 votos

Os dois vencedores do Festival Online estarão entre os 24 curtas da nossa Mostra Competitiva e concorrerão a prêmios ao lado dos 22 curtas selecionados pela curadoria oficial do Festival Taguatinga de Cinema.

A organização do festival informa que, de acordo com o regulamento, o processo de verificação dos votos visa garantir a lisura do processo e, para que isso seja assegurado, são considerados inválidos todos os votos oriundos de e-mails temporários. E-mails dessa natureza oferecem indícios de fraudes em votações online, já que podem ser criados para simples cadastro e depois dispensados sem prejuízo para as respectivas plataformas ou para quem os criou.

O Festival Taguatinga de Cinema, que há 5 edições realiza a Mostra Online como forma de democratizar o acesso à nossa Mostra Competitiva, promovendo a curadoria popular dos filmes inscritos, sabe que esse tipo de evento costuma ser alvo de ataque de crackers que objetivam tão somente prejudicar o processo. Por isso mesmo, estabelecemos regras que podem ser conferidas em nosso regulamento, que é sempre divulgado na abertura do período de inscrições de cada edição do festival. O regulamento de 2019 pode ser conferido aqui: https://bit.ly/2wC8ioq



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