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Festival Online 2018 – Assista e Vote

Após um mês de inscrições por meio de convocatória nacional, o Festival Taguatinga de Cinema tem a alegria de abrir o período de curadoria popular online para a sua 13ª edição. Recebemos 380 inscrições de curtas-metragens produzidos em todo o país, alinhados ao tema deste ano: O movimento em nós”. Agora, é a sua vez de colaborar com a gente e com os realizadores.

Até o dia 7 de junho, aqui no site, você poderá assistir ao grande acervo de filmes inscritos e votar naqueles que mais gostar. Não tem limite! Você pode assistir e votar quantas vezes quiser, basta realizar um simples cadastro. As quatro produções mais votadas irão participar da Mostra Competitiva em agosto de 2018, no Teatro da Praça de Taguatinga.

Nosso Festival Online é uma oportunidade de disponibilizar ao público um acervo diversificado da produção independente de curtas-metragens no Brasil, além de contar com a participação popular para a construção da Mostra Competitiva, por meio da campanha Assista e Vote!.

Todos os filmes inscritos foram produzidos entre 2016 e 2018, abrangendo diferentes formatos: ficção, documentários, experimentais e de animação. Além das quatro produções mais votadas pelo público no Festival Online, irão para a Mostra Competitiva outros 20 curtas-metragens selecionados pela curadoria técnica oficial do evento.

O tema “O movimento em nós” busca conhecer o modo como realizadoras e realizadores expressam seus pontos de vista sobre a vertigem de retrocesso democrático do Brasil atual, com produções atravessadas pelo desejo de resistir e florescer em um país em estado de golpe, instaurando movimentos e espaços vibrantes entre a tela e o espectador.

Aproveite a oportunidade de assistir a um diverso acervo de curtas-metragens e conhecer mais da produção audiovisual independente do Brasil. ASSISTA E VOTE!

E marque na agenda!!!

A programação da Mostra Competitiva do 13º Festival Taguatinga de Cinema será realizada entre os dias 22 e 25 de agosto de 2018, no Teatro da Praça de Taguatinga e outros espaços da cidade. Além da exibição dos curtas selecionados e a noite de premiação, o evento realizará oficinas, debates, Mostra Paralela e Mostra Infantil.



Nossa Porção Mulher na 17ª Mostra do Filme Livre

No próximo domingo, 6 de maio, a partir das 16h, acontece em Brasília a 17ª Mostra do Filme Livre. Com programação marcada no CCBB, a maior mostra audiovisual do Brasil irá exibir filmes produzidos por mulheres ou sobre a temática de gênero. E o Festival Taguatinga de Cinema marca presença por lá também. Após os filmes, será realizado um debate intitulado Nossa Porção Mulher (tema do Festaguá 2017).

O debate será mediado por Janaina André (coordenadora do Festival Taguatinga de Cinema), Hellen Cristhyan Kahlo (ativista sociocultural e coordenadora da Casa Frida), Sheila Campos (radialista, atriz e ativista social) e Yale Gontijo (Elviras – Coletivo de mulheres críticas de cinema).

O encontro inclui também, antes e depois das exibições, o Sarau Casa Frida (referência em feminismo, ativismo e política social, cuidado e auto cuidado), junto com o Slam Q´Brada (batalha de poesia) e DJ Amandix (tocando só minas). Completando a programação do evento, também será realizado o lançamento do livro Um Verso e Mei, da poeta Meimei Bastos (DF), e do livro Phylochip, da escritora Ju Ataíde (RN).

Confirme presença aqui.

SERVIÇO
Sarau Casa Frida + Slam Q´Brada na MFL + DJ Amandix
Quando: 06 de maio (domingo), a partir das 16h
Onde: Na Mostra do Filme Livre, cinema do CCBB Brasília – SCES Trecho 2
Entrada: Um sorriso
Produção: Mostra do Filme Livre, CCBB e Marina Mara Produções Poéticas


PROGRAMAÇÃO DOS FILMES

Sessão 18h

  • Almerinda 9 min
  • Ikini – 8 min
  • Sustento – 1 min
  • Mucamas – 15 min
  • Translucidos – 14 min

Sessão 19h

  • Close – 20 min
  • Ouroboros – 17 min
  • Corpo da Terra – 23 min
  • Tekoha – 20 min


“O audiovisual feito na e pela periferia está posicionado em um campo de batalha cultural permanente”

É nítido que a produção audiovisual no país ocupa espaços bem mais profundos que o viciado mercado e a indústria cultural. Ela também se apresenta como ferramenta política de resistência e transformação social na vida de diversas comunidades. Para entendermos um pouco mais desse movimento de narrativas populares e suas intervenções na realidade de um Brasil profundo, entrevistamos o pesquisador Wilq Vicente.

Wilq é mestre em Estudos Culturais pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP). É pesquisador de vídeo, curador de mostras de cinema popular e organizador do livro: Quebrada? Cinema, Vídeo e Lutas Sociais.
 
Festival: Que espaços, além do cinema mercadológico e indústria cultural, o audiovisual ocupa atualmente?

Um dos desafios para se pensar os processos culturais na atualidade diz respeito ao entendimento de que existe uma efervescência cultural inédita que nas últimas décadas redefine o lugar do fazer artístico e cultural na cartografia brasileira. Acompanhando as mudanças verificadas na estrutura social brasileira, como a redução da extrema pobreza, a ampliação da classe C, entre outros, parece haver também mudanças estruturais no que tange ao consumo e produção cultural. Isso implica na ampliação, no reconhecimento e na maior visibilidade da apropriação dos mecanismos de realização e difusão audiovisual comunitária, popular e periférica, entre outros, pela população mais pobre do país.

Certamente, um movimento cultural consistente, insistente, diversificado e fragmentado, que vai ao encontro de iniciativas tímidas do poder público, do mercado e da sociedade civil organizada. Não espanta que a produção cultural da periferia tenha se tornado visível ao mesmo tempo que surgiram representações da periferia na televisão e no cinema, na indústria cultural de uma maneira geral. É sintomático que a indústria cultural tenha buscado dialogar com esse novo nicho, que representa a nova ordem social, onde o nacional popular e seu esforço de abarcar o todo da sociedade caminha para a incorporação da cultura popular periférica, a nova classe média e sua promessa de um país com menos pobreza, de um país em desenvolvimento.

Essas novas manifestações podem ser identificadas, em especial, por meio de novos atores sociais, movimentos culturais que partem da periferia dos grandes centros urbanos, em pequenas comunidades populares, e que lutam pela ampliação de suas representatividades. De modo geral, os realizadores assumem uma trajetória comum: emitem a condição crítica da experiência social e cotidiana.

Parte fundamental da expressão dessa cultura é o audiovisual como instrumento de mudança territorial na cidade, como instrumento de criação de redes de interlocução política e cultural, por vezes articulando uma postura de luta de classes, por vezes buscando uma inserção ainda que marginal em um ainda restrito mercado cultural, tensão permanente nas disputas desse campo. Hoje o audiovisual é visto cada vez mais como um setor que não está restrito ao dito cinema mercadológico e à indústria cultural, e também como uma ferramenta no interior de ações culturais e sociais. Algumas ações pontuais buscaram contemplar esse setor do audiovisual nos últimos anos, reconhecendo o papel formativo, social e de cidadania que exerce e visando o estímulo à “diversidade cultural” em boa parte do Brasil. Isto eu considero um ganho.
 
 
Festival: Por que a criação e a experiência estética de vídeos pela e sobre a periferia são indissociáveis de uma ação política? Qual a importância dos projetos de capacitação em audiovisual nas quebradas? Cite alguns.

A emergência de novos artistas e coletivos de produção e difusão cultural nas periferias introduz no cenário cultural um novo componente de disputa de significados e também de recursos e espaços. Obviamente essa disputa ainda se dá de maneira completamente desigual, reflexo de uma sociedade desigual. Com uma produção ainda incipiente, mas que tem tomado cada vez mais fôlego, estes novos produtores culturais buscam se apropriar de meios, ferramentas e conhecimentos que até então lhes foram negados. É possível notar que tanto o Estado quanto o mercado estão buscando fornecer respostas a este novo cenário, gerando uma tensão entre o fomento e a apropriação, às vezes através de políticas de caráter estruturante, às vezes através de medidas aquém da necessidade ou de pouca efetividade.

Seria a produção de audiovisual capaz de articular um discurso contra-hegemônico, que efetivamente traduz os interesses das periferias? Ou esta produção se enquadraria na ideologia dominante, que incorporou elementos dos interesses do povo, parecendo então representá-lo de uma maneira geral? O audiovisual feito na e pela periferia está posicionado em um campo de batalha cultural permanente, onde distintas alianças e forças se colocam para dar significados e respostas.

Neste aspecto, o audiovisual periférico surge como uma prática social que em sua forma se desenvolve através da arte e exercício da linguagem. De toda forma, a ideia de “nossa realidade representada por nós mesmos” se coloca o tempo todo como pauta da ação, apontando sobretudo para uma disputa cultural por representatividade. Almeja, sobretudo, vocalizar suas visões de mundo e experiências de vida através de um meio de expressão interpretado como fundamentalmente artístico e não somente no campo da comunicação. Assim, diferentes formas de produção, até vídeos realizados a partir de um olhar externo sobre as ações e manifestações, concebidos por realizadores independentes, são bem aceitos. Esse diferencial decorre do seu conteúdo, de vínculos que são estabelecidos com os bairros, territórios e movimentos abordados nas produções. Mais ainda: trata-se de engajar a vontade de indivíduos e grupos em uma ação política, o que implica em torná-los agentes de uma ação transformadora.

Como se trata de um setor ainda em expansão, de caráter cada vez mais dinâmico, acredito que a atuação neste campo da cultura demanda um permanente aprimoramento e qualificação dos saberes e práticas, um processo formativo e reflexivo continuado. Projetos de formação e capacitação em audiovisual nas quebradas contribuem para a ampliação das oportunidades de conhecimento, capacitam jovens no setor e promovem o fortalecimento e a difusão de novas narrativas e vozes. Diversas iniciativas de formação, ligadas aos grupos e coletivos periféricos e arranjos variados em ONGs e outras instituições atuam neste sentido.

Alguns projetos podem ainda vir a contribuir para a cadeia produtiva ligada às artes e à cultura em arranjos produtivos formais e não formais, no âmbito do Estado e nas instituições, no contexto da economia da cultura e da indústria cultural, como também na economia de base solidária. Em São Paulo, por exemplo, a SPcine desenvolveu o projeto “Sampa Cine Tec: Audiovisual, Cinema e Tecnologia”, que contemplou iniciativas de inclusão audiovisual, empreendedorismo criativo, associativismo, cooperativismo e atuação de redes na cidade. Com foco na periferia, priorizando a formação e a capacitação na área do audiovisual.
 
 
Festival: Como é o processo de formação de público para o cinema independente nas periferias?

A formação de público é um problema no audiovisual brasileiro como um todo, principalmente o realizado nas periferias. Os espaços de exibição para a produção periférica são, em geral, bem limitados, pois se resumem frequentemente a sessões em cineclubes e ONGs, havendo, portanto, uma distribuição e divulgação bastante restrita. São poucos ainda os filmes que conseguem entrar em festivais e que também dialogam com um público bastante específico.

Em anos recentes, o Coletivo de Vídeo Popular de São Paulo articulou, conjuntamente com o poder público municipal, um “Circuito de Exibição de Vídeos Populares” com programação regular em cineclubes ligados a grupos culturais, ONGs, além de programação mensal na Sala Cine Olido, equipamento cultural no centro da cidade. O Coletivo também manteve programa na Rede TVT, ação que durou até meados de 2012. Foram projetos que buscavam sobretudo viabilizar a distribuição e exibição da produção, fortalecendo redes existentes e abrindo espaço para o diálogo com novos públicos.

São projetos que, apesar do vigor momentâneo, não tiveram sustentabilidade. Se por um lado é possível ver um recrudescimento recente de espaços de exibição alternativos, como o Circuito, por outro lado é possível notar, por parte do poder público, certa preocupação com a exibição da produção independente, ao menos na cidade de São Paulo. Em 2016, por exemplo, foi criado uma rede de salas de cinema pela prefeitura, com 20 espaços, com o intuito de formação de público, sobretudo nos bairros periféricos.

Também as políticas públicas de formação cultural e experimentação artística são fundamentais no processo de despertar o interesse para o cinema e fomentar o hábito cultural da população. Certamente, uma forma de tentar superar o “gargalo” da exibição é articular parcerias necessárias e possíveis com instituições. Também acho fundamental que os realizadores de audiovisual pensem em espaços e atividades alternativos de exibição, para além de festivais e das salas tradicionais.

 
Festival: Vivemos um momento histórico de muita aridez em diversas perspectivas da vida social e política do país. Como narrativas audiovisuais se tornam ferramentas de luta, resistência e transformação dessa realidade?

Um cenário preocupante está colocado para todo setor cultural e as lutas sociais como um todo, e é preciso enfrentá-los à altura dos desafios lançados. O fim de alguns programas sociais e culturais acende um sinal vermelho para quem pensa a cultura para além de um mero reflexo da realidade. A cultura está investida de um papel estratégico, no sentido da construção de um país socialmente mais justo. Em outras palavras: o golpe parlamentar de 2016 apresentou-se como uma volta do que havíamos relegado há pelo menos 30 anos atrás: censura, cortes nas políticas sociais, fortalecimento de um discurso conservador, entre outros.

Nota-se que ao longo da história brasileira o audiovisual, de maneira geral, desempenhou um importante papel de registro e difusão das lutas sociais, da memória e do imaginário popular ausentes dos meios hegemônicos. O audiovisual esteve sempre presente em ambientes de resistência política e cultural. A arte é justamente uma das formas de vislumbrar realidades que parecem impossíveis, experimentar e testar novas narrativas, que são ao mesmo tempo estéticas e políticas. E o audiovisual é, ainda, uma importante ferramenta de comunicar e difundir estas novas perspectivas, abordando aspectos da realidade que a narrativa oficial e os discursos conservadores em voga buscam suprimir.
 
 
Festival: Quais desafios a produção de vídeo independente e popular enfrenta hoje no Brasil?

O Estado tem buscado conceber a interação com os novos atores através da ótica da diversidade e da cidadania cultural, sendo o apoio através de editais uma das principais políticas. Também algumas entidades culturais privadas sem fins lucrativos têm atuado nesta ótica, fomentando a produção independente e popular principalmente através de suas linhas de programação cultural. Já o mercado vem buscando incorporar artistas, ainda que de maneira pontual, ou procurando incorporar essa “cultura de periferia” nas produções culturais hegemônicas, como se tem visto na TV, por exemplo. O que sugere a possibilidade de acomodação da perspectiva da “cultura da periferia” no status quo.

A sustentabilidade econômica da atividade cultural é uma das grandes questões para a diversidade atualmente. As linhas de fomento não são capazes de atender ao cada vez maior conjunto de iniciativas artísticas e a grande maioria delas não se viabiliza no mercado. As grandes instituições e espaços culturais tem se questionado cada vez mais do seu papel neste cenário. Como contribuir para o florescimento desta produção construída em grande parte à revelia dos espaços e instituições culturais tradicionais?

Nota-se que tal discurso abre espaço para uma nova ambiguidade, permitindo que distintas perspectivas muitas vezes apareçam aglutinadas dentro das mesmas denominações, ainda que estejam dentro de um campo de grande tensão. A produção de vídeo recente pode, desta forma, dialogar por um lado com o discurso oficial do Estado, por outro com a sociedade civil na figura dos movimentos sociais e de cultura de hoje, mas também com as ONGs e com o mercado. Garantir a sobrevivência, desenvolvimento e aprimoramento de iniciativas com independência artística e vigor estético, se posicionando neste campo complexo das forças políticas e econômicas em jogo é um enorme desafio.

Nos anos 80 e 90, eram ausentes políticas públicas específicas e recursos públicos de fomento para o setor, ao mesmo tempo em que surgiam uma série de movimentos sociais e populares de maior estruturação institucional que tinham o vídeo como ferramenta política, tal como aqueles aglutinados em torno da Associação Brasileira de Vídeo Popular (ABVP), que se construiu de maneira autônoma ao Estado e ao mercado.

Já ao longo da década de 2000, os editais de seleção de projetos tornaram-se o principal modelo de financiamento estatal à cultura no Brasil, ao lado das leis de incentivo fiscal, que se estabeleceram na década anterior. Tais ações do Estado acabam por atingir a relação entre duas esferas simbólicas básicas – o polo da indústria cultural e o polo da produção cultural popular, sendo o “popular” um termo que encampa disputas simbólicas pelo seu significado. Tendo isso em vista, vislumbra-se um cenário em que, no fundo, a política estatal de fomento à diversidade cultural através de programas e editais por um lado incentiva e viabiliza a produção, por outro promove um apaziguamento das tensões de classes sem mudanças efetivas nas estruturas de investimento, repasses de recurso e regulação do mercado por parte do Estado, mantendo se como sistema de natureza excludente. Desta forma, se por um lado há uma luta por políticas específicas para a produção do vídeo independente e popular, por outro não se pode perder de vista a natureza eminentemente excludente do Estado capitalista.
 
 
Festival: Como surgiu a ideia e aconteceu a produção do livro ‘Quebrada? Cinema, vídeo e lutas sociais’? É preciso também ocupar a academia?

A publicação é resultado de um conjunto de atividades, reflexões sobre a área da cultura e vivências que tive com o vídeo e que de alguma forma preencheram meus últimos anos. Tive o privilégio de acompanhar tentativas e erros. Nossas próprias limitações foram sendo superadas graças ao exercício de experimentar. Impossível, neste momento, não olhar para trás: reuniões, debates, coisas ditas, escritas e o surgimento e a realização de um conjunto de iniciativas.

Neste sentido, o livro atualiza um debate sobre a produção contemporânea popular, da quebrada e/ou da periferia, evidenciando o papel político e estético do audiovisual nas bordas. Buscando evidenciar uma escritura da quebrada e sobre a quebrada. Uma diversidade de leituras, sobre uma produção pautada pela luta afirmativa das diferenças, e, paradoxalmente suas singularidades. Um panorama plural no estilo e nos problemas levantados. Entrevistas e ensaios compõem uma espécie de caleidoscópio, dada as perspectivas, abordagens e agentes sociais mencionados.

A academia é ocupada majoritariamente por uma elite econômica e por uma classe média cultural que pesquisa e cria suas narrativas oficiais sobre a periferia e as nossas vidas. Como todo espaço de poder de narrativas, assim como o audiovisual, a academia tem pouco espaço para a participação e a cultura popular. Como espaço formativo e de elaboração de ideias e reflexões, é um espaço que deve entrar na disputa pelos significados. Ocupar para unir teoria e prática.
 
 
Festival: Quais filmes de referência produzidos nas quebradas você indica?

Faço uma cronologia de filmes produzidos nas quebradas e de fácil acesso (alguns disponíveis na internet). Boa sessão!

Vaguei os livros e me sujei com a merda toda (doc. 2007), de Allan da Rosa, Mateus Subverso e Akins kinte
– Na real do real (doc. 2008), do Coletivo Favela Atitude;
Videolência (doc. 2009), do Núcleo de Comunicação Alternativa (NCA);
– Qual Centro? (doc. 2010), do Coletivo Nossa Tela;
– Jennifer (fic. 2012), de Renato Cândido;
O Massacre de Pinheirinho: A verdade não mora ao lado (doc. 2012), do Coletivo de Comunicadores Populares de Campinas;
Um salve doutor (fic. 2015), do Coletivo Mundo em Foco;
– Um dia no Ilè (doc. 2015), de Guilherme Cesar;
– Peripatético (fic. 2017), de Jéssica Queiroz.

Por Webert da Cruz – jornalista e fotógrafo do Estúdio Gunga


Entrevista: Rodrigo Arajeju, diretor de ‘Tekoha – Som da Terra’ (1º lugar no 12º Festaguá)

Em 2017, o curta Tekoha – Som da Terra, dirigido por Rodrigo Arajeju e Valdelice Veron (Xamiri Nhupoty), venceu o 12º Festival Taguatinga de Cinema. Premiado e exibido em muitos outros festivais pelo Brasil, o documentário trata da luta liderada por mulheres Guarani pela retomada de seu território sagrado no estado do Mato Grosso do Sul.

Também roteirista e diretor dos filmes Índio cidadão?  (vencedor de melhor média-metragem do FICA 2015) e Índios no poder (vencedor de melhor direção no Cine Ceará de 2016), Rodrigo concedeu entrevista ao blog do Festival Taguatinga de Cinema para falar da sua experiência como realizador Audiovisual, da militância pelos direitos indígenas e do cenário dos festivais de cinema.

Rodrigo Arajeju é realizador na produtora independente 7G Documenta e mestre em Sustentabilidade Junto a Povos e Terras Tradicionais, pelo Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB. Com o Povo Kaiowa, desde 2014, produz documentários e vídeos sobre as lutas e os lutos nas retomadas.

Participação em vídeo do projeto “De Olho nos Ruralistas”

 
Festaguá: Você é formado em Direito e acabou trilhando o caminho do Audiovisual focado nos direitos indígenas. De que forma e quando aconteceu essa transição?

Nos anos de 2008 e 2009 trabalhei em questões indígenas relacionadas ao direito de águas, com experiências internacionais em tribunais éticos de justiça ambiental na América Central e em Istambul, durante o Fórum Alternativo Mundial da Água. Me impressionei com o Direito Maya na Guatemala e tive contato com muitos vídeos e filmes de lutas indígenas no continente americano. Voltei pro Brasil com a intuição de que era necessário realizar um filme sobre a participação da União das Nações Indígenas, movimento nacional na década de 1980, na Constituinte (1987-88) para resgatar o processo de conquista dos diretos constitucionais dos Povos Originários do Brasil. Existe muito preconceito na sociedade e desconhecimento das lutas e mobilizações indígenas em âmbito da política federal. Em 2013, aprovei projeto no FAC para a realização do filme “ÍNDIO CIDADÃO?“, que foi minha estreia nessa trajetória que denomino como comunicação por direitos indígenas.
 
 
Festaguá: Como você analisa o desconhecimento dos povos e tradições indígenas por parte da sociedade brasileira? Qual o papel da grande mídia e da instituição escola nesse processo?

A maior parte da população desconhece a diversidade dos 305 Povos e a diferença de seus contextos socioculturais e ambientais. No território brasileiro, há registros de indígenas em isolamento voluntário em regiões de fronteiras, que é uma realidade totalmente diferente, por exemplo, do Povo Pataxó, na Bahia, que resiste há 518 anos desde a invasão colonial. No entanto, a maioria dos brasileiros parece exigir dos indígenas o fenótipo do que durante um tempo se chamou de “índio Xingu” ou a paralização das culturas no tempo, ignorando todos os crimes e violações do processo histórico de colonização e das políticas de incorporação dessas populações à “comunhão nacional”, oficialmente, até a década de 1980 – o etnocídio institucional. A grande mídia costuma pautar questões indígenas somente no mês de abril ou quando se tratam de conflitos, muitas vezes com matérias superficiais e que reforçam preconceitos. Muitas escolas ainda estão despreparadas para abordar aspectos históricos e contemporâneos desses povos, embora esteja vigente a Lei nº 11.645/2008, que torna obrigatória a inclusão de “história e cultura indígena” no currículo.

Frame do documentário Tekoha – Som da Terra

 
Festaguá: Pela experiência com seus três filmes e observando tantas outras produções pelo Brasil, quais as contribuições da linguagem cinematográfica independente para a luta indígena no Brasil, em especial a demarcação de terras?

Acredito que os filmes protagonizados por indígenas, sejam lideranças ou porta-vozes, apresentam a oportunidade do encontro com os espectadores que desconhecem suas realidades e não tiveram oportunidade de conhecer seus territórios e realidades. É uma forma de utilizar a tecnologia para amplificar essas vozes e brigar pela formação de opinião na sociedade dominante. Muitos filmes abordam as questões de demarcação de terras e acabam se convertendo em verdadeiras petições audiovisuais pelo cumprimento dos direitos originários, denunciando essa omissão histórica do Estado brasileiro, que deveria ter concluído todas demarcações de terras indígenas em 1993 – prazo constitucional estabelecido. Acredito que poucos filmes podem contribuir efetivamente em processos formais de demarcação, embora se possa citar o filme Corumbiara, de Vincent Carelli, como um exemplo de que é possível utilizar o audiovisual como instrumento probatório.
 
 
Festaguá: Como a experiência de capacitação em novas tecnologias e produção audiovisual repercute dentro das comunidades indígenas, em especial com as novas gerações?

Desde a década de 1990, representantes de diferentes Povos já se apropriaram das tecnologias audiovisuais através das formações de cineastas indígenas do projeto Vídeo nas Aldeias. São dezenas de filmes realizados desde então. As novas gerações já foram formadas pelos seus próprios parentes e o acesso aos aparelhos celulares também facilitou a produção de conteúdo fotográfico, vídeos e postagem de reportagens nas redes sociais – a chamada etnomídia, discussão que no Brasil foi alavancada pela Rádio Yandê (http://radioyande.com/) e possui diversas iniciativas em âmbito de organizações indígenas e profissionais de comunicação de diferentes Povos.


 
Festaguá: Os curtas-metragens são a melhor opção de produção para filmes engajados politicamente? Porque e como avançar?

Acredito que os curtas possuem mais perspectivas de exibições nos circuitos de festivais de cinema do que os longas, que tem uma janela restrita por não comportar tantos filmes na programação. Na minha experiência pessoal, percebo que os curtas podem rodar muito em festivais e são mais acessíveis para visualização na internet. Realizei apenas um média, que não teve muita circulação em festivais pelo formato, contudo, obteve destaque em programação de TV Pública com grande alcance acumulado de telespectadores. Por ser um filme com mais conteúdo, ainda é o mais demandado e divulgado para cinedebates e mostras. O mercado começa a discutir sobre as ditas produções de impacto, filmes engajados com causa, e os especialistas dizem que o longa é o melhor formato. Acredito que para avançar precisamos conseguir linhas de financiamento, oficiais ou coletivas, para trabalhar a difusão dos filmes em circuitos oficiais e alternativos mediante a promoção de debates e ações efetivas em prol das causas que se colocam a serviço.
 
 
Festaguá: Sobre a sua experiência como realizador audiovisual, qual o papel dos festivais de cinema para a ampliação do público espectador do cinema documental?

Avalio que os festivais são uma das janelas mais acessíveis para os realizadores difundirem seus trabalhos, contudo, a concorrência é cada vez maior, com média de 600 a 1.000 filmes inscritos para seleção. O público das sessões também não se compara com a média de audiência obtida na TV ou na internet. Considero que os festivais importantes para formação de plateia são aqueles que promovem debates entre realizadoras(es) e público.
 
 
Festaguá: Por fim, comente sobre a experiência de participar e ser um dos vencedores do Festival Taguatinga de Cinema, em 2017.

O Festival Taguatinga de Cinema promoveu vários espaços de intercâmbio entre as(os) realizadoras(os), curadoria, público e profissionais do Audiovisual. Foi uma experiência positiva ter participado de debates e trocas reflexivas relevantes. Como mencionei, a concorrência de filmes é crescente e, por isso, ser selecionado para o programa oficial de um festival já é motivo de comemoração. Não aposto no formato competitivo, acredito que a natureza do ofício cinematográfico é colaborativa. Mas é a lógica do circuito de festivais e as premiações são importantes para abrir novas oportunidades de circulação do filme. Também tem o aspecto da premiação em dinheiro que contribui bastante para os investimentos feitos no filme, sendo que todo o trabalho de divulgação dos curtas não é financiável nas linhas públicas de fomento. No caso do nosso filme, também permitiu o envio de uma quantia para a família que protagonizou o curta e essa contrapartida financeira é importante. Considerando esses dois aspectos, o reconhecimento da qualidade cinematográfica da obra e a premiação foram muito importantes para nós. Foi uma honra ter participado do festival e alcançado essa distinção.

Desejo vida longa ao Festival Taguatinga de Cinema e que siga antenado às resistências que precisamos reforçar no Audiovisual e na vida.

Cerimônia de premiação do 12º Festival Taguatinga de Cinema – 2017. Foto: Paula Carruba

 

Por Keyane Dias: jornalista cultural, poeta, terapeuta
e co-criadora da Pareia – Comunicação e Cultura


“Mais fortes são os poderes do povo!” – o audiovisual como ferramenta de luta

Parece temporalmente despropositada a evocação à obra marcante de Glauber Rocha, referência do Cinema Novo brasileiro. Não é! Trata-se do último grito de Corisco ao ser atingido por uma bala de Antônio das Mortes, o caçador de cangaceiros contratado pela oligarquia para dar um jeito nos rebeldes. A cena, rodada em 1963, é forte em simbologia e o filme em sua potência de resistência, que atravessa as décadas.

Lançado em 1964, logo após o golpe civil-militar que afundaria o Brasil em mais de 20 anos de ditadura, Deus e o Diabo na Terra do Sol fazia alegoria às diversas formas de enfrentamento buscadas pelas populações excluídas do sertão e as artimanhas dos arcaicos e provincianos senhores do poder na perpetuação de sua saga. Junto com outros filmes e produções, a película foi representativa de uma época de ebulição política, com considerável organização tanto na cidade quanto no campo (vide as Ligas Camponesas) e engajamento dos realizadores nos processos de transformação nas esferas cultural e política.

Em um grave quadro de tensão e ruptura, a arte, em especial o Cinema, não hesitaram em cumprir seu papel de posicionamento no momento histórico. Deus e o Diabo ganhou o mundo, levando a estética inovadora de Glauber e a bandeira dos “Condenados da Terra”, para usar um termo de Frantz Fanon que o diretor conheceria só depois, ao cruzar os mares e instigar curiosidade e rebeldia por onde passou.

Mais de cinquenta anos depois, vivemos novamente um cenário de acirramento das disputas políticas e ascensão de um ideário conservador, com uma diferenciação na modalidade operativa de golpe nas instituições dirigentes nacionais. Sob a batuta da grande mídia, de empresários e investidores financeiros, os poderes da república se curvam e implementam um projeto de devassa no erário, patrimônio e serviço público, além da perseguição desmedida a opositores, mesmo que alegadamente dentro dos “trâmites legais”.

Em um exercício comparativo entre a realidade dos anos de 63 e 64 e a nossa atual, veremos claramente que uma das coisas que não mudou é o enorme abismo social e econômico entre a grande maioria da população e os 5% mais ricos do país. Pior, esta realidade de desigualdade até se ampliou, mesmo com as tímidas políticas afirmativas de inclusão e a inserção de um grande contingente populacional ao consumo, promovidas nos últimos governos. O Brasil se afirmou como o país da desigualdade.

Outra coisa que não mudou é o papel das elaborações e produções artísticas e culturais nas disputas por representação e narrativas. A realização audiovisual é fundamental neste ponto, ainda mais em um mundo altamente conectado, em que os conteúdos circulam com mais facilidade que há décadas atrás.

 

A urgência, tanto de produtores quanto de produções engajadas, talvez seja a mesma, mas com uma escala incomparável, com uma possibilidade de acesso a equipamentos e a uma distribuição inimaginável aos cineastas que montavam películas no tempo de Glauber. Também pode se diferenciar a questão da autoria, sendo que hoje em dia muitos coletivos assinam produções.

Assim, o Cinema e o Audiovisual podem se converter em ferramenta de resistência, de luta, de disputa das narrativas que buscam imprimir no imaginário social perspectivas marginalizadas pelos veículos hegemônicos, diminuídas no processo de construção de valores e validação dos acontecimentos na sociedade.

Tomemos como exemplo as Jornadas de Junho de 2013, o seu potencial rebelde, contestador e transformador presente em milhares de impressões audiovisuais dispersas, algumas delas mais elaboradas e efetivas, e a pasteurização e condução dos grandes meios de comunicação que passaram a estabelecer uma narrativa de acordo aos seus interesses. O que sobrou de resistência de 2013 é o que se produziu contra-hegemonicamente. O resto serviu ao conservadorismo e ao golpe.

Resistência é o que não falta no Brasil. A relação dialética é certeira, como afirma o rapper e educador popular Markão Aborígine em sua canção manifesto: “Enquanto houver opressão e violência haverá luta e resistência”. E estas marcas profundas da realidade nacional sobrevivem há 518 anos.

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Lançando mão de câmeras, celulares e computadores portáteis, sem a ilusão de que a tecnologia seja neutra, indígenas, feministas, a juventude negra periférica, estudantes, trabalhadores e experientes cineastas podem efetivar o Audiovisual como uma importante ferramenta de luta, com muita criatividade, às vezes com abordagens mais explícitas, em outras com pegadas mais experimentais ou que enveredem caminhos mais simbólicos.

Importante é afastar o fantasma da isenção, o discurso sedutor da arte distanciada da realidade, uma espécie de capitulação que ao final fortalece as estruturas do poder estabelecido e que perpetua as desigualdades já descritas acima.

Outro papel importante que pode ser assumido pelos realizadores audiovisuais é o compromisso com a partilha do conhecimento e técnicas em processos formativos horizontais, participativos e emancipatórios, multiplicando assim as possibilidades de perspectivas e os focos de resistência. São vários os exemplos nos tempos recentes, como o projeto Vídeo nas Aldeias, Cultura Digital, Movimento do Vídeo Popular, diversas experiências de midiativismo e projetos de formação envolvendo princípios de educação popular e produção audiovisual, como o Observatório da Criança e Adolescente (OCA) na Cidade Estrutural.

As possibilidades são inesgotáveis, podendo envolver distintos agentes, formatos e abordagens, estabelecendo ligações e formulações estéticas criativas entre a subjetividade dos realizadores e a realidade concreta. É inscrever no tempo as vozes e olhares populares, é resgatar a dignidade dos excluídos com a beleza da vida, da diversidade nas representações através do Audiovisual e do Cinema.

Diante da realidade de perda de direitos e retrocesso em que passa o país, um péssimo e mal-ajambrado remake de 1964 – quando foi lançado o Deus e o Diabo – mas com inserções crossover de Terra em Transe, de 1967, é mais do que passada a hora do Cinema assumir seu lugar histórico na disputa política e imprimir a resistência definitivamente na esfera pública.

Que proliferem as mensagens de que a sociedade não aceita nenhum direito a menos e não tolera crimes hediondos, como o assassinato de Marielle e Anderson ocorrido no último mês de março, muito menos o alarmante extermínio da juventude negra no país.

Que o Cinema encampe a boa luta, a luta por justiça, a luta dos de baixo. Afinal, como a lição que Glauber nos deixou através do grito do cangaceiro Corisco: mais fortes são os poderes do povo!


Por Diego Mendonça: realizador audiovisual, educador popular

e mestre em Direitos Humanos pela UnB.

 



2º Festival de Cinema do Paranoá começa no dia 23 de abril

A segunda edição do Festival de Cinema do Paranoá está chegando. Entre os dias 23 e 29 de abril, serão exibidos 79 curtas-metragens de animação, ficção e documentais. O evento tem entrada franca, com exibições realizadas no Centro de Cultura e Desenvolvimento do Paranoá e Itapoã (Cedep).

O FestCineParanoá destaca o protagonismo de cineastas negros/as, mais tempo de tela para produções de autoria feminina, a pluralidade de narrativas e também abre espaço para as produções independentes e estudantis.

Com força de atuação na descentralização do Cinema e do Audiovisual no DF e no Brasil, o 2º FestCineParanoá integra extensa programação, que inclui Mostra Competitiva do DF e Entorno, Mostra Competitiva Nacional, Mostra Interativa Para Surdos, Mostra Infantil e Mostra Itinerante nas Escolas Públicas.

Acesse a programação e não perca!!



Inscrições abertas para o 13º Festival Taguatinga de Cinema – O Movimento em Nós

O 13º Festival Taguatinga de Cinema está com inscrições abertas até o dia 30 de abril. Com o tema “O movimento em nós”, o Festival convoca realizadoras e realizadores que proponham, em suas produções, a construção de um novo Brasil possível frente à onda de retrocessos.

Podem ser inscritos filmes de curta-metragem produzidos entre 2016 e 2018, nos gêneros ficção, documentário, experimentais e de animação, atravessados pelo desejo de resistir e florescer na aridez do Brasil atual.

A Mostra Competitiva acontece entre os dias 22 e 25 de agosto, no Complexo Cultural Teatro da Praça, em Taguatinga. Acesse o hotsite de inscrições, conheça o Regulamento e inscreva-se.

Esperamos seu filme de coração aberto!

 



“Divina Luz” apresenta personagem à frente de seu tempo, comenta William Alves

O filme Divina Luz, de Ricardo Sá, do Espirito Santo, ficou entre os filmes escolhidos pelo Júri Oficial do Festival Taguatinga de Cinema como os mais significativos dessa edição.

É um filme que reconstrói a imagem de uma das mulheres mais ousadas da década de 1950, Dora Vivacqua, mais conhecida como Luz Del Fuego.

Dora foi uma mulher à frente de seu tempo, inspirou, nos anos 70 e 80, artistas que clamavam por mais liberdade. Rita Lee compôs em 70 a música “Luz del Fuego” e em 82, o diretor de cinema David Neves fez um longa-metragem com o mesmo nome.

Dora pregava a liberdade do ser, livre dos preconceitos comuns que ela considerava ser o fruto do atraso nas relações entre as pessoas. Escreveu o livro “A verdade nua” e foi uma das precursoras do nudismo no Brasil, tudo isso num pais onde não era permitido nem o uso de maiô nas praias brasileiras. Como artista, hipnotizava o Brasil dançando, seminua, com duas cobras durante suas apresentações.

O filme de Ricardo Sá, que pode ser considerado um ensaio audiovisual, cumpre bem a função ao reconstituir através de imagens de arquivo, fotos e filmes, parte da história de uma importante personagem brasileira. O gesto do cineasta na utilização de imagens de arquivos, destinados ao esquecimento é um gesto poderoso, pois imagens de arquivos muitas vezes carregam consigo sentidos que necessitam de outros elementos, imagens e temporalidades, textos e depoimentos para se reafirmarem.

Recentemente tive contato com a biografia do historiador francês Jacques Le Goff, e ele dizia “… o documento em muitos trabalhos artísticos, não é, em absoluto, algo objetivo e inocente que expresse uma verdade sobre uma determinada época, mas aquilo que expressa, consciente ou inconsciente, o poder da sociedade do passado sobre a memória e o futuro”.

Na apropriação de imagens, na recomposição de lugares e situações de outros tempos, de um tempo passado, Ricardo Sá produz não apenas a memória histórica e cinematográfica de um lugar e de uma personagem, mas também uma percepção de que essa memória não está congelada no tempo, que a história de “Divina Luz” e toda a violência contra a mulher sobrevivem e seguem firmes nos dias de hoje.

Mesmo assim, com toda a tensão gerada, percebemos que o ideal libertário sobrevive de algum modo, aos acontecimentos que tentam sufocá-lo e transformá-lo em algo menor, sem valor e sem a “Divina Luz”.

Nesse sentido, esse ensaio cinematográfico, esse filme de Ricardo Sá, se destaca pela abordagem do tema proposto pela 12ª edição do Festival Taguatinga de Cinema.

E como muito bem expressou nosso genial MC Guilherme: “Sonhar, sonhar, lutar, lutar, sem jamais desistir.

William Alves
Realizador de filmes, integra a equipe que organiza o Festival Taguatinga de Cinema.



William Alves, organizador do Festival, comenta o filme “Tekoha”

Tekoha foi o grande vencedor da 12ª edição do Festival Taguatinga de Cinema. É um filme realizado por Rodrigo Arajeju e Valdelice Veron (Xamiri Nhupoty) rodado no Mato Grosso do Sul e conta a história de uma tribo Kaiowás que luta contra o agronegócio para se manter em suas terras e não perder suas raízes e tradições.

No filme, vemos um grupo de mulheres e crianças que cuidam de seus afazeres e também da transmissão de costumes. O espectador transita entre imagens que nos levam a uma espécie de paraíso, com natureza abundante, muita água, ruídos e pássaros cantando, flautas e assobios e imagens da devastação que avizinha a tribo.

Ao som desses elementos e elementais, vamos conhecendo aqueles que surgem em primeiro plano, primeira pessoa, vamos conhecendo os Kaiowás e a dura realidade a que estão submetidos.

A fotografia puxada para uma tonalidade mais terra, vai aos poucos se justificando, pois o que é apresentado ao público como cenário da narrativa é uma terra devastada, nua, sem vida, ocupada por máquinas, chaminés, tratores e monoculturas. Brasília surge como algo distante, um sonho, um lugar onde não há justiça para uma causa tão sofrida. É uma Brasília sombria, soturna e sem luz à causa dos Kaiowás.

É nesse cenário que tomamos contato com a luta desse povo da floresta, que vive na floresta, que depende da floresta, que é parte da floresta e que está, pouco a pouco, sendo destruído, não só pela força dos tratores, das maquinas, do agronegócio e das armas que já assassinaram seus caciques e irmãos, mas também pela força que se impõe sobre o seu modo de viver, sobre o Tekoha.

“Tekoha significa, literalmente, o lugar do modo de ser Guarani, sendo esta categoria modo de ser (tekó) entendida como um conjunto de preceitos para a vida, em consonância com os regramentos cosmológicos herdados pelos antigos guaranis. Não é possível ser guarani e seguir o tekó sem viver em um tekoá”.

A luta pela terra dos Kaiowás é a luta pelo Tekoha, é a luta pelo seu modo de existência em conjunto com o todo, com seu universo mítico, mágico, cheio de mistérios e de alegrias também.

Para nós que não compreendemos com profundidade o significado do Tekoha, podemos pensar que o Tekoha é a experiência de uma existência vivida pelos Kaiowás, essa é uma experiência de aprendizado, de troca, de respeito e se dá no dia a dia dos afazeres do grupo, na construção de seus lugares sagrados, na confecção de suas vestes e indumentárias, nas pinturas com símbolos carregados de significados e na troca de conhecimentos ancestrais entre os membros da tribo.

O filme Tekoha é um pouco disso tudo, com poder e força se estabelece em sua poética, no cuidado estético do som e da imagem, na forma como os personagens são abordados, apresentados, construídos e na possibilidade de um futuro diferente do presente, de um futuro expresso na imagem de uma criança Kaiowá sorrindo e correndo entre o limite da mata que ainda resta e a terra devastada.
Uma criança com seu objeto mágico abençoando e significando a luta desse povo.
Sonhar, sonhar, lutar, lutar, sem jamais desistir nem deixar de acreditar num futuro melhor.

Isso é uma das coisas que podemos ver no excelente filme Tekoha.

William Alves é realizador de filmes e integra a equipe que organiza o Festival Taguatinga de Cinema.

O filme Divina Luz de Ricardo Sá, do Espirito Santo, ficou entre os filmes escolhidos pelo Júri Oficial do Festival Taguatinga de Cinema, como os mais significativos dessa edição.

É um filme que reconstrói a imagem de uma das mulheres mais ousadas da década de 50, Dora Vivacqua, mais conhecida como “Luz Del Fuego”.

Dora foi uma mulher à frente de seu tempo, inspirou, nos anos 70 e 80 artistas que clamavam por mais liberdade, Rita Lee compôs em 70 a música “Luz del Fuego” e em 82 o diretor de cinema David Neves fez um longa-metragem com o mesmo nome.

Dora pregava a liberdade do ser, livre dos preconceitos comuns que ela considerava ser o fruto do atraso nas relações entre as pessoas. Escreveu o livro “A Verdade Nua” e foi uma das precursoras do nudismo no Brasil, tudo isso num pais onde não era permitido nem o uso de maiô nas praias brasileiras. Como artista, hipnotizava o Brasil dançando, seminua, com duas cobras durante suas apresentações.

O filme de Ricardo Sá, que pode ser considerado um ensaio audiovisual, cumpre bem a função ao reconstituir através de imagens de arquivo, fotos e filmes, parte da história de uma importante personagem brasileira. O gesto do cineasta na utilização de imagens de arquivos, destinados ao esquecimento é um gesto poderoso, pois imagens de arquivos muitas vezes carregam consigo sentidos que necessitam de outros elementos, imagens e temporalidades, textos e depoimentos para se reafirmarem.

Recentemente tive contato com a biografia do historiador francês Jacques Le Goff, e ele dizia “… o documento em muitos trabalhos artísticos, não é, em absoluto algo objetivo e inocente que expresse uma verdade sobre uma determinada época, mas aquilo que expressa, consciente ou inconsciente, o poder da sociedade do passado sobre a memória e o futuro. ”

Na apropriação de imagens, na recomposição de lugares e situações de outros tempos, de um tempo passado, Ricardo Sá produz não apenas a memória histórica e cinematográfica de um lugar e de uma personagem, mas também uma percepção de que essa memória não está congelada no tempo, que a história de “Divina Luz” e toda a violência contra a mulher sobrevivem e seguem firmes nos dias de hoje.

Mesmo assim, com toda a tensão gerada, percebemos que o ideal libertário sobrevive de algum modo, aos acontecimentos que tentam sufoca-lo e transformá-lo em algo menor, sem valor e sem a “Divina Luz”.

Nesse sentido, esse ensaio cinematográfico, esse filme de Ricardo Sá, se destaca pela abordagem do tema proposto pela 12ª edição do Festival Taguatinga de Cinema.

E como muito bem expressou nosso genial MC Guilherme: “Sonhar, sonhar, lutar, lutar, sem jamais desistir.

William Alves
Realizador de filmes, integra a equipe que organiza o Festival Taguatinga de Cinema.



CONFIRA FOTOS DO AÚ MIDI – 3º SEMINÁRIO DE MÍDIAS DIGITAIS

Fotos: Paula Carrubba

O AÚ MiDi – 3º Seminário de Mídias Digitais foi realizado em 10 e 11 de novembro no Campus Taguatinga da Universidade Católica de Brasília (UCB):