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Exibição de lançamento: A Praga do Cinema Brasileiro

Em sua 13ª edição, o Festival Taguatinga de Cinema homenageia Zé do Caixão, célebre personagem criado em 1963, pelo cineasta José Mojica Marins, e que irá reencarnar em Taguatinga no corpo de Pedro Marins, neto de Mojica.

Além dessa aterrorizante participação especial de horror, o Festaguá tem a alegria de lançar o curta de ficção A Praga do Cinema Brasileiro, filmado em 2000 e finalizado em 2018, com atuação de Zé do Caixão e direção de Willian Alves e Zefell Cof.

O lançamento será na Cerimônia de Premiação, no dia 25 de agosto, às 22h, no Teatro da Praça.

Sinopse
Com a pedra da 3ª força, Zé do Caixão retorna ao passado, na virada do milênio, no dia 2 de fevereiro de 2000, com a função de evitar o Terror Político no Brasil, instituído pelo Capetal e seus canalhas capetalistas infiltrados nos setores estratégicos e que arrastaram o país para o 5º dos Infernos com as bençãos dos boizebus, das diabas e dos satanazes dos 3 poderes. Zé do Caixão abre um portal para os infernos do passado, onde liberta antigos filmes sequestrados pelo Capetal, pois estes trazem à luz as palavras dos profetas que tudo viram e que tudo sabiam.

 

 



Homenageado Especial: José Mojica Marins – Zé do Caixão

Foto: Divulgação

José Mojica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão, é uma figura mitológica viva da cultura brasileira. Aclamado como um ícone do cinema de horror, dirigiu sua primeira produção em curta-metragem, A mágica do mágico, em 1945. Desde lá, seguiu produzindo intensamente, somando mais de 40 filmes trash sob a sua direção e mais de 30 filmes em que participou como ator.

O personagem Zé do Caixão, um sádico agente funerário, foi criado em 1963, baseado na figura de um pesadelo do cineasta, no qual um homem de preto o levava para uma cova. São mais de 55 anos de um personagem que faz parte do imaginário brasileiro e que estourou bilheterias por todo o país.

Foto: Divulgação

Cineasta, ator e roteirista de cinema e televisão, Mojica nasceu em São Paulo, no ano de 1936. Passou uma boa parte da infância dentro de um cinema, onde o pai trabalhava como gerente. Prestigiado em circuitos nacionais e internacionais por sua fértil criação de filmes de terror, também produziu em outros gêneros, como faroestes, dramas, aventura e pornochanchada.

Zé do Caixão desenvolveu um estilo próprio de filmar, sendo considerado como um dos inspiradores do Cinema Marginal no Brasil. Entre seus principais filmes, estão: À meia-noite levarei sua alma (1964), O estranho mundo do Zé do Caixão (1968), Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967) e A encarnação do Demônio (2008).


Zé do Caixão no Festival

E nesta 13ª edição do Festival Taguatinga de Cinema, teremos a presença ilustre de Zé do Caixão, reencarnado em Pedro Marins, neto de José Mojica Marins. Zé do Caixão vem para uma apresentação especial na nossa Noite de Premiação, no dia 25 de agosto, abrindo a exibição do filme A Praga do Cinema Brasileiro,  gravado em Brasília com a sua atuação, no ano 2000.



Homenageado 13ª edição: Entrevista com Ivaldo Cavalcante

Quem pesquisar registros fotográficos da história de Taguatinga ou do cenário político e militante em Brasília com certeza vai chegar nas fotografias de Ivaldo Cavalcante. Também conhecido como Kabeça, apelido que ganhou ainda na juventude da década de 70, Ivaldo é uma das figuras emblemáticas de Taguá, daquelas que não só habitam a cidade, mas fazem dela mais viva, mais pulsante, mostrando para o mundo que a capital do Brasil não é só as asas do avião.

Nascido em Crateús (CE), em 1956, Ivaldo chegou em Taguatinga aos 4 anos de idade. Veio como muitas outras famílias retirantes, em um pau de arara com os pais e mais seis irmãos. Por aqui, foi crescendo e viveu um pouco da dura realidade dos muitos sonhadores que fizeram nascer as cidades satélites do DF. Foi engraxate, vendedor de jornal… se virou como pode. Na juventude, em meio a becos, praças e espaços underground, encontrou e se encantou com a fotografia, arte transformada em profissão, marcando seu nome no fotojornalismo mundial.

O trabalho de Ivaldo voa o mundo, feito águia, enquanto ele firma raízes em Taguá, na cidade que o escolheu. Foto: Sabrina Moura

 
Enquanto Kabeça, foi um caminhante voraz nas noites underground das décadas de 70 e 80. Registrou e registra cenas marcantes do cenário político, dos movimentos de resistência e das desigualdades sociais da capital do país. Seu caminho profissional na fotografia começou em 1980, levando-o a trabalhar para os principais jornais do DF. Ganhou vários prêmios nacionais e internacionais e fez exposições no Brasil e no exterior, nunca deixando Taguatinga como a cidade que escolheu para viver e realizar sonhos.

Parte do seu acervo está registrado em dois livros fotográficos publicados: Taguatinga, duas décadas de cultura (2003), com momentos do movimento cultural que resistiu à ditadura, e Brasília – 25 anos de fotojornalismo (2011), onde seu olhar volta-se aos acontecimentos e desacontecimentos do cenário político da capital. Seu olhar também foi parar nas telas, em minidocumentários produzidos com celular. Em 2014, seu curta O meu nome é Fábio recebeu menção honrosa no Festaguá. Talvez pela proximidade com as redações, em 2000, Ivaldo criou ainda o site Olho de Águia, onde divulga eventos e produções culturais da cidade.

Indo além das páginas, telas e internet, o fotojornalista também cultiva um espaço cultural na Praça da CNF, batizado de Galeria Olho de Águia. Criada em 2002, foi idealizada para abrigar seu acervo fotográfico, tornando-se muito maior. É hoje um local de troca de ideias e experiências, dividindo espaço com o Bar Faixa de Gaza. Num clima rock’n roll, que lembra bem a estética beatnik de Jack Kerouac, a galeria acolhe exposições, mostras de filmes, feiras fotográficas, pocket shows, encontros e prosas entre amigos.

Se o movimento está em nós, Ivaldo é um sopro de realização que levanta o barro vermelho do chão cerratense registrando o presente. Um ser que faz jus a homenagem que prestamos no 13º Festaguá. Confira, abaixo, entrevista com esse célebre taguatinguense de coração!

Ivaldo com o livro “Taguatinga – Duas Décadas de Cultura”. Ao fundo, fotografia de Jimmy Page, amigo e guitarrista do Led Zeppelin, com o livro “Brasília – 25 Anos de Fotojornalismo”. Foto: Sabrina Moura

 
 
Festival: Você nasceu no Ceará e mora em Taguá desde criança. Um legítimo representante das famílias nordestinas que vieram para o centro do país em busca de sonhos. Qual a sua percepção e o seu sentimento sobre essa cidade que te acolheu?
 
Sou ser 100% bairrista! Aqui, em Taguatinga, fui engraxate, vendedor de pirulito e de picolé, vendi jornais nas ruas da Shis–Sul e no centro de Taguatinga. Na minha adolescência, morei e trabalhei no Mercado Sul, na Sorveteria Polar, do meu querido cunhado, onde descobri a serigrafia e montei meu primeiro laboratório fotográfico e oficina. A fotografia foi chegando através de um grande amigo e irmão chamado Aurelino, que me presenteou um kit de laboratório fotográfico.
 
 
Festival: Na sua juventude, você foi envolvido em movimentos sociais, na cena underground e militância? Conta um pouco dessa experiência?
 
Depois que ganhei esse kit de laboratório, passei a fotografar as cenas alternativas de Taguatinga e me doei durante anos fotografando todos os movimentos e tudo que se movia na cidade. Acompanhei grupos de teatro como Grupo Retalhos e Celeiro das Antas e fui testemunha ocular de todos os festivais Rola Pedra e da Faculta, além de fotografar também os cineclubes e eventos no Teatro da Praça. Fiz tudo isso até chegar no fotojornalismo, meu caminho natural neste percurso. Aí é outra história! Houve muitas pedras no caminho, mas chutei todas.
 
 
Festival: Como você chegou no fotojornalismo enquanto profissão?
 
Quando morava no Mercado Sul, no ano de 77, o Willian, da Sarro Disco Show, ficou sabendo que eu estava fazendo um curso de fotografia no Centro de Criatividade, hoje Espaço Cultural Renato Russo, e me pediu pra fotografar as domingueiras que tinha no Clube dos 200. Um dia, vi uma equipe do Jornal de Brasília vindo fotografar umas das domingueira do clube e vi que para eles entrarem bastava só mostrar a credencial do jornal. Daí em diante descobri que queria ser fotojornalista!
 
 
Festival: Há quem diga que a imprensa morreu. Diante das mudanças e avanços nas novas tecnologias, e num comparativo a toda sua experiência nessas quatro décadas na área, como você vê a profissão do fotojornalista nesse cenário cada vez mais digital e efêmero?
 
Trabalhei durante 33 anos em jornais. A imprensa mudou muito e nessa época já havia um grande sensor de todos os jornalistas, os editores sempre usavam as tesouradas nas matérias feitas. Hoje nem se fala! Esse quarto poder apodreceu e esqueceu de cair. O povo brasileiro sempre foi manipulado pelos donos dos grandes jornalecos.
 
 
Festival: Seu livro Taguatinga – Duas décadas de Cultura é um marco para os habitantes e fazedores de cultura de Taguá. Muitos dos lugares e figuras fotografadas ali seguem, até hoje, atuantes e vibrantes na cena cultural da cidade. Taguatinga respira cultura? Que cultura é essa?
 
Hoje fico muito feliz em continuar fotografando essa rapaziada, que hoje estão todos carecas, barrigudos e de cabelos brancos.Tem uma frase do cantor e músico Belchior que gosto: “O novo sempre vem”. Demorou aparecer esse novo, mas hoje eles chegaram e estão em forma de coletivos poéticos, estão na música, na imprensa alternativa e em todas vertentes culturais. Isso em todo o país. A periferia hoje tem mais voz e continuará tendo. Acredito que com essa eleição que se aproxima haverá uma grande mudança.
 

Fotojornalismo e militância registrados em livros. Foto: Sabrina Moura

 
 
Festival: Você acompanhou e registrou grande parte da trajetória política de Brasília e do Brasil, nas últimas quatro décadas, um trabalho nítido no seu livro Brasília – 25 Anos de Fotojornalismo. Muitos dos seus registros permeiam um tempo de ditadura e pós-ditadura. De lá até os dias de hoje, num Brasil em tempos de golpe, como você analisa a situação política do nosso país?
 
Costumo dizer que esse livro é meu gibi, que vai contando histórias através de registros fotográficos de uma Brasília onde, há décadas, jogam a sujeira debaixo do tapete. Fico feliz em ter realizado e editado ele. É uma overdose de imagens sobre a problemática social que sempre foi minha tônica no fotojornalismo. O Brasil hoje está à deriva depois deste golpe. Estamos vendo um país sendo desconstruído pelos políticos sem nenhuma moral ética, uma verdadeira quadrilha que vinha se articulando nos porões da corrupção durante os governo do PT. Hoje, no pós-golpe, há milhares de empresas fechando, milhares de pessoas desempregadas. Os trabalhos informais estão crescendo assustadoramente em todo país.
 
 
Festival: Outro foco do seu olhar de fotojornalista é a vulnerabilidade social dos meninos e meninas de rua. Como é a relação de registrar essa realidade? Você se envolve emocionalmente na história deles?
 
Há três décadas que acompanho essa problemática social, onde fotografo e filmo. Sempre usei a rodoviária de Brasilia e os vários pontos que tem muitos de meninos e meninas de rua como extensão da redação. No fotojornalismo, sempre gostei de temáticas pesadas. Hoje, migrei para os documentários e é muito bom trabalhar com imagens em movimento. Não tem como não se envolver. As riquezas-humanas das ruas são esplêndidas. Esse texto, do Poeta baiano Jorge Amado, dialoga muito com meu trabalho:

“Que outra coisa tenho sido senão um romancista de putas e vagabundos? Se alguma beleza existe no que escrevi provém desses despossuídos, dessas mulheres marcadas com ferro em brasa, os que estão na fímbria da morte, no último escalão do abandono. Na literatura e na vida, sinto-me cada vez mais distante dos líderes e dos heróis, mais perto daqueles que todos os regimes e todas as sociedades desprezam, repelem e condenam.”

 

 
Festival: Sua experiência de registro com os menores de rua culminaram na produção do premiado curta O Meu nome é Fábio, premiado com menção honrosa no Festival Taguatinga de Cinema, em 2014. Depois, em Qual é o seu lugar no mundo?, a temática dos moradores de rua volta às telas a partir do seu olhar. Você já pensava em se aventurar pelo Audiovisual? Como foi esse processo e porque falar deste tema?
 
Quando morava no Mercado Sul, na década de 70, ganhei de um irmão um livro que o Pasquim tinha lançado com todas as linguagens das artes. Eu já havia me enveredado pela serigrafia e um dos tópicos do livro era sobre cinema. Li todas as páginas sobre o assunto, mas era uma época que realizar filmes e só para filhos de banqueiros.Nessa mesma época, lançaram a Revista Iris-Foto, que também tinha duas páginas sobre Super-8. A partir daí, entrei nesse universo e acabei fazendo o roteiro de um doc de ficção chamado “Joana”, sobre uma mina da periferia e seus medos diante do mundo.O doc enfoca do baixo Tagua Wall aos cabarés do centro, tendo Joana como personagem principal.

Quando consegui entrar nos jornais diários, sempre levava uma filmadora VHS na bolsa. Passei a filmar essa problemática social. Acho ‘du-carai’ a democratização desse universo digital. O doc O meu nome é Fábio foi feito com um celular. Vida longa a todos esses aplicativos.
 
 
Festival: Há anos você vem cultivando a Galeria Olho de Águia, que hoje é um reduto cultural da cidade e da Praça da CNF, cheia de histórias e parceiros. Qual a inspiração e os objetivos para a criação da Galeria e quais projetos estão em andamento no momento?
 
Pois é… Taguatinga sempre foi a vanguarda das satélites. Tínhamos o Butiquim Blues, do Marcinho, que depois veio a ser da Lazinha, o Teatro de Bolso Rola Pedra o Teatro da Praça, que ainda está em atividades. Então eu tinha que realizar algo a altura desses espaços. A Galeria é hoje um incubadora, uma trincheira de resistência cultural! Por lá rola muito da cena produzida nas satélites, como palestras sobre gestão cultural, coletivos e saraus poéticos, mesa-redonda sobre música autoral, performances, debates políticos, etc. A Galeria é hoje minha caverna do século XXl. Temos quatro projetos independentes em funcionamento: Cineclube Praça do Relógio, Biblioteca Gervásio Baptista, Voz e Violão para Músicos Autorais e Artista do Bairro. A cada 15 dias rola também abertura de exposições.
 

Bar Faixa de Gaza e Galeria Olho de Águia, dois espaços em um, congregando arte e encontros. Foto: Sabrina Moura

 
 
Festival: Em 2012, você realizou o projeto Imagem Sem Fronteiras, trazendo para Taguatinga exposições e fotojornalistas de várias partes do mundo. Ao mesmo tempo, suas fotos já foram expostas e premiadas internacionalmente. A imagem é realmente sem fronteiras? O que a fotografia representa na sua vida?
 
O Projeto imagens Sem Fronteiras é único na galeria realizado com financiamento, nesse caso, do Fundo de Apoio à Cultura do DF. Realizamos em 2012 e fomos aprovados também em 2016, deixando para realizar agora, em 2018. O projeto iniciará agora em setembro e vai até novembro. De confirmados, teremos Pep Bonet, da Agência Noor, e o espanhol Ricardo Garcia Villa Nova. São sem dúvida nenhuma um dos melhores deste século.

A fotografia é sim sem fronteiras e também liberta como todas as artes. Para mim, ela representa o cotidiano. A fotografia é a reflexão do mundo.

 

Por Keyane Dias – jornalista cultural, poeta, terapeuta
e co-criadora da
Pareia Comunicação e Cultural

 



Homenageada 13ª edição: Entrevista com Marília Abreu

Marília Abreu é uma mulher de referência na cena artística local. É atriz, palhaça, gestora e produtora cultural, militante, professora, mãe e empreendedora social. Nascida e crescida no Plano Piloto, há anos escolheu a cidade de Samambaia para viver, fazer arte e ser mãe. Lá, co-criou o Imaginário Cultural, espaço de florescimento e resistência, onde são desenvolvidas diversas atividades na quadra 103.

Em conjunto a outras dezenas de agentes culturais, Marília participa ativamente das ações em prol da construção do Complexo Cultural de Samambaia e da produção do Sarau Complexo, realizado mensalmente em vários pontos da cidade, agregando diferentes manifestações artísticas que florescem por lá.

Como produtora, recentemente executou o Brasília Junina, um mega evento que impulsionou o trabalho do Imaginário e inovou no âmbito de Competições de Quadrilhas Juninas, priorizando a visão do público e atendendo aos quadrilheiros de forma mais afetiva.

Em meio a todas essas frentes, Marília Abreu ainda encontra tempo para atuar ao lado de sua filha, Maria Clara, na Cia Roupa de Ensaio. Em 2018, lançou o espetáculo Dona Dinha, obra inspirada nas mulheres do interior de Goiás – religiosas, benzedeiras, mães, avós e bisavós. A sabedoria feminina foi representada através de músicas, histórias, causos e lendas goianas. Em 2017, atuou também no projeto de pesquisa A Chegada do Mamulengo no Reino do Cavalo Marinho, criado pelo amigo Chico Simões.

Confira, na entrevista abaixo, um pouco do fantástico mundo dessa mulher cheia de histórias, que cria e recria o movimento em nós com afetos e criatividade!

Ao lado da filha Maria Clara, no espetáculo Dona Dinha – 2018. Foto: Lucas Viana

 
Festival: Marília, você nasceu e cresceu no Plano Piloto, mas em um determinado momento as coisas mudaram e Samambaia se tornou seu lar e espaço de criação. Foi Samambaia que te escolheu ou você que escolheu Samambaia?
 
Na verdade, acho que as duas coisas. Conheci Samambaia em 1999, através da minha amiga Verônica Moreno, ela também é atriz e tinha um amor incondicional pela cidade. Eu, na verdade, ainda tinha aquela visão preconceituosa de quem morava no Plano Piloto, via tudo como uma invasão, muita doação de lote e um crescimento desordenado que traria prejuízo ao Distrito Federal. Eu não conhecia Samambaia até a Verônica me convidar para ir na casa dela e ver a Via Sacra e o Movimento Junino na cidade. Quando eu vim, já não era uma menina só Plano Piloto e já tinha muitos amigos de todos os lugares. Logo, tive muita simpatia, mesmo a cidade ainda estando bem no início, era 1999.

Em 2001, conheci meu ex-companheiro, que também era de Samambaia, e fizemos um “contrato” de experimentar morar aqui e no Plano. Tanto eu quanto ele tínhamos uma atuação de comunidade. Antes mesmo de chegar aqui eu já comecei a me engajar. Em 2008, nesse teste, acabei decidindo ficar com o desejo de constituir um lugar… A Via Sacra era um projeto muito apaixonante que participei e dele nasceram muitos artistas, principalmente das artes cênicas… Viemos com “mala, cuia, menino, papagaio, boneco, empanada e figurino.” Na verdade, não sei se foi a cidade que me escolheu ou eu que escolhi. Sinto que foi o movimento da vida mesmo. Eu vim inteira, queria morar aqui, trabalhar aqui e ver minha filha estudando aqui.
 
 
Festival: Hoje, você coordena o espaço Imaginário Cultural, que é uma referência para o movimento cultural de Samambaia e do Distrito Federal. Como tudo começou?
 
Em 2011, a gente inaugurou o Imaginário. Sempre tivemos vontade de ter um espaço para ensaio e em Samambaia não existia nenhum equipamento público de cultura… Tínhamos vontade de realizar isso para ajudar a movimentar o cenário cultural, apesar de Samambaia já ter um movimento efervescente em diversas linguagens. Pensávamos em formação de público, tudo com foco no teatro. Não tínhamos a dimensão do que o Imaginário seria hoje. Empreendemos de forma intuitiva, pensando em ofertar aulas para a comunidade, formar público e conectar os colegas de profissão para trazer espetáculos para a cidade. Intuitivamente, criamos uma rede através dos contatos com artistas e produtores que já conhecíamos e levamos novos espetáculos para Samambaia.

Espaço Imaginágio Cultura, na Quadra 103 da Samambaia Sul. Foto: Sabrina Moura

 
 
Festival: O Complexo Cultural está prestes a ser uma realidade em Samambaia, cidade que, cada vez mais, se fortalece culturalmente. É forte a articulação dos artistas na cidade? Existe uma cultura bairrista?
 
O movimento cultural de Samambaia conseguiu se articular muito bem e isso é devido a atuação de alguns agentes. Sabe quando você tá no lugar certo com as pessoas certas? Mas eu acho também que a cidade tem essa identidade, porque os os artistas daqui acabaram sendo bairristas mesmo, vendo a cidade como uma referência cultural potente no DF. E a gente conseguiu agregar várias linguagens. O projeto do Complexo Cultural e o Sarau Complexo está criando uma identidade cultural na cidade.
 
 
Festival: Qual a contribuição do Imaginário e da Marília no desenvolvimento cultural de Samamba?
 
Era uma coisa que a gente acreditava e ajudou a concretizar. E ajudamos ainda, tanto que fomos por bastante tempo líderes e fazedores (eu e Miguel). Cansei de fazer cachorro quente e galinhada em casa para levar para as reuniões, saraus e acampamentos. A gente se dispõe efetivamente para a realização, porque acreditamos que primeiro é possível e segundo é necessário.
 
 
Festival: E Roupa de Ensaio… Como o grupo se integra à sua vida? Você já participava quando foi morar em Samambaia?
 
O Roupa de Ensaio nasceu de um convite do Ivan Chagas (diretor de teatro) e do Alexandre Neco (músico) para a gente montar um espetáculo que se chamava A vida é uma ópera. Foram vindo outras pessoas, inclusive a Verônica. Foi quando a gente se conheceu e conheci a Samambaia. Era um grupo de experimentação e pesquisa, fazíamos teatro de rua e espetáculo de teatro de bonecos. O nome foi criado depois que já existíamos como grupo, “Roupa de Ensaio”, fazendo referência ao rala da atuação.

Marília no espetáculo “A Chegada do Mamulengo no Reino do Cavalo Marinho” – 2017. Foto: Davi Mello

 
 
Festival: E como chegou a profissão de atriz?
 
Desde os sete anos. Sempre fui muito apaixonada por teatro, aquela coisa em escola, igreja, acho que todo mundo começa por aí. Na adolescência, eu sabia que aquilo estaria sempre na minha vida. O que me encanta em atuar é a possibilidade de viver outras vidas, os desafios da interpretação, isso de conhecer, construir e viver uma personagem que tem muito de você, mas não é você. Gosto do estudo mesmo, de aprofundar no estudo da personalidade, do psicológico emocional.
 
 
Festival: O que te fez fazer essa curva para a Educação Física e seguir a carreira de professora da rede pública?
 
Não me adaptei ao curso de Artes Cênicas na UnB. O ambiente do curso me fez não querer ficar. Sou geminiana e acho que, por isso, fiz uma curva e fui para a Educação Física. Eu era muito apaixonada pela natação e tinha um sonho em trabalhar com o público de alunos especiais. Como a Educação Artística não tinha um viés educacional para esse público, eu vi na Educação Física a possibilidade. Hoje, estar no Imaginário e ser atriz me preenche muito mais, mas eu escolho estar em sala de aula também, porque eu acho que consigo estabelecer uma outra relação com os estudantes. Agora, atendo jovens e adultos. Por meio das conversas, e não propriamente das aulas, eu consigo abrir uma perspectiva para esse público que, muitas vezes, vem de uma desestrutura. A aula, para mim, é o que menos importa, o que importa é a valorização do ser humano.

“Eu me coloco a serviço das pessoas, dos artistas, dos coletivos, dos estudantes e de quem quer que seja para esse encantamento com a arte transformadora.”

 
 
Festival: Como é para você gerenciar tantos fazeres enquanto mulher?
 
Eu tenho uma vida quádrupla, quíntupla… Hoje, sou atriz, gestora de um espaço cultural, professora, produtora cultural, militante cultural e faço parte do Conselho de Cultura. Como produtora, eu me sinto na obrigação de dar suporte aqueles que me procuram para tirar dúvidas sobre projetos. Na vida pessoal, também sinto essas múltiplas funções, porque sou mãe e, como muitas, assumo uma casa e uma família. É tanta coisa! Mas eu tenho isso na cabeça: “Não sou só eu.” Acho que nunca acontece um equilíbrio. Muitas vezes, deixo coisas para depois para poder terminar um projeto ou fazer uma reunião e a família sempre sofre com isso, tanto a gente como a família. A gente se cobra mas deixa rolar.. É sempre isso: me cobro, mas deixo rolar.
 
 
Festival: Qual a sua visão para o futuro?
 
A gente tem que empregar sentido no agora sem esquecer que existe um pra frente. O meu foco não tá lá na frente, ele tá aqui. Hoje, eu sinto falta de estar atuando mais como atriz. Uma das coisas que eu quero fazer e pretendo cada vez mais fazer é esse meu trabalho com Maria Clara, o espetáculo Dona Dinha.
 
 
Festival: Como nasceu o espetáculo?
 
A Dona Dinha é um desejo meu desde muito tempo, que nasceu de uma provocação do Chico Simões em uma brincadeira lá em Olhos D’água (GO). Eu sempre tive muita facilidade com o sotaque de Goiás, porque minha família tem muito parente em Goiás e uma amiga já tinha dito pra mim: “a sua essência como personagem é goiana”. Aquilo ficou na minha cabeça. Dona Dinha foi nascendo dessas conversas. É um projeto que está pulsante e quero mostrar para o Mundo, eu e minha filha, a Maria Clara. A gente já fez um trabalho juntas de palhaças que também quero retomar, com as personagens Biloca e Tampinha.
 
 
Festival: Maria Clara sempre esteve envolvida no seu fazer artístico. Como é a relação de mãe e filha em contraste com companheiras de cena?
 
A Maria Clara em teatro é muito disciplinada. Eu sempre fui muito disciplinada também, mas hoje em dia eu administrando várias frentes e acabo me indisciplinado um pouco. É muito bom ter elas como companheira de cena, a gente consegue dividir bem os papéis. Eu levo mais bronca do que dou (risos).

 
Festival: Quais suas referências femininas na cultura e na vida?
 
A Verônica sempre foi uma pessoa admirável, por toda a realidade de vida e pela conduta dela com tudo. Ela tem uma bondade absoluta, uma generosidade absoluta, é uma das pessoas mais admiráveis que conheci. Minha mãe, obviamente, também é. Minha mãe nunca me tolheu, nunca limitou minha atuação, sempre me incentivou e nunca roubou minha identidade. É uma pessoa admirável pela sua fortaleza, honestidade, pela sua bravura. Ela separou do meu pai quando eu tinha um ano, quer dizer, uma mulher separada naquele período, nos anos 70, criando cinco filhos sozinha, era uma mulher sensacional. Admiro muita gente na cultura. Tem a Narcha, minha amiga, colega de faculdade e atriz, uma pessoa de muita criatividade. Outra pessoa que inspira muito é a mãe do Miguel, meu-ex companheiro, a Dona Luza, que com toda simplicidade e condição de vida é de uma sabedoria muito profunda… E as mulheres da minha família de maneira geral. Falo isso na Dona Dinha, inclusive.
 
 
Festival: Como foi a experiência com o Brasília Junina?
 
O Brasília Junina, tanto pra mim quanto para o Imaginário, foi um salto absurdo. Fizemos a gestão de um recurso que nunca tivemos nas mãos e executamos um projeto grandioso em várias cidades. Pensamos muito no evento para o público e os quadrilheiros, levamos muita inovação, principalmente na arena, em vez de palco. Focamos muito sobre para quem é feito o evento: uma praça de alimentação mais aconchegante e com apresentações. Buscamos levar o acolhimento que o Imaginário realiza. No fim, recebemos muitos elogios e agradecimentos. Conseguir realizar um projeto desse de uma forma tranquila e com a responsabilidade que foi feita é a sensação de assinar o atestado de capacidade para enfrentar qualquer coisa que vier.
 
 
Festival: Este ano, o tema do festival Taguatinga de Cinema é “O movimento em nós”. Como você vê o florescer do imaginário nesse cenário?
 
Nesse momento, estamos na expectativa do que virá. Tememos pelo cenário político cercado de incertezas, mas seguimos firmes. É claro que onde há ação há florescência. Se existe ação, o florescer é certo. Mesmo que seja mais tímido, não deixa de atingir os objetivos. Dependendo do que virá, precisamos estar cada vez mais unidos e conectados com propósitos comuns entre artistas. Na arte, só pela coletividade se vence.
 

Por Raissa Miah – jornalista no Estúdio Gunga e Artista Urbana

 



Programação – 13º Festival Taguatinga de Cinema

Está confirmada a programação completa do 13º Festival Taguatinga de Cinema, que acontece entre os dias 22 e 25 de agosto, no Teatro da Praça de Taguatinga. Entre as atrações, além da Mostra Competitiva, o festival contará com a Mostrinha Infantil, a Mostra de Trailers Indie Games e a Mostra Paralela Wift-Brasil, com filmes realizados por mulheres.

As atividades formativas do Taguá MAPI – Mercado Audiovisual Independente, realizadas no Go Inn Hotel, incluem oficinas, painéis temáticos e laboratório de projetos. Já as atrações musicais permeiam as noites de todo o festival, desde a abertura até o encerramento, com apresentações na Praça da CNF e no Teatro da Praça.

Quer conferir a programação completa? ACESSA AQUI!

Confira, no vídeo abaixo, como foi em 2017 e agende-se! Este ano, tem muito mais!

 



Programação Taguá MAPI – Mercado Audiovisual de Produção Independente

O Festival Taguatinga de Cinema apresenta, em 2018, a 2ª edição do Taguá MAPI – Mercado Audiovisual de Produção Independente. De 23 a 25 de agosto, no Go Inn Hotel, Setor Hoteleiro de Taguatinga. As inscrições estão abertas!

Configurado como um espaço de experimentação e formação, o evento, paralelo à Mostra Competitiva, parte da base para pensar o desenvolvimento e as estratégias para o mercado audiovisual regional.

Ao conectar suas atividades ao tema deste ano, O Movimento em Nós, o Taguá MAPI lança o olhar sobre as produções que estão intervindo criativamente em suas realidades, buscando responder ao espírito antidemocrático, obscurantista e de intolerância que, depois de muito tempo, volta à tona em nosso país.

Alice Lanari. Taguá MAPI 2017 – Foto: Paula Carrubba

 

Durante todas as manhãs, serão realizados Laboratórios de Desenvolvimento de Projetos, onde 20 participantes previamente selecionados para o Festival farão em mergulho nesta etapa fundamental do fazer cinematográfico, sob facilitação da cineasta Alice Lanari. São apenas 20 vagas, inscrições abertas!

No período da tarde, painéis temáticos com realizadores e articuladores irão propor a reflexão contemporânea sobre o cinema, com duas rodas de diálogo. A primeira tem como tema Distribuição: perspectivas de guerrilha, mediada por Antônio Balbino (DF), Emílio Domingos (RJ) e Larissa Fulana de Tal (BA). A segunda roda aborda Cinema de Intervenção: um olhar ativo sobre a realidade, mediada por Amaranta Cézar (BA), Elen Linch (AM) e Thay Limeira (DF).

No último dia de Taguá MAPI, 25 de agosto, será realizada a masterclasse A experimentação da imagem como espaço de insurgência, com Yasmin Thayná, cineasta e diretora carioca formada pela Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu.

CONFIRA AQUI a programação completa e conheça cada facilitador(a).

Taguá MAPI 2017 – Foto: Paula Carruba



DJs e Shows – Festival Taguatinga de Cinema 2018

Já estão confirmadas as atrações culturais que irão permear toda a programação do Festival Taguatinga de Cinema 2018. Além da mostra competitiva, paralela e oficinas, o festival sempre apresenta ao público festas com DJs e shows com consagrados grupos e artistas.

No dia 22 de agosto, o Coletivo Afrobixas abre os trabalhos na Festa de Abertura, a partir das 22h30, no Teatro da Praça de Taguatinga. Na quinta, 23, o DJ Gérson Deveras, prata da casa, faz discotecagem na Galeria Olho de Águia, localizada na Praça da CNF. No dia 24, também na CNF, é a vez do DJ Itin do Brasil apresentar seu set no Bar Isso Aqui é DF.

A Noite de Encerramento acontece no dia 25, com muita festa. Após a premiação dos vencedores, realizadores, equipe de produção e público seguem noite a dentro, celebrando juntos ao som da cantora Moara, apresentando seu trabalho autoral recém-lançado, e do grupo Saci Weré, tocando brasilidades e sonoridades latinas.

Para conferir a programação completa, acesse o SITE.

Moara. Foto Thaís Mallon

Saci Weré. Foto Thaís Mallon

Coletivo Afrobixas

DJ Gérson Deveras. Foto Samuel Macedo

DJ Itin do Brasil



Audiovisual nas escolas: quando o vídeo vira lugar de fala e oportunidades

João Vitor Pinheiro da Conceição tem 17 anos, é morador do Guará (DF) e estuda Cinema. É universitário com bolsa 100% financiada pela instituição onde estuda, oportunidade que veio através de prêmio concedido pelo 3º Festival de Filmes Curta-Metragem das Escolas Públicas (2017), voltado às escolas de ensino médio, educação profissional e estudantes do programa Educação de Jovens e Adultos (EJA). João ganhou a premiação pelo curta de nome 100% Ocupado, pelo qual foi eleito como Melhor Diretor. Em 2016, através do curta Paranoia, também foi premiado como Melhor Ator.

A 4ª edição do Festival de Filmes Curta-Metragem das Escolas Públicas de Brasília – Fest Curtas acontecerá em 2018 e movimentará, novamente, a cena audiovisual em escolas públicas no DF. Com o objetivo de revelar, reconhecer e afirmar as identidades culturais de estudantes, proporcionando a troca de experiências entre jovens de diferentes cidades, a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal aposta mais uma vez nesse processo, que tem mostrado importantes resultados pedagógicos.

As inscrições para o Festival abrem no dia 10 de julho e seguem até o dia 10 de agosto, onde podem participar estudantes realizadores que estejam matriculados na rede pública, a partir das séries finais do ensino fundamental. A mostra do 4ª Fest Curtas será realizada no Cine Brasília, no dias 17 e 18 setembro, dentro da 51ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Difundir a linguagem audiovisual na educação tem mostrado o quanto essa experiência contribui na formação das pessoas em sala de aula. O protagonismo dos estudantes nas experimentações de produção de vídeos manifesta novos talentos como João Vitor. Para saber mais a fundo sobre essa experiência, conversamos com o jovem cineasta, abordando desde a sua participação aos reflexos educativos na vida que segue. Confira!

João Vitor na Premiação do Fest Escolas

 
Festival: João, como iniciou sua relação com o audiovisual?

Começou no ensino médio, através de um projeto interno da escola, que era promovido pelo meu antigo professor de Química. O nome dele é Peterson Paim. Nesse festival, tínhamos que fazer curtas-metragens relacionados à Química. Foi a partir daí que começou minha experiência com audiovisual, em 2015. Dessa experiência, eu produzi o curta Os 2 Candangos, um filme terrível em qualidade técnica, mas que passou no 1º Festival das Escolas Públicas de Brasília.
 
 
Festival: Por que decidiu participar?

A primeira vez que eu decidi participar foi em 2015, com o curta Os dois candangos. Eu participei por influência do meu professor de Química que incentivou a inscrevê-lo. Na verdade, ele incentivou todos os alunos a inscreverem filmes, que haviam sido produzidos na escola. Por sorte, o meu acabou passando lá no festival.

Nos anos seguintes, produzi outros três filmes e os inscrevi no Festival. Os três foram aprovados e exibidos. Em 2016, ganhei como Melhor Ator no filme Paranoia. No ano seguinte, 2017, resolvi focar em outro filme, o 100% Ocupado, que foi aprovado no Festival. É um documentário que relata as ocupações que ocorreram na minha escola. Com ele, eu ganhei a Melhor Direção.
 
 
Festival: Qual foi o papel dos professores nesses processos com o audiovisual na escola?

O Professor Paulo Firmino era meu professor de Matemática. Tínhamos por exigência do edital que, obrigatoriamente, ter um professor-orientador. Este professor não poderia estar diretamente ligado ao filme, mas poderia nos oferecer dias e incentivar nossa participação. Ele incentivava muito, tanto quanto o professor Peterson Paim.

No meu caso, especificamente, não seria tão importante o incentivo dos professores, pois já estava bem aflorada a ideia de querer fazer filmes, produzir curta-metragem. Mas tive relatos de outros estudantes que só realizaram os filmes por terem sido incentivados pelo professor. No meu caso, eu já tinha despertado esse sentimento.
 


 
 
Festival: Conte-nos mais sobre o seu filme 100% Ocupado, porque você escolheu esse tema?

Um dos filmes que eu escrevi para o Festival foi o 100% Ocupado, que eu ganhei de Melhor Direção. Este filme, aliás, não era para ser um filme. Quando houve a ocupação na minha escola, em 2016, eu me ofereci para registrar tudo e mostrar que as coisas que estavam acontecendo lá não estavam fugindo da lei, e que não era nada daquilo colocado pela grande mídia. Estava registrando realmente o que estava acontecendo nesse protesto dos estudantes.

Eu tinha todas essas mídias gravadas e, no meio da ocupação, eu pensei: posso transformar todas essas mídias em um filme. Filmei todo o processo, como estava a ocupação, as conversas dos alunos e o processo de desocupação. Cerca de oito meses depois, filmei todas as pessoas que estiveram à frente daquele protesto e editei. É um filme que não tem um posicionamento político, ele é apenas um relato do que aconteceu. Tem, claro, alguns alunos que se posicionam durante o filme, tanto contra quanto a favor, mas mostra a realidade, o que os estudantes estavam pensando no momento do protesto.

Outro filme que eu fui premiado, em 2016, como Melhor Ator, foi o Paranoia. É um curta e não sei como descrever o gênero dele. Eu interpreto o personagem principal, que se chama Hell Well, que é como se fosse um garoto esquizofrênico, que tem algumas ideias totalmente deturpadas do mundo, como se ele tivesse ficado solitário e, a partir daí, começa a pensar várias loucuras. Ele (o personagem) diz, por exemplo, que os habitantes da terra são como um colheita e, de repente, vinham pessoas para a colheita e outras para serem germinadas. Enfim, é cheio de loucura o filme.
 
 
Festival: Qual é o seu sentimento enquanto jovem estudante de escola pública por ter participado de uma experiência que valoriza tanto a expressão de vocês?

O audiovisual foi uma forma que levou minha voz para o mundo. É uma forma de eu me expressar para ele. Muitos alunos de escola pública, às vezes pelas condições financeiras, se sentem impedidos de mostrar suas artes e desejos para o mundo. A partir do audiovisual, vi que não me limitaria. Pude fazer um vídeo ou um filme e poderia publicar na internet, ninguém me limitaria ali.
 
 
Festival: Quais foram, na sua opinião, os impactos do Fest Curtas nas Escolas na educação pública?

Eu estudava no Centro Educacional do Guará 1. Esta é uma escola que tem muitos projetos artísticos, que envolvem diversas expressões, como música, cinema, dança, entre outras. Acredito que seja a escola de Brasília que mais forma pessoas que direcionam suas carreiras e trabalhos para o mundo das artes. De lá, saiu um grafiteiro chamado Toys, por exemplo, assim como muita gente saiu para fazer gibi, filmes, cantar, etc. Essa escola incentiva muita gente a praticar da arte.

Quando a gente escreveu e passou os primeiros filmes, os alunos passaram a se interessar mais pelos projetos que já tinham na escola e a dedicar-se a eles. E essa questão de ganhar o festival mudou bastante a minha vida. Junto com o prêmio de Melhor Diretor, pelo 100% Ocupado, veio uma bolsa de estudos também. Junto com ele ganhei uma bolsa de 100% para estudar Cinema numa faculdade particular. Isso mudou toda a minha vida! Hoje, eu estudo graças a esse processo do audiovisual.
 

Por Daniela Rueda – produtora cultural
e Webert da Cruz – jornalista no Estúdio Gunga

 



Mostra Paralela WIFT Brasil – Women In Film & Television

O Festival Taguatinga de Cinema firmou parceria com a WIFT Brasil – Women In Film & Television, uma rede internacional que oferece suporte profissional, oportunidades de desenvolvimento, networking e reconhecimento para mulheres que trabalham nas mais diversas áreas do audiovisual.

Para apresentar de forma mais fluída a proposta da WIFT, realizamos entrevista com a cofundadora no Brasil, a produtora Nágila Guimarães. Leia AQUI.

Em agosto, durante a programação da Mostra Competitiva, realizaremos a Mostra Paralela WIFT, onde a curadoria do Festival Taguatinga de Cinema irá selecionar, exclusivamente, curtas-metragens produzidos por mulheres brasileiras associadas à rede.

Se você ainda não se associou à WIFT-Brasil, é simples! Basta se cadastrar no site da rede, sem custos ou burocracias.

Para inscrever seu filme na Mostra Paralela WIFT, siga os seguinte passos:

  1. Ler o REGULAMENTO.
  2. Se cadastrar como associada da WIFT-Brasil, pelo site: www.wiftbrasil.org.
  3. Realizar inscrição do seu filme no site do Festaguá, pelo Painel de Usuário: www.festivaltaguatinga.com.br/festivalTagua/usuario/site/login

O resultado da lista de obras selecionadas estará disponível aqui no site a partir do dia 30 de julho de 2018​, sendo este prazo prorrogável a critério da organização do Festival.

 



WIFT BRASIL – ENTREVISTA COM A CO-FUNDADORA NÁGILA GUIMARÃES

Em 2017, o Festival Taguatinga de Cinema realizou uma edição inteira voltada ao tema “Nossa porção mulher”, levantando o debate sobre a presença feminina no audiovisual. Um ano depois, como o tema “O movimento em nós”, a pauta de gênero continua a reverberar como um movimento que não para.

Em 2018, o Festaguá firma parceria com a WIFT Brasil – Women In Film & Television, uma rede internacional que oferece suporte profissional, oportunidades de desenvolvimento, networking e reconhecimento para mulheres que trabalham nas mais diversas áreas do audiovisual, conectando mais de 13 mil associadas, em 18 países dos 5 continentes.

No Brasil desde 2013, a rede segue objetivando o protagonismo da mulher na TV, no Cinema e em novas mídias através de vários projetos. Para isso, convoca novas mulheres da área a se associarem, integrando um banco de dados mundial e podendo participar de eventos de networking e do festival internacional de curta-metragem que exibe apenas filmes de membras da WIFT pelo mundo.


MOSTRA PARALELA

Em agosto, durante a programação da Mostra Competitiva, realizaremos a Mostra Paralela WIFT, onde a curadoria do Festival Taguatinga de Cinema irá selecionar curtas-metragens produzidos por mulheres brasileiras associadas à WIFT Brasil. Acesse AQUI e saiba mais.


ENTREVISTA

Nágila Guimarães

Para firmar nossa parceria, entrevistamos a co-fundadora da WIFT Brasil, a produtora Nágila Guimarães, que conta um pouco mais sobre o histórico da rede no Brasil e no mundo.

Empreendedora cultural, desde 2001, Nágila atua na produção de festivais como Sundance Film Festival (2002), Miami International Film Festival (2003-2008) e Abu Dhabi Film Festival (2008-2012). Cursou Economia na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Comércio Exterior na UCLA (Los Angeles) e Produção de Vídeo e Distribuição na New School For Social Research (Nova Iorque). Foi membra do Conselho Consultivo do Geena Davis Institute para a realização do simpósio Gender in Media no Brasil (2016). É também curadora e produtora de importantes mostras, como a 7ª Mostra Mundo Árabe de Cinema, Mostra de Cinema Árabe e Cinema Georgiano: Um Século de Filmes, além da Mostra Cinema Brasileiro, no Peru.


Festival: De forma breve, como surgiu a WIFT e como se constrói a atuação da rede diante das mudanças de paradigma relacionadas ao feminino e aos feminismos que vivemos hoje?

A rede Women In Film & Television surgiu em Los Angeles, em 1973. Foi uma iniciativa da jornalista Tichi Wilkerson Kassel (ex-editora da revista Hollywood Reporter), que, ao obter a informação que apenas 2% dos roteiros de TV eram escritos por mulheres, decidiu pensar alternativas para apoiar o desenvolvimento profissional das realizadoras. Logo, a organização cresceu rapidamente nos EUA e se espalhou pelo mundo.

Desde 2015, mulheres em nível global iniciaram um movimento no mercado audiovisual. Este movimento tem demonstrado que a luta pela paridade de gênero não é suficiente. Necessitamos de uma conscientização do desequilíbrio sistêmico, que exige mudança cultural e de políticas em toda a estrutura de poder do mercado audiovisual. Através de ações de mobilização, debates e networking, criamos oportunidades de engajamento na luta pela conquista de paridade e inclusão
a nível nacional e internacional.


Festival: A WIFT chegou no Brasil em 2013 e a sede, no Rio de Janeiro, é a primeira da América do Sul. Porque a escolha do Brasil? Já existem sedes ou atuações em outros países hermanos?

As nossas hermanas são a WIFT-México e WIFT-República Dominicana. A WIFT Brasil surgiu meio que por acaso. Eu estava morando nos Emirados Árabes e trabalhando para o Festival de Cinema, quando conheci Rashmi Lamba, produtora indiana. Naquele momento, ela estava envolvida com a criação da WIFT Dubai e começamos uma conversa sobre a rede. Rashmi comentou que ainda não existia nenhuma WIFT na América do Sul e sugeriu que eu levasse esta iniciativa para o Brasil. Eu me interessei muito pela rede, mas hesitei sobre a ideia, porque estava morando fora do Brasil, mas decidi aceitar o desafio.

Debate “Como criar condições para cineastas mulheres realizarem seu primeiro filme”, no Festival de Cinema Ponte Nórdica, no Rio de Janeiro (Abril/2016). Com Katja Wik (Suécia), May el-Touhky (Dinamarca), Maristela Bizarro (WIFT Brasil) como mediadora, Debora Ivanov e Vera Egito.

 

Festival: Desde a chegada da WIFT no Brasil, como você percebe o envolvimento das realizadoras brasileiras e quais projetos ou eixos de ação estão se encaminhando com mais força no país? Podemos citar parcerias com realizadoras brasileiras que se apresentam como referência?

Acompanhando um movimento global no mercado do audiovisual, surgiram no Brasil várias organizações e grupos de mulheres refletindo e buscando soluções sobre a falta de representatividade feminina no audiovisual. As mulheres estão ajudando umas às outras e cultivando a próxima geração de realizadoras.

As políticas públicas implementadas pela Ancine são muito importantes para minimizar o gap da desigualdade de gênero, raça, regionalismo e orientação sexual. Outra grande contribuição da agência foi a divulgação do estudo realizado em 2016 sobre a Participação Feminina na Produção Audiovisual Brasileira. Pesquisas são fundamentais para compreender melhor a dimensão de um problema complexo, que não pode ser limitado apenas a buscar paridade de gênero na distribuição dos cargos e remuneração. Existe uma crescente conscientização de que a desigualdade é interseccional entre gênero, etnia, classe social e orientação sexual.

Débora Ivanov representa uma grande referência, pois sempre apoiou e se envolveu, tanto na implementação das políticas públicas da Ancine quanto nas ações da sociedade civil que defendem mais igualdade no mercado audiovisual.


Festival: É visível um aumento da presença de mulheres no mercado audiovisual, mas sabemos que ainda é preciso avançar. Em relação aos próprios filmes, você percebe narrativas predominantes nas produções realizadas por mulheres? Os espaços galgados também são traduzidos nos filmes?

As mulheres estão construindo suas narrativas com maior autonomia, pois uma pequena brecha tem sido aberta. Maior acesso, investimento, pluralidade e liberdade de criação estão refletindo na diversidade das produções e narrativas. Apenas dois exemplos na América Latina: Kbela (de Yasmin Thayna) e Pelo Malo (de Mariana Rondon) exemplificam essa mudança, que tem um longo caminho a percorrer…

Simpósio global sobre gênero na mídia, realizado na sede do Google, em São Paulo (março/2016). Parceria WIFT Brasil, Instituto Geena Davis, Google e outras organizações.


Festival: A WIFT, além da TV e do Cinema, também propõe o suporte às mulheres que trabalham com novas mídias. Como você analisa o uso da internet e suas diversas plataformas no avanço do cenário audiovisual feito por mulheres?

A evolução das tecnologias digitais vem transformando a produção e o acesso ao conteúdo. Isto proporcionou mais uma ferramenta fundamental para ajudar as mulheres a produzirem e exibirem seus trabalhos. Além disto, possibilitou maior conexão entre mulheres, com o surgimento de várias redes de suporte. As novas janelas de exibição e a mudança no perfil do espectador representam uma ruptura profunda na forma como as obras audiovisuais são assistidas, refletindo também na produção. No entanto, continua havendo uma grande concentração dos recursos na distribuição, elo da cadeia responsável pelo investimento na divulgação dos filmes. Não podemos negar que o interesse do grande público, em parte, depende de um esforço de propaganda. Sem dúvida, ainda falta investimento na distribuição de filmes realizados por mulheres.


Festival: A WIFT irá realizar uma mostra paralela dentro da programação do 13º Festival Taguatinga de Cinema, que, em 2017, teve uma edição dedicada totalmente ao tema “Nossa porção mulher”. Essa é a primeira ação da rede em Brasília. Qual a expectativa e propostas?

A WIFT Brasil está buscando desenvolver seu trabalho em todo o país, o que só será possível através de parcerias e ações locais, como já estamos desenvolvendo no Rio de Janeiro e em São Paulo. O Festival de Taguatinga de Cinema será a nossa primeira oportunidade de apresentarmos o trabalho da organização na região, para atrairmos associadas e parcerias. Assim, poderemos ampliar cada vez mais os impactos da nossa atuação.

Por Keyane Dias: jornalista cultural, poeta, terapeuta
e co-criadora da Pareia – Comunicação e Cultura


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