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Confira a noite de premiação do 15º Festival Taguatinga de Cinema

por Pâmela Paiva, em 29/08/2020

Grandes emoções, filmes plurais, diálogos emergentes, aplausos, comemorações, projeções e reconhecimento de corpos e narrativas periféricas invisibilizadas, enalteceram os festejos da noite de premiação desta 15ª edição do Festival Taguatinga de Cinema, marcada pela inovação de se construir e realizar uma programação inteiramente online para nosso público.Os 10 filmes selecionados receberão troféu do artista plástico de Taguatinga, Omar Franco, mais gratificação em dinheiro. 

Conduzida pela nossa anfitriã, Marina Mara, a sessão solene da edição 2020 reluziu e reverenciou todos e todas que acompanharam do aconchego de casa, embora todo este momento desafiador de pandemia que estamos vivendo. Os avaliadores técnicos, composto pelos cineastas Renata Diniz, Marília Nogueira e Tadeu de Brito, responsáveis pela indicação de três dos nove filmes contemplados, exaltam e agradecem a fartura de vozes dos filmes.

Foram inscritos 601 filmes curtas-metragens no Festival, gravados em todas as regiões e cantos do país. O Júri Oficial do Festival destaca a qualidade de produções da região Nordeste, especialmente do estado da Bahia, em que a cidade de Cachoeira desponta potente produção audiovisual, através do curso de cinema da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

São seis filmes diretamente da Bahia, isso, somado aos nove curtas dirigidos por mulheres, e também mais nove filmes com temática LGBTQI+. No que concerne às linguagens, a seleção final contou com 12 documentários, oito ficções e três experimentais.

 JÚRI

O Júri Oficial “parabeniza todos os curtas-metragens escolhidos que juntos formam uma seleção potente em diálogo com o festival em sua história periférica, com corpos dissonantes e traz para tela narrativas de diferentes lugares do país”. Anunciamos os nove premiados de nossa sessão solene, os curtas-metragens da Mostra Competitiva Trindade, Em Reforma, Perifericu e Colapsar. Menções honrosas aos filmes Tudo que é apertado rasga e Minha história é outra, e os vencedores da Mostra Seleção Popular, O afeto e a rua, Lipe: vida em movimento e 72 dias com Pedro.

 FILMES PREMIADOS MOSTRA COMPETITIVA

De Minas Gerais, o documentário, Trindade, dirigido por Rodrigo Meireles, afirma a vida de uma mulher preta, e as marcas da própria história, uma síncope profunda, antropológica e política da formação de nosso país. “A personagem que dá nome ao filme nos conta por entre o cotidiano de atividades caseiras e pontos para caboclos e orixás cantados, da própria força, de dores e da própria poesia de dentro da simplicidade poética do curta, que faz um convite a toda sociedade”, aponta o Júri Oficial.
Em Reforma, ficção do Rio Grande do Norte, dirigida pela Diana Coelho, com tamanha habilidade na construção de uma narrativa clássica, “por meio de uma protagonista complexa que nega o retrato de mulheres pretas e periféricas em um lugar de sofrimento e solidão e ousa concretizar na tela outro lugar, onde há espaço para felicidade, realização pessoal, afeto e cumplicidade”, ressalta o Júri. Através da reforma da própria casa, nos mostra a contínua e necessária construção de si no trabalho, nos laços afetivos e no papel de mãe.
O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é filme-Perifericu.jpgPerifericu, ficção de São Paulo, com direção coletiva, mas coesa e que ecoa vozes de diferentes sujeitos já tão marginalizados e silenciados cotidianamente. Por abordar temas urgentes com “potência e frescor, pela aposta em permanecer na chave do afeto, recusando o lugar da violência como principal caminho possível para construção de narrativas sobre juventude periférica e pela crítica social potente trabalhada nos detalhes do dia-a-dia dos personagens”, enfatizam os jurados.  

JÚRI POPULAR MOSTRA COMPETITIVA

Com 85% dos votos na sessão o curta experimental de Alagos, Colapsar, dirigido pela Renata Baracho, traz às tela a vontade de colapsar a norma e problematizar os corpos invisíveis.

 MENÇÕES HONROSAS

O Júri Oficial e o Festival salientam a qualidade dos curtas recebidos e por isso decidiram prestar uma homenagem a outros dois filmes e realizadores da Mostra Competitiva desta edição. São eles:

O documentário da Bahia, Tudo que é apertado rasga, com direção de Fábio Rodrigues Filho, que segundo o Júri Oficial “pelo belo encontro entre pesquisa de acervo, narrativa e montagem expõe discursos que se repetem, lugares que persistem, além da luta pela visibilidade de atores e atrizes negras e a subjetificação dos personagens”. As histórias, repetidas por grandes ícones, mulheres negras como Zezé Motta, Ruth de Souza e Grande Otelo escancaram uma realidade racista na história do audiovisual brasileiro.
Minha história é outra, documentário do Rio de Janeiro, dirigido pela Mariana Campos, por trazer às telas a realidade de jovens lésbicas, pretas e periféricas numa narrativa em que o amor é resistência e possível entre mulheres. “Vivências reais construídas com poesia no limiar do documentário e a ficção, numa narrativa onde vínculos de afeto perpassam conflitos de aceitação e solidão, além de trazer à tona questões raciais dentro das relações”, segundo o Júri.

MOSTRA SELEÇÃO POPULAR

Alocada dentro do site, a Mostra Seleção Popular reúne mais de 400 filmes que contam a história de 15 edições do Festival. Por meio de votação o público escolheu outros três nomes para serem premiados e ovacionados na noite. Para que você ainda tenha tempo para assistir, a mostra seguirá disponível por mais 30 dias em nossa plataforma! 

O documentário, do Rio Grande do Sul, O Afeto e a Rua, dirigido por Thiago Koche, o filme retrata uma realidade de exclusão, fome, frio e preconceito, ao retratar a relação de amor e carinho entre pessoas em situação de rua e seus cães.
O segundo mais votado foi o outro documentário, dirigido pela Camila Martis, Lipe: vida em movimento, na qual revela a vida do Felipe, menino que nasceu com uma malformação congênita da coluna vertebral, o que o levou a comprometimentos motores e fisiológicos da cintura para baixo.
E o terceiro colocado pelos votos populares, foi à ficção 72 dias com Pedro, dirigida pela Victoria Edwiges, onde Eduarda é uma adolescente que sonha em seguir a carreira de dançarina mas, abalada com a morte da mãe, se junta ao irmão para entender como os laços familiares podem se conectar com o amor e a dança.

Premiados

Mostra Competitiva

– Júri Oficial

Trindade | Direção: Rodrigo Meireles |  Minas Gerais

Em Reforma | Direção: Diana Coelho | Rio Grande do Norte

Perifericu | Direção: Nay Mendl, Rosa Caldeira, Stheffany Fernanda e Vita Pereira |  São Paulo 

– Júri Popular

Colapsar | Direção: Renata Baracho | Alagoas

 Menção Honrosa

Tudo que é apertado rasga, Bahia |Direção: Fabio Rodrigues Filho

Minha história é outra, Rio de Janeiro | Direção: Mariana Campos

Mostra Seleção Popular

 O afeto e a rua, com 1066 curtidas | Direção: Thiago Koche | Rio Grande do Sul 

Lipe: a vida em movimento, com 730 curtidas. | Direção: Camila Martins | Distrito Federal

72 dias com Pedro, com 720 votos, | Direção: Victoria Edwiges | Goiás



Tarape TV estreia a websérie Pílulas Digitais nesta quarta-feira, 15/07

Com um total de nove episódios, a websérie Pílulas Digitais, dirigida e roteirizada pela jornalista Nina Rodrigues, curadora do Festival Taguatinga de Cinema desde 2017, abordará os conceitos básicos de produção e gestão de festivais de cinema de curta-metragem com perspectiva periférica, isto é, voltados para filmes produzidos à margem do sistema de produção industrial e realizados por novos sujeitos cinematográficos.

O objetivo é incentivar aqueles que querem envolver-se ativamente na execução de projetos inovadores de festivais de cinema, conectados com as novas tendências do audiovisual e com a cultura do acolhimento. Para isso, a websérie oferece ao público a experiência acumulada do Festival Taguatinga de Cinema com a realização de 15 edições. 

O episódio de estreia das Pílulas Digitais aborda conceitos relacionados à sobrevivência, relevância e credibilidade de festivais de cinema e destaca a importância de uma identidade bem definida, que é ponto de partida decisivo para o estabelecimento tanto dos objetivos curatoriais e de comunicação quanto do formato do festival.

O idealizador do Festival Taguatinga de Cinema, William Alves, é o narrador em primeira pessoa deste primeiro episódio, pincelando conceitos ao mesmo tempo que oferece exemplos relacionados à sua própria vivência na direção do festival. 

A exemplo do que faz William Alves na pílula de estreia, os profissionais ligados à curadoria, comunicação e design, produção, logística, coordenação geral e financeira do festival, são os narradores dos demais episódios, abordando princípios e conceitos relativos às suas áreas de atuação, ressaltando a importância dos festivais de cinema como meios táticos para o fortalecimento da produção nacional de curta-metragem.  

A partir de 15 de julho, a websérie Pílulas Digitais vai estrear novos episódios semanais na Tarape TV (nosso canal no Youtube), sempre às 20h de quarta-feira, descrevendo inclusive a experiência de fazer um festival inteiramente online em 2020 por causa da pandemia de Covid-19.

Os temas da pílula de estreia e dos próximos episódios são os seguintes: 

Episódio 1: Festivais de cinema: alma e identidade

Estreia em 15 de julho

Episódio 2: Festivais de cinema no mundo transmídia 

Estreia em 22 de julho

Episódio 3: Curadoria de filmes: caixa de ressonância do mundo

Estreia em 29 de julho

Episódio 4: O passo a passo da curadoria

Estreia em 05 de Agosto

Episódio 5: Filmes, festivais e a cultura da sinergia

Estreia 12 de Agosto

Episódio 6: Anatomia financeira de festivais de curta-metragem 

Estreia em 19 de Agosto

Episódio 7: Comunicação e lugar de fala

Estreia em 26 de agosto

Episódio 8: Produção e logística do acolhimento

Estreia em 2 de setembro

Episódio 9: Festival online: expandindo fronteiras

Estreia em 9 de setembro



A Praga do Cinema Brasileiro

Zé do Caixão, personagem icônico do cinema de horror brasileiro, percorre a Esplanada dos Ministérios em Brasília com o seu triciclo motorizado. Faz uma parada estratégica em frente ao Congresso Nacional e, de capa preta e tridente em punho, roga uma praga.

A cena que abre o filme A Praga do Cinema Brasileiro, dos diretores William Alves e Zefel Coff, foi gravada há exatos 20 anos e serve de âncora para uma narrativa que celebra o cinema brasileiro como espelho da sociedade. O conjunto do filme, composto por esta cena inicial seguida de um mosaico de fragmentos de filmes realizados entre os anos 1960 e 1990, converte a praga de Zé do Caixão numa bênção ao nosso cinema, mesmo que a realidade ali refletida confronte o público com uma história antiga de ataques do imperialismo americano à soberania do Brasil, dando a ver que ela ainda não foi superada. 

A Praga do Cinema Brasileiro, que foi lançado em 2018 durante a 13a. edição do Festival Taguatinga de Cinema, está agora disponível na TARAPE TV, o canal do festival no Youtube. A Praga é um filme de curta-metragem com 27 minutos de duração.

O lançamento do filme em 2018 aconteceu na mesma noite em que o Festival Taguatinga de Cinema homenageou o ator que por mais de 50 anos encarnou a figura mítica de Zé do Caixão. José Mojica Marins, morto em fevereiro deste ano, gravou a cena de abertura de A Praga quando veio participar da edição de 2000 do FesTaguá.

Pedro Marins encarna Zé do Caixão durante noite de homenagem ao seu avô, José Mojica Marins, durante a 13a. edição do Festival Taguatinga de Cinema

O diretor William Alves conta que o registro audiovisual foi guardado a pedido de Mojica. “Ao final da filmagem, perguntei a ele o que deveria fazer com o material. Mojica me pediu que o guardasse e esperasse por um sinal que ele mesmo daria em momento apropriado. Foi somente em 2018 que recebi a autorização para fazer uso das imagens.”

Um dos maiores desafios dos diretores de A Praga foi criar um roteiro a partir do material gravado dezoito anos antes. “Buscamos construir uma estética que dialogasse com as imagens e o discurso proferido por Mojica. A força daquele ato político encarnado pelo personagem Zé do Caixão deveria abrir passagem para uma narrativa com vigor equivalente.”

Os diretores então começaram a investigar as imagens do Brasil do período entre 1960 e 1999 e, então, construíram uma narrativa a partir de filmes brasileiros que fazem um apanhado histórico do país, além de atestar a qualidade do cinema brasileiro.

“Para nossa surpresa, nos deparamos com filmes que nunca chegaram ao grande público, filmes tidos como ruins, mal produzidos. Quisemos prestar uma homenagem e fazer um desagravo aos filmes que foram insultados como uma praga que não prestava para nada”.

O curta A Praga do Cinema Brasileiro, em sua passagem por vinte festivais de cinema do Brasil e do exterior, recebeu nove prêmios: Melhor Filmes no Festival de Cinema de Santa Teresa, Melhor Montagem em cinco festivais (51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, 12º Curta Taquary, 3º Festival de Cinema do Paranoá, 14º Encontro Nacional de Cinema e Vídeo dos Sertões, 14ª edição do Comunicurtas UEPB) Melhor Roteiro no 26º Festival de Cinema de Vitória de 2019, além do Prêmio SESC Cinema de Arquivo.

Os diretores William Alves e Zefel Coff discursando durante o lançamento de A Praga do Cinema Brasileiro no Festival Taguatinga de Cinema 2018.



A Transformação do Silêncio em Linguagem Cinematográfica e Ação

Por Marina Pontes

O título é uma interferência minha no texto “A Transformação do Silêncio em Linguagem e Ação”, da escritora Audre Lorde, proferido por ela em 1977, no painel “Lésbicas e Literatura” da Associação de Línguas Modernas, e publicado em vários livros da autora. Isto porque Sair do Armário, meu curta-metragem de 2018, só foi possível devido ao descobrimento desse texto, e devido a Audre. 

Eu costumo sempre contar a versão mais curta desse processo: eu precisava realizar um exercício de documentário para uma disciplina do meu curso de Cinema e Audiovisual (UFRB), e como eu já havia ultrapassado o prazo de entrega, precisava trabalhar com o que tinha em mãos: a urgência pessoal de falar com minha mãe sobre a minha sexualidade e um aplicativo de gravação de som no celular.

Colocando assim, faz parecer que foi um processo rápido e intuitivo, que suas escolhas técnicas não precisaram ser trabalhadas, não é? Acontece que não foi bem assim, e eu gostaria de utilizar esse espaço para desfazer essa ideia que, muitas das vezes, eu mesma reforcei, uma vez que a versão completa levaria algumas horas e muitas lágrimas.

Bom, eu poderia dizer que o processo de Sair do Armário começou na minha infância, quando escrevia cartinhas cheias de corações pra uma amiga que eu gostava até demais; aos 14 anos, quando ouvi pela primeira vez a palavra lésbica e sua definição; aos 17, quando meus pais descobriram minha primeira namorada; ou aos 21, quando, já na faculdade e longe de casa, contei para minha mãe por telefone.

Em todos os momentos – exceto na infância, onde eu não compreendia o sentimento daquelas cartas – eu senti medo. Além da sociedade como um todo, sou de família evangélica e, por consequência, sentir medo da punição, calar e consentir eram princípios muito bem cristalizados dentro de casa. Sempre tive uma comunicação melhor com minha mãe, mas nunca tratando de sexualidade.

Quando meus pais descobriram minha primeira namorada, por exemplo, eu temi apanhar e ser impedida de sair de casa. Eles ameaçaram me tirar da escola (eu e minha namorada estudávamos juntas) e de retirar meus meios de comunicação, além de demonstrarem desprezo e nojo. Por medo de ficar presa e longe de minha namorada, eu prometi que ia mudar. 

Para sobreviver, aprendi a me esconder melhor, a mentir melhor sobre aonde eu ia e com quem estava, e a comunicar o que eu precisava de forma que não deixasse meus pais furiosos: tom calmo e meigo, muitas das vezes apelando para uma expressão facial fofa e inocente, e jamais confrontando. Se eu identificava um tom de ameaça ou o início da raiva, recuava imediatamente. Do contrário, o resultado era gritos e objetos quebrados à minha volta.

Voilà, temos o tom da conversa no filme! Para além do respeito e amor que de fato existe entre mim e minha mãe, esse era o único tom possível para que o diálogo não saísse de controle. Eu não respondo quando ela diz que eu devo ficar sozinha ou quando – em um trecho que não coloquei no filme – ela me pede para nunca ter um filho com outra mulher, pois uma criança não tinha culpa de eu ser assim.

Esses eram momentos que qualquer palavra ou expressão errada, poderiam retirar a camada de respeito mútuo e dar lugar à hierarquia mãe e filha / Deus e pecado, que existe em contraste com o respeito e companheirismo que desenvolvemos em outras áreas de nossas vidas. Em Sair do Armário, eu escolhi o que dizer e como responder visando minha própria segurança.

É evidente que eu não tinha como ter certeza da reação de minha mãe e, posteriormente, a de meu pai, se eu dissesse tudo da forma exata, como eu gostaria. Entretanto, minha experiência com eles me ensinou a ter cuidad – um lar violento é sempre uma bomba relógio. Mas, voltando para a linha do tempo, eu tive que resolver todas minhas questões nesse caldeirão interno que cada uma de nós tem. Como diz Elisa Lucinda:

“Tá acostumada a viver por dentro, 

Transforma fato em elemento

A tudo refoga, ferve, frita

E ainda sangra tudo no próximo mês.” 

Peguei os elementos que fui conhecendo ao longo do tempo: feminismo, lesbianidade política, amor, amizade, aceitação, o próprio cinema brasileiro e misturei tudo aqui dentro. Deixei ferver, depois esfriar, e senti que ainda não estava pronta. Foi quando tentei contar para minha mãe por telefone, acreditando que meu empoderamento me protegeria. Saiu tudo meio torto, tudo no formato “mas e se eu for” ao invés de “mãe, eu sou”. 

Faltava alguma coisa. Todo o conhecimento que eu tinha adquirido não eliminou meu medo, e ler Audre Lorde foi como estar à deriva em alto mar e enxergar a torre de um farol piscando ao longe em uma ilha de compreensão. Eu não sabia como chegar lá, entretanto, tinha certeza que era para onde eu deveria ir. Um de meus trechos favoritos de “A Transformação do Silêncio em Linguagem e Ação” é: 

Questionar ou falar da maneira como eu acreditava poderia ter provocado dor, ou a morte. Mas todas nós estamos sofrendo de tantas maneiras o tempo todo, e a dor tampouco tem diminuído ou cessado. A morte, por outro lado, não é mais do que o silêncio final. E ela talvez chegue rápido, agora mesmo, antes que eu tenha dito o que preciso dizer. Ou enquanto eu traio a mim mesma pensando que algum dia falarei, ou esperando que outras o façam. (LORDE, 1977, p.1)

Audre afirma que cada uma de nós pode contornar os rostos de nossos próprios medos. Os meus têm faces de rejeição e violência, e eles não diminuíram ou cessaram por eu entender a homofobia como estrutura, me amar e aceitar por ser lésbica, compreender que eu não sou um ser humano menos digno por isso. O erro estava aí: acreditar que empoderamento é igual à ausência do medo. 

Audre me ensina a falar apesar do medo e minha voz é o Cinema. Transformei meu silêncio em filme, e gravá-lo foi minha ação – que mais tarde mobilizou muitas outras. Sair do Armário é o primeiro de minha trilogia estreante no Cinema Brasileiro e é também a prova de que, quando produzimos com o coração, tocamos outros. Assim como Audre tocou o meu, assim como Sair do Armário tocou o do Festival Taguatinga de Cinema.

 A trilogia é seguida do meu curta experimental Lésbica (2018) e, por fim, o ficcional E o que a gente faz agora? (2019), que estará presente no FesTaguá desse ano! Todos os três tratam da Lesbianidade, mas cada um focalizado em um aspecto da sexualidade: Sair do Armário sendo o aspecto familiar, Lésbica, o aspecto pessoal, e o E o que a gente faz agora?, o aspecto amoroso.

Esse último tem inspiração em um outro texto da Audre, mas isso eu deixo para contar pra vocês no debate do dia 15 de agosto, que farei com outros realizadores! Obrigada, Festival Taguatinga de Cinema, por todo o carinho, acolhimento, apoio e espaço. Vida longa ao Cinema Brasileiro, vida longa ao Festival que mudou a minha vida. 

MARI

  • Sair do Armário, o filme de estreia de Marina Pontes, participa da Mostra Convida 2020 e pode ser visto até domingo, 28 de junho, aqui no site do festival. 



O cinema engajado de Julia Mariano está na Mostra Convida 2020

A cineasta carioca Julia Mariano atua como diretora, produtora e roteirista desde que voltou de Cuba, em 2005, ano em que concluiu a especialização em documentário na Escola de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños (EICTV). Seu cinema comprometido com temas políticos e sociais, como a luta pela terra e a Reforma Agrária, já esteve presente em duas mostras competitivas do Festival Taguatinga de Cinema. Em 2017, Julia trouxe ao festival o curta documental Do Corpo da Terra, que recebeu menção honrosa do júri. Em 2018, a cineasta participou da mostra competitiva com o curta-metragem Utopias. Os dois filmes participam da Mostra Convida 2020, disponível no site do festival até 28 de junho. 

Cena do filme Utopias, de Julia Mariano. Foto: Thiago Dezan

Do Corpo da Terra é um filme de 2017 sobre quatro mulheres do Coletivo de Saúde do MST que mudaram suas vidas na relação cotidiana com a terra e seus corpos a partir dos conhecimentos da medicina tradicional popular. Este foi o segundo curta-metragem que Julia realizou sobre assuntos relacionados à questão agrária. Em 2014, ela dirigiu o premiado Ameaçados, que foi prêmio do público no festival Curta Cinema (Rio de Janeiro, 2014) e no 25º Kinoforum (São Paulo, 2014) e ganhou  Melhor Direção no Festival Guarnicê (Maranhão, 2016). Em 22 minutos, o filme escancara a impunidade e o absurdo que cercam as execuções de trabalhadores rurais no sul e no sudeste do Pará.

O cinema aproximou Julia do Movimento dos Sem Terra. Na década de 1990, um filme sensibilizou-a para a luta pela terra e pela Reforma Agrária: ‘O sonho de Rose – 10 Anos Depois’, da diretora Tetê Moraes, documentário que retrata a vida da família de Rose, agricultora morta durante uma passeata do MST. Mas Julia conta que foi só durante a pesquisa para um documentário sobre o bispo Dom Pedro Casaldáliga visitou um assentamento pela primeira vez. “Fiquei muito impressionada com a força do movimento e dos camponeses. Lembro que em especial da força das mulheres.” 

Utopias é o outro curta dirigido por Julia que está na Mostra Convida 2020. O filme é um dos cinco episódios da série Desde Junho, produzida para a TV Brasil, tomando como pano de fundo as Jornadas de Junho. Utopias percorre os caminhos da mídia independente e dos movimentos sociais dentro do novo contexto político pós-2013 e faz uma análise dos diferentes tratamentos dados pela polícia e pela mídia corporativa às manifestações pró e contra o impeachment, estabelecendo como contraponto a atuação da mídia independente. Além disso, o filme trata dos limites da produção e do consumo de informação na internet. 

A carreira de Julia Mariano como cineasta inclui também a sua atuação como roteirista em diversos programas de televisão, tais como Vai Pra Onde? (MSW), Revista do Cinema Brasileiro (TV Brasil) e Conexões Urbanas (MSW). Para o Discovery Channel, fez pesquisa para a série Viver para Contar. Além disso, Julia produziu e roteirizou dois filmes de longa-metragem do diretor carioca Emílio Domingos, ambos vencedores do Festival de Cinema do Rio: A Batalha do Passinho, (Melhor Documentário na Mostra Novos Rumos no Festival do Rio, 2013), e Deixa na Régua (Prêmio Especial do Júri, 2016).



Programe-se para assistir em casa ao Festival Taguatinga de Cinema 2020

Ao tomar a decisão de ser inteiramente online em 2020 por causa da pandemia de Covid-19, o Festival Taguatinga de Cinema, que por vocação promove o debate sobre as questões urgentes do nosso tempo, tematizadas pelo cinema brasileiro de curta-metragem, decidiu ampliar esse debate através de uma programação variada que estará no ar durante dois meses. 

De 04 de julho a 30 de agosto, lançaremos aqui (festivaltaguatinga.com.br), todos os sábados, às 20h, sessões inéditas com três dos 24 filmes de curta-metragem que compõem a Mostra Competitiva deste ano. Cada sessão será seguida de debate com os realizadores, com transmissão às 21h pela Tarape TV, o canal do Festival Taguatinga de Cinema no YouTube, e pelo nosso perfil no Facebook.

Se, de um lado, não teremos este ano o encontro presencial que sempre movimenta muita  energia e alegria, enchendo a sala de cinema com a boa vibração do público de Taguatinga e demais cidades do Distrito Federal, de outro, o festival online levará a sua 15a edição aos quatro cantos do Brasil, exibindo uma seleção de filmes potentes de temática contemporânea, permitindo que o público da internet interaja com os realizadores durante o debate na Tarape TV e no Facebook, por meio de perguntas enviadas nas plataformas. 

Votação online

Depois do lançamento de cada sessão da Mostra Competitiva, o público terá até 24 horas para votar nos seus filmes favoritos. O prazo de votação se encerra, portanto, às 20h do domingo, mas os filmes de cada sessão estarão disponíveis no site até o lançamento da próxima sessão, no sábado seguinte. O FesTaguá vai premiar o curta-metragem mais votado pelo público.

Mostras e curadoria popular

Além da Mostra Competitiva, o festival contará com uma Mostra Paralela e uma Mostra Infantil. A Paralela terá três sessões com lançamento aos domingos (05, 12 e 19 de julho), às 20h. Assim como a Mostra Competitiva, os filmes da Paralela estarão disponíveis durante uma semana após a sessão de lançamento e haverá debate com os realizadores ao fim de cada sessão. 

Ao lado dos filmes selecionados pela curadoria do festival para as mostras Competitiva, Paralela e Infantil, teremos também a Mostra Seleção Popular com mais de 400 filmes inscritos. Todos os anos o Festival Taguatinga de Cinema realiza uma mostra online com curadoria popular, permitindo que o público tenha acesso à grande parte da produção brasileira de curta-metragem. Este ano, ela acontecerá simultaneamente ao restante da programação e premiará os três filmes mais curtidos.

Oficinas e Webséries

A programação do Festival Taguatinga de Cinema 2020 terá ainda oficinas online, que em breve serão divulgadas no site e em nossas redes sociais. O internauta deverá estar atento para o período de inscrições.

O público do festival será contemplado também com duas webséries na Tarape TV. As duas têm estreia prevista para o mês de julho. A websérie Pílulas Digitai dará dicas para quem quiser começar a produzir um festival de cinema de curtametragem em sua quebrada. Já a Futuroscopia, projeto ancorado neste presente atípico e desestabilizador, buscará fazer provocações sobre o tempo futuro, suas possibilidades e impossibilidades, buscando nas artes (o cinema em especial), nas diferentes culturas, na ciência aberta e colaborativa, nas diversas vertentes filosóficas e até em tradições espirituais, os fundamentos de suas especulações, considerando que projeções sobre o futuro fazem parte da cultura humana.



Carta de repúdio ao cancelamento do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Leia a íntegra da carta sobre a nova tentativa de boicote ao Festival de Brasília do Cinema Brasileiro pelo Governo do Distrito Federal, subscrita pelo Festival Taguatinga de Cinema e demais festivais, associações culturais e de profissionais do audiovisual do DF.

Após a edição catastrófica de 2019, quando o Governo do Distrito Federal tentou censurar as manifestações no 52o Festival Brasília de Cinema Brasileiro, o evento sofre mais uma tentativa de desmonte. Alegando falta de verba para seu financiamento, o atual Secretário de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, Bartolomeu Rodrigues, o Bartô, anunciou o cancelamento, neste ano, do Festival de Cinema de Brasília, obviamente com a anuência do Governador Ibaneis Rocha. A alegação de falta de recursos não se sustenta, já que os mesmos foram previstos em orçamento. O GDF alega que precisou contingenciar recursos para bancar medidas emergenciais de combate à COVID 19.

Por que da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, Governador? Logo da prima mais pobre dentre as secretarias de governo? A cultura é um dos setores mais atingidos pelo distanciamento social durante o combate à pandemia e esse cancelamento vem na contramão da recente aprovação, na Câmara Federal e no Senado Federal, da Lei Aldir Blanc, uma espécie de socorro aos profissionais do audiovisual. O GDF deveria somar nesse sentido e não remar em sentido contrário. O Festival de Brasília não é bancado exclusivamente pelo GDF. Recebe apoio de várias grandes empresas via leis de incentivo, que podem ser articuladas via Secretaria. São recursos que são injetados na economia local em função do Festival Brasília. Além disso, o Festival Brasília movimenta de várias formas a economia local: atrai pessoas de fora que consomem em hotéis, bares, restaurantes, transporte, visitas turísticas, etc.

É notória a importância do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro para o Distrito Federal e para o Brasil. É o mais antigo festival do gênero e um dos poucos dedicados exclusivamente ao cinema nacional. Ocorre anualmente em Brasília, no histórico Cine Brasília. O cinema brasileiro, os cineastas de Brasília e o público que lota anualmente o Cine Brasília durante o festival, não merecem esse cancelamento abrupto. É uma má notícia que chega em um domingo de protestos em defesa da democracia e de tristeza pelos números absurdos da COVID 19 no DF e no Brasil (nacionalmente, são mais de 700 mil pessoas atingidas e mais de 36 mil mortes).

A notícia, dada em primeira mão pelo jornal Correio Brasiliense no domingo, 7 de junho de 2020, e, sem qualquer aviso prévio às associações de profissionais do cinema e do audiovisual de Brasília, entristeceu ainda mais o domingo no Distrito Federal. Há poucos dias atrás houve uma reunião das ditas associações com o Secretário Bartolomeu Rodrigues, na qual foi pactuado que haveria o Festival e logo em seguida foi montada pelo Secretário uma comissão de trabalho para tal. Segundo representantes das referidas associações, haverá tentativas no sentido de reverter essa decisão junto ao Secretário e junto ao GDF. Outro ponto levantado pelo movimento cultural é que a realização do festival traria dinamismo ao setor e distribuição de recursos em cachês de seleção e prêmios a serem distribuídos de forma local e nacional, ou seja, o festival poderia sim minorar o impacto da crise que atinge principalmente o mercado cultural e não contingenciar tais recursos. Os produtores culturais e cineastas afirmam ainda que estão dispostos a discutir como será o Festival de Brasília em 2020: se presencial, online ou híbrido.

Dácia Ibiapina, realizadora e professora aposentada de audiovisual da Universidade de Brasília, afirma: “O FBCB é a principal vitrine do cinema brasileiro e congrega anualmente em Brasília os filmes mais importantes e mais instigantes do cinema brasileiro com seus diretores, atores, equipes técnicas. É um festival político e não pode deixar de ser já que ocorre na capital federal. 2020 promete. Com a pandemia do COVID 19, certamente vai se discutir no Festival de Brasília 2020 os impactos da referida pandemia no cinema e no audiovisual, além das políticas públicas de fomento ao setor, ou a falta que elas fazem, durante o governo Jair Bolsonaro, marcado pelo desmonte da Ancine e do Fundo Setorial do Audiovisual. Desde 1965, quando foi criado o FBCB, ele só não aconteceu durante a ditadura militar: anos de 1972, 1973 e 1974. O sonho de todo cineasta do DF é ter um filme exibido no FBCB. Uma garantia de que o filme será visto e discutido no DF, no Brasil e até mesmo no exterior, tendo em vista que por aqui passam durante o Festival de Brasília curadores dos festivais mais importantes do Brasil e do mundo.”

O descaso com o cinema nacional se reafirma mais uma vez com a falta de articulação política por parte dos governos distrital e federal e sistemático desmonte dos espaços de interação e debates sobre o mercado audiovisual. Em anos mais recentes, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro promove também um ambiente de mercado, onde empresas nacionais e internacionais comparecem para ver e adquirir direitos de exibição de filmes, séries e outros produtos/obras audiovisuais. O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro tem grande importância para o cinema nacional e não pode ser cancelado. Os realizadores de todo o país estão se articulando, dentro e fora das redes sociais, para garantir a realização da edição 2020. As nossas ações serão mais amplas e farão ainda mais barulho que as do ano passado, além de desencadear outros protestos. Afinal a história do festival se confunde com a história da cidade, não podemos deixar de realizar por falta de verba e articulação política!

O Festival de Cinema de Brasília é um patrimônio Nacional. Símbolo da Resistência do Cinema Brasileiro por décadas. Somos muitos em torno desta simbologia: público, trabalhadores, equipes técnicas, grupo de realizadores, produtores, exibidores, curadores, escritores e críticos. É necessária nossa união em torno da realização do Festival. Chega de desmonte. Vamos transformar essa luta local em uma luta Nacional, uma luta pelo Cinema Brasileiro. O Festival de Cinema pode cumprir novamente seu papel histórico: Baluarte da Resistência contra a opressão e o desrespeito impostos aos realizadores e trabalhadores do audiovisual.

Assinam:

Associação Cultural FAISCA
CEICINE – Coletivo de Cinema em Ceilândia
ASPEC – DF – Associação dos Produtores em Economia Criativa
APAN – Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro
Cineclube Catraca – Brazlândia
Cine Joaquim – Águas Claras
Convergência Audiovisual DF
FESTUNI – Festival de Brasília do Cinema Universitário
Verberenas – diálogos sobre cinema e cultura por mulheres realizadoras ABCV – Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo
Movielas – Mulheres do som e da imagem do DF
API – Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro Frente Unificada Cultura – DF
Cineclube BCE/UnB
Cine Cleo
MAv – DF – Mulheres do Audiovisual do Distrito Federal
Festival Taguatinga de Cinema
Festival de Cinema do Paranoá
Motriz Festival de Cinema de Planaltina
Festival Curta Brasília

Distrito Federal, 08 de junho de 2020



O Jirau da Hydro | Cinema de Guerrilha e Meio Ambiente

O diretor paraense de cinema Márcio Crux participa da Mostra Convida 2020 com o seu curta-metragem O Jirau da Hydro, um dos vencedores do Festival Taguatinga de Cinema 2019. Neste artigo que publicamos em homenagem ao Dia Mundial do Meio Ambiente (05/06), ele descreve o processo urgente de produção do filme, o impulso da equipe para realizá-lo e nos conta a sua experiência pessoal durante a 14a. edição do FesTaguá. 


“Não creio no cinema pré-concebido. Não creio no cinema para a posteridade. A natureza social do cinema demanda uma maior responsabilidade por parte do cineasta. É urgência do Terceiro Mundo. Essa impaciência criadora do artista produzirá a arte dessa época, a arte da vida de dois terços da população mundial”.  Santiago Alvarez, cineasta cubano

O Jirau da Hydro é um documentário de curta-metragem produzido na cidade de Barcarena, no estado do Pará durante protestos da comunidade local contra os vazamentos de rejeitos de bauxita na região pela mineradora dinamarquesa Hydro Alunorte. Quando nós da equipe tomamos conhecimento da realização do protesto, além da urgência social e política de participar da manifestação, tanto em função das nossas convicções sociais e políticas e de solidariedade à causa, também percebemos ali a potência fílmica e a necessidade de documentar o protesto. 

Planta da mineradora dinamarquesa Hydro Alunorte em Barcarena (PA)

O filme foi produzido em praticamente cinco dias, sendo dois de pré-produção, um de gravação e mais três dias de pós-produção, duas câmeras e um som direto, tudo no calor do momento. Não poderíamos esperar para lançar um filme depois de um mês ou pensar em submetê-lo a burocracia de editais para transformá-lo em algo para o qual ele não foi concebido. Não existiu um roteiro do que íamos fazer. A ideia era conversar, conhecer as pessoas, suas angústias, registrar o que fosse possível e voltar para a ilha de edição e nos debruçarmos sobre o material que tínhamos coletado. Aí, sim, daríamos início a uma visão mais poética, mas, ao mesmo tempo, crua, dos acontecimentos. Em O Jirau da Hydro, o assunto principal é a revolta daquelas pessoas que residem em Barcarena e sofrem há muito tempo em uma luta completamente desigual. E uma revolta não se planeja, ela urge. 

E é justamente nessa urgência que está a dinâmica do filme: ele é curto, direto naquilo que se propõe, tem lado e posição política. É uma responsabilidade social que ele seja assim, porque a luta daquelas pessoas não é para ser romantizada em longos planos contemplativos ou demonstrar interesse pelo lado dos poderosos que sempre estão na mídia declarando sua inocência. A beleza ali tem cor de barro, barro com bauxita. É um Cinema de Guerrilha e Cinema Urgente feito na Amazônia brasileira.

Em 2019, depois de mais de um ano de produção, é que decidimos inscrevê-lo em festivais. E assim que fui para Taguatinga, com o intuito de participar de um festival de cinema, conhecer pessoas novas e suas formas de fazer audiovisual nos seus locais de atuação. Chego lá e encontro uma produção acolhedora, com pessoas maravilhosas, prestativas e atenciosas e encontro realizadores e militantes da cultura que transformaram essa experiência na capital em algo que guardarei para sempre. Todos ali retratavam em seus filmes algum dilema que precisava ser contornado, seja pessoal ou social, e eles encontraram no audiovisual e no cinema essa válvula para se expressar. Mas além disso, encontrei pessoas afetuosas e carinhosas, dispostas a ouvir e ajudar, pessoas que estão neste mesmo barco, à esquerda de tudo o que vem acontecendo no país. Artistas de alto valor que usam o audiovisual, o teatro, a poesia e o corpo para se manifestar em um mundo tão perverso e hostil.

O diretor Márcio Crux, premiado por O Jirau da Hydro, na 14a. edição do FesTaguá

O Jirau da Hydro voltou de Taguatinga premiado pelo júri do festival, e a equipe do filme ficou feliz demais. Mas, particularmente, mesmo que o prêmio não viesse – pois haviam filmes incríveis ali e não seria injustiça nenhuma que qualquer um ganhasse- , eu voltaria realizado por toda a troca que ocorreu durante o Festival. A urgência em fazer um filme ou a inquietação para produzir e resistir com um festival são demandas extremamente necessárias nesses tempos cruéis em que vivermos. Que nunca se apaguem as chamas da inquietude e da urgência. Daqui de Belém até Brasília, um grande salve!

Assista aqui a O Jirau da Hydro: https://festivaltaguatinga.com.br/festivalTagua/15/assista/mostra/paralela/filme/40/1399



Mostra Convida 2020 | Esquentando os motores

A programação inteiramente online da 15a edição do Festival Taguatinga de Cinema estreia nesta sexta-feira, 05 de Junho, com o lançamento da Mostra Convida 2020, que conta com 16 filmes de curtas-metragens exibidos nas edições de 2017, 2018 e 2019 do festival. A Convida 2020 é o “esquenta” para a Mostra Competitiva do FesTaguá, que começa em 4 de Julho.

Dos 16 filmes da Convida, oito estiveram na Mostra Competitiva de 2017, quando o festival teve como tema a ‘Nossa Porção Mulher’, abrindo-se às forças centradas em valores femininos e, portanto, defensoras dos direitos sociais e dos direitos da Terra, das liberdades individuais, das igualdades de gênero, racial e de orientação sexual. São desta safra, os seguintes filmes: 

Ainda não lhe fiz uma canção de amor, de Henrique Arruda (RN)

Almerinda, a luta continua, de Cibele Tenório (DF)

Crônicas do meu silêncio, de Beatriz Pessoa (SP)

Diamante, o bailarina, de Pedro Jorge (SP)

Do Corpo da Terra, de Júlia Mariano (RJ) 

Mucamas, do Coletivo Nós, Madalenas (SP)

Sustento, de Sylara Silvério (PE)

Translúcidos, de Asaph Lucas e Guilherme Cândido (SP)

Com o tema ‘O Movimento em Nós’, o Festival Taguatinga de Cinema exibiu em 2018 filmes atravessados pelo desejo de resistir e florescer na aridez do Brasil atingido pelo golpe que levou ao impeachment da presidenta Dilma Roussef.  Os 5 filmes daqueles ano selecionados para a Mostra Convida 2020 contam histórias de indivíduos e coletivos que atuam na rota dos afetos, respondendo criativamente à violência dos espíritos antidemocráticos e obscurantistas do nosso tempo, buscando saídas, soluções e desvios poéticos. São eles: 

Carroça 21, de Gustavo Pera (SP)

Desde Junho, de Júlia Mariano (RJ)

Elinor, de Juliana Mafra e Renato Sarieddine (MG)

Mercadoria, de Carla Villa-Lobos (RJ)

Real Conquista, de Fabiana Assis (GO)

Da edição 2019 do FesTaguá, a Convida 2020 exibe três filmes guardiões de mundos que existem em desacordo com as manchetes de jornais, exaltando o respeito à Natureza, ao Si-Mesmo e à alteridade. São eles: 

O Jirau da Hydro, de Márcio Crux (PA)

Sair do Armário, de Marina Pontes (BA)

Megg – A margem que migra para o centro, de Larissa Nepomuceno e Eduardo Sanches (PR)

Os filmes da Mostra Convida 2020 estarão disponibilizados no site do festival até 28 de junho. 



Conheça os 24 filmes selecionados para a Mostra Competitiva do Festival Taguatinga de Cinema 2020

A Comissão de Seleção do Festival Taguatinga de Cinema, formada pelas curadoras Adriana Gomes, Nina Rodrigues e Thay Limeira, torna pública a lista dos 24 filmes de curta-metragem selecionados para a Mostra Competitiva da 15a edição do Festival Taguatinga de Cinema. Um total de 601 filmes de curta-metragem foram inscritos no FesTaguá 2020.

Este ano, a Mostra Competitiva do festival contará com filmes das cinco regiões do Brasil, sendo o Nordeste aquela com o maior número de selecionados, um total de dez filmes. Somente o estado da Bahia tem seis filmes em competição, seguida de Pernambuco, com dois, e Rio Grande do Norte e Alagoas, com um filme cada. São Paulo e Rio de Janeiro, que concentram a maior parte da produção brasileira de curta-metragem, terão oito curtas na mostra, quatro cada um. A região Norte está representada por uma produção do Amapá e o Distrito Federal participa da mostra com dois filmes.

As mulheres estão na direção de nove dos 24 filmes selecionados, sendo que dois deles foram co-dirigidos por duplas femininas. Homens e mulheres trans estão na direção de dois filmes da mostra – um deles é dirigido coletivamente. No total, três filmes selecionados têm direção coletiva. Diretores homens assinam a direção de dez curtas.

Veja a lista de selecionados:

À beira do planeta mainha soprou a gente, de Bruna Barros e Bruna Castro (BA)

Abraço, de Matheus Murucci (RJ)

Cão Maior, de Filipe Alves (DF)

Cartas para Ana, de Carla Caroline (BA)

Colapsar, com direção coletiva (AL)

Copacabana Madureira, de Leonardo Martinelli (RJ)

De domingo a domingo, de Marcus Vinícius de Oliveira (AP)

Do peito da pele, de Keythe Tavares e Rudolfo Auffinger (PR)

E o que a gente faz agora?, de Marina Pontes (BA)

Em reforma, de Diana Coelho (RN)

Inspirações, de Ariany e equipe (RJ)

Invasão Espacial, de Thiago Foresti (DF)

Minha história é outra, de Mariana Campos (RJ)

O verbo se fez carne, de Ziel dos Santos Mendes (PE)

Perifericu, de Nay Mendl, Rosa Caldeira, Stheffany Fernanda e Vita Pereira (SP)

Preciso dizer que te amo, de Ariel Nobre (SP)

Reduto, de Michel Santos (BA)

Rio das Almas e Negras Memórias, de Taize Inácia e Thaynara Rezende (GO)

Rua Augusta, 1029, de Mirrah Ianez Silva (SP)

Sem Asas, de Renata Martins (SP)

Trindade, de Rodrigo R. Meireles (MG)

Tudo que é apertado rasga, de Fábio Rodrigues Filho (BA)

Tupinambás – Vozes da caminhada, de Rodrigo Brucoli (BA)

Uma força extraordinária, de Amandine Goisbault (PE)

O Festival Taguatinga de Cinema de 2020 será totalmente online por causa da pandemia de Covid-19 que assola o país. Sendo assim, este ano o FesTaguá chegará ao público de todos os cantos do Brasil. De casa, todos e todas poderão assistir às nossas mostras de filmes – competitiva, paralelas e infantil – e participar das oficinas que serão oferecidas gratuitamente. Em breve, divulgaremos aqui no site a programação completa do festival.



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