Em 2017, o curta Tekoha – Som da Terra, dirigido por Rodrigo Arajeju e Valdelice Veron (Xamiri Nhupoty), venceu o 12º Festival Taguatinga de Cinema. Premiado e exibido em muitos outros festivais pelo Brasil, o documentário trata da luta liderada por mulheres Guarani pela retomada de seu território sagrado no estado do Mato Grosso do Sul.

Também roteirista e diretor dos filmes Índio cidadão?  (vencedor de melhor média-metragem do FICA 2015) e Índios no poder (vencedor de melhor direção no Cine Ceará de 2016), Rodrigo concedeu entrevista ao blog do Festival Taguatinga de Cinema para falar da sua experiência como realizador Audiovisual, da militância pelos direitos indígenas e do cenário dos festivais de cinema.

Rodrigo Arajeju é realizador na produtora independente 7G Documenta e mestre em Sustentabilidade Junto a Povos e Terras Tradicionais, pelo Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB. Com o Povo Kaiowa, desde 2014, produz documentários e vídeos sobre as lutas e os lutos nas retomadas.

Participação em vídeo do projeto “De Olho nos Ruralistas”

 
Festaguá: Você é formado em Direito e acabou trilhando o caminho do Audiovisual focado nos direitos indígenas. De que forma e quando aconteceu essa transição?

Nos anos de 2008 e 2009 trabalhei em questões indígenas relacionadas ao direito de águas, com experiências internacionais em tribunais éticos de justiça ambiental na América Central e em Istambul, durante o Fórum Alternativo Mundial da Água. Me impressionei com o Direito Maya na Guatemala e tive contato com muitos vídeos e filmes de lutas indígenas no continente americano. Voltei pro Brasil com a intuição de que era necessário realizar um filme sobre a participação da União das Nações Indígenas, movimento nacional na década de 1980, na Constituinte (1987-88) para resgatar o processo de conquista dos diretos constitucionais dos Povos Originários do Brasil. Existe muito preconceito na sociedade e desconhecimento das lutas e mobilizações indígenas em âmbito da política federal. Em 2013, aprovei projeto no FAC para a realização do filme “ÍNDIO CIDADÃO?“, que foi minha estreia nessa trajetória que denomino como comunicação por direitos indígenas.
 
 
Festaguá: Como você analisa o desconhecimento dos povos e tradições indígenas por parte da sociedade brasileira? Qual o papel da grande mídia e da instituição escola nesse processo?

A maior parte da população desconhece a diversidade dos 305 Povos e a diferença de seus contextos socioculturais e ambientais. No território brasileiro, há registros de indígenas em isolamento voluntário em regiões de fronteiras, que é uma realidade totalmente diferente, por exemplo, do Povo Pataxó, na Bahia, que resiste há 518 anos desde a invasão colonial. No entanto, a maioria dos brasileiros parece exigir dos indígenas o fenótipo do que durante um tempo se chamou de “índio Xingu” ou a paralização das culturas no tempo, ignorando todos os crimes e violações do processo histórico de colonização e das políticas de incorporação dessas populações à “comunhão nacional”, oficialmente, até a década de 1980 – o etnocídio institucional. A grande mídia costuma pautar questões indígenas somente no mês de abril ou quando se tratam de conflitos, muitas vezes com matérias superficiais e que reforçam preconceitos. Muitas escolas ainda estão despreparadas para abordar aspectos históricos e contemporâneos desses povos, embora esteja vigente a Lei nº 11.645/2008, que torna obrigatória a inclusão de “história e cultura indígena” no currículo.

Frame do documentário Tekoha – Som da Terra

 
Festaguá: Pela experiência com seus três filmes e observando tantas outras produções pelo Brasil, quais as contribuições da linguagem cinematográfica independente para a luta indígena no Brasil, em especial a demarcação de terras?

Acredito que os filmes protagonizados por indígenas, sejam lideranças ou porta-vozes, apresentam a oportunidade do encontro com os espectadores que desconhecem suas realidades e não tiveram oportunidade de conhecer seus territórios e realidades. É uma forma de utilizar a tecnologia para amplificar essas vozes e brigar pela formação de opinião na sociedade dominante. Muitos filmes abordam as questões de demarcação de terras e acabam se convertendo em verdadeiras petições audiovisuais pelo cumprimento dos direitos originários, denunciando essa omissão histórica do Estado brasileiro, que deveria ter concluído todas demarcações de terras indígenas em 1993 – prazo constitucional estabelecido. Acredito que poucos filmes podem contribuir efetivamente em processos formais de demarcação, embora se possa citar o filme Corumbiara, de Vincent Carelli, como um exemplo de que é possível utilizar o audiovisual como instrumento probatório.
 
 
Festaguá: Como a experiência de capacitação em novas tecnologias e produção audiovisual repercute dentro das comunidades indígenas, em especial com as novas gerações?

Desde a década de 1990, representantes de diferentes Povos já se apropriaram das tecnologias audiovisuais através das formações de cineastas indígenas do projeto Vídeo nas Aldeias. São dezenas de filmes realizados desde então. As novas gerações já foram formadas pelos seus próprios parentes e o acesso aos aparelhos celulares também facilitou a produção de conteúdo fotográfico, vídeos e postagem de reportagens nas redes sociais – a chamada etnomídia, discussão que no Brasil foi alavancada pela Rádio Yandê (http://radioyande.com/) e possui diversas iniciativas em âmbito de organizações indígenas e profissionais de comunicação de diferentes Povos.


 
Festaguá: Os curtas-metragens são a melhor opção de produção para filmes engajados politicamente? Porque e como avançar?

Acredito que os curtas possuem mais perspectivas de exibições nos circuitos de festivais de cinema do que os longas, que tem uma janela restrita por não comportar tantos filmes na programação. Na minha experiência pessoal, percebo que os curtas podem rodar muito em festivais e são mais acessíveis para visualização na internet. Realizei apenas um média, que não teve muita circulação em festivais pelo formato, contudo, obteve destaque em programação de TV Pública com grande alcance acumulado de telespectadores. Por ser um filme com mais conteúdo, ainda é o mais demandado e divulgado para cinedebates e mostras. O mercado começa a discutir sobre as ditas produções de impacto, filmes engajados com causa, e os especialistas dizem que o longa é o melhor formato. Acredito que para avançar precisamos conseguir linhas de financiamento, oficiais ou coletivas, para trabalhar a difusão dos filmes em circuitos oficiais e alternativos mediante a promoção de debates e ações efetivas em prol das causas que se colocam a serviço.
 
 
Festaguá: Sobre a sua experiência como realizador audiovisual, qual o papel dos festivais de cinema para a ampliação do público espectador do cinema documental?

Avalio que os festivais são uma das janelas mais acessíveis para os realizadores difundirem seus trabalhos, contudo, a concorrência é cada vez maior, com média de 600 a 1.000 filmes inscritos para seleção. O público das sessões também não se compara com a média de audiência obtida na TV ou na internet. Considero que os festivais importantes para formação de plateia são aqueles que promovem debates entre realizadoras(es) e público.
 
 
Festaguá: Por fim, comente sobre a experiência de participar e ser um dos vencedores do Festival Taguatinga de Cinema, em 2017.

O Festival Taguatinga de Cinema promoveu vários espaços de intercâmbio entre as(os) realizadoras(os), curadoria, público e profissionais do Audiovisual. Foi uma experiência positiva ter participado de debates e trocas reflexivas relevantes. Como mencionei, a concorrência de filmes é crescente e, por isso, ser selecionado para o programa oficial de um festival já é motivo de comemoração. Não aposto no formato competitivo, acredito que a natureza do ofício cinematográfico é colaborativa. Mas é a lógica do circuito de festivais e as premiações são importantes para abrir novas oportunidades de circulação do filme. Também tem o aspecto da premiação em dinheiro que contribui bastante para os investimentos feitos no filme, sendo que todo o trabalho de divulgação dos curtas não é financiável nas linhas públicas de fomento. No caso do nosso filme, também permitiu o envio de uma quantia para a família que protagonizou o curta e essa contrapartida financeira é importante. Considerando esses dois aspectos, o reconhecimento da qualidade cinematográfica da obra e a premiação foram muito importantes para nós. Foi uma honra ter participado do festival e alcançado essa distinção.

Desejo vida longa ao Festival Taguatinga de Cinema e que siga antenado às resistências que precisamos reforçar no Audiovisual e na vida.

Cerimônia de premiação do 12º Festival Taguatinga de Cinema – 2017. Foto: Paula Carruba

 

Por Keyane Dias: jornalista cultural, poeta, terapeuta
e co-criadora da Pareia – Comunicação e Cultura