{"id":2525,"date":"2020-06-25T21:17:49","date_gmt":"2020-06-26T00:17:49","guid":{"rendered":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/?p=2525"},"modified":"2020-06-25T21:18:45","modified_gmt":"2020-06-26T00:18:45","slug":"a-transformacao-do-silencio-em-linguagem-cinematografica-e-acao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/a-transformacao-do-silencio-em-linguagem-cinematografica-e-acao\/","title":{"rendered":"A Transforma\u00e7\u00e3o do Sil\u00eancio em Linguagem Cinematogr\u00e1fica e A\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Por Marina Pontes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O t\u00edtulo \u00e9 uma interfer\u00eancia minha no texto \u201cA Transforma\u00e7\u00e3o do Sil\u00eancio em Linguagem e A\u00e7\u00e3o\u201d, da escritora Audre Lorde, proferido por ela em 1977, no painel \u201cL\u00e9sbicas e Literatura\u201d da Associa\u00e7\u00e3o de L\u00ednguas Modernas, e publicado em v\u00e1rios livros da autora. Isto porque Sair do Arm\u00e1rio, meu curta-metragem de 2018, s\u00f3 foi poss\u00edvel devido ao descobrimento desse texto, e devido a Audre.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu costumo sempre contar a vers\u00e3o mais curta desse processo: eu precisava realizar um exerc\u00edcio de document\u00e1rio para uma disciplina do meu curso de Cinema e Audiovisual (UFRB), e como eu j\u00e1 havia ultrapassado o prazo de entrega, precisava trabalhar com o que tinha em m\u00e3os: a urg\u00eancia pessoal de falar com minha m\u00e3e sobre a minha sexualidade e um aplicativo de grava\u00e7\u00e3o de som no celular.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocando assim, faz parecer que foi um processo r\u00e1pido e intuitivo, que suas escolhas t\u00e9cnicas n\u00e3o precisaram ser trabalhadas, n\u00e3o \u00e9? Acontece que n\u00e3o foi bem assim, e eu gostaria de utilizar esse espa\u00e7o para desfazer essa ideia que, muitas das vezes, eu mesma reforcei, uma vez que a vers\u00e3o completa levaria algumas horas e muitas l\u00e1grimas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"594\" height=\"593\" src=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Captura-de-Tela-2020-06-25-a\u0300s-21.01.39-3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2531\" srcset=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Captura-de-Tela-2020-06-25-a\u0300s-21.01.39-3.png 594w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Captura-de-Tela-2020-06-25-a\u0300s-21.01.39-3-300x300.png 300w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Captura-de-Tela-2020-06-25-a\u0300s-21.01.39-3-150x150.png 150w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Captura-de-Tela-2020-06-25-a\u0300s-21.01.39-3-260x260.png 260w\" sizes=\"auto, (max-width: 594px) 100vw, 594px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Bom, eu poderia dizer que o processo de Sair do Arm\u00e1rio come\u00e7ou na minha inf\u00e2ncia, quando escrevia cartinhas cheias de cora\u00e7\u00f5es pra uma amiga que eu gostava at\u00e9 demais; aos 14 anos, quando ouvi pela primeira vez a palavra l\u00e9sbica e sua defini\u00e7\u00e3o; aos 17, quando meus pais descobriram minha primeira namorada; ou aos 21, quando, j\u00e1 na faculdade e longe de casa, contei para minha m\u00e3e por telefone.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todos os momentos &#8211; exceto na inf\u00e2ncia, onde eu n\u00e3o compreendia o sentimento daquelas cartas &#8211; eu senti medo. Al\u00e9m da sociedade como um todo, sou de fam\u00edlia evang\u00e9lica e, por consequ\u00eancia, sentir medo da puni\u00e7\u00e3o, calar e consentir eram princ\u00edpios muito bem cristalizados dentro de casa. Sempre tive uma comunica\u00e7\u00e3o melhor com minha m\u00e3e, mas nunca tratando de sexualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando meus pais descobriram minha primeira namorada, por exemplo, eu temi apanhar e ser impedida de sair de casa. Eles amea\u00e7aram me tirar da escola (eu e minha namorada estud\u00e1vamos juntas) e de retirar meus meios de comunica\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de demonstrarem desprezo e nojo. Por medo de ficar presa e longe de minha namorada, eu prometi que ia mudar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para sobreviver, aprendi a me esconder melhor, a mentir melhor sobre aonde eu ia e com quem estava, e a comunicar o que eu precisava de forma que n\u00e3o deixasse meus pais furiosos: tom calmo e meigo, muitas das vezes apelando para uma express\u00e3o facial fofa e inocente, e jamais confrontando. Se eu identificava um tom de amea\u00e7a ou o in\u00edcio da raiva, recuava imediatamente. Do contr\u00e1rio, o resultado era gritos e objetos quebrados \u00e0 minha volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Voil\u00e0, temos o tom da conversa no filme! Para al\u00e9m do respeito e amor que de fato existe entre mim e minha m\u00e3e, esse era o \u00fanico tom poss\u00edvel para que o di\u00e1logo n\u00e3o sa\u00edsse de controle. Eu n\u00e3o respondo quando ela diz que eu devo ficar sozinha ou quando &#8211; em um trecho que n\u00e3o coloquei no filme &#8211; ela me pede para nunca ter um filho com outra mulher, pois uma crian\u00e7a n\u00e3o tinha culpa de eu ser assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses eram momentos que qualquer palavra ou express\u00e3o errada, poderiam retirar a camada de respeito m\u00fatuo e dar lugar \u00e0 hierarquia m\u00e3e e filha \/ Deus e pecado, que existe em contraste com o respeito e companheirismo que desenvolvemos em outras \u00e1reas de nossas vidas. Em Sair do Arm\u00e1rio, eu escolhi o que dizer e como responder visando minha pr\u00f3pria seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que eu n\u00e3o tinha como ter certeza da rea\u00e7\u00e3o de minha m\u00e3e e, posteriormente, a de meu pai, se eu dissesse tudo da forma exata, como eu gostaria. Entretanto, minha experi\u00eancia com eles me ensinou a ter cuidad &#8211; um lar violento \u00e9 sempre uma bomba rel\u00f3gio. Mas, voltando para a linha do tempo, eu tive que resolver todas minhas quest\u00f5es nesse caldeir\u00e3o interno que cada uma de n\u00f3s tem. Como diz Elisa Lucinda:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cT\u00e1 acostumada a viver por dentro,&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Transforma fato em elemento<\/p>\n\n\n\n<p>A tudo refoga, ferve, frita<\/p>\n\n\n\n<p>E ainda sangra tudo no pr\u00f3ximo m\u00eas.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Peguei os elementos que fui conhecendo ao longo do tempo: feminismo, lesbianidade pol\u00edtica, amor, amizade, aceita\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3prio cinema brasileiro e misturei tudo aqui dentro. Deixei ferver, depois esfriar, e senti que ainda n\u00e3o estava pronta. Foi quando tentei contar para minha m\u00e3e por telefone, acreditando que meu empoderamento me protegeria. Saiu tudo meio torto, tudo no formato \u201cmas e se eu for\u201d ao inv\u00e9s de \u201cm\u00e3e, eu sou\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Faltava alguma coisa. Todo o conhecimento que eu tinha adquirido n\u00e3o eliminou meu medo, e ler Audre Lorde foi como estar \u00e0 deriva em alto mar e enxergar a torre de um farol piscando ao longe em uma ilha de compreens\u00e3o. Eu n\u00e3o sabia como chegar l\u00e1, entretanto, tinha certeza que era para onde eu deveria ir.&nbsp;Um de meus trechos favoritos de \u201cA Transforma\u00e7\u00e3o do Sil\u00eancio em Linguagem e A\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Questionar ou falar da maneira como eu acreditava poderia ter provocado dor, ou a morte. Mas todas n\u00f3s estamos sofrendo de tantas maneiras o tempo todo, e a dor tampouco tem diminu\u00eddo ou cessado. A morte, por outro lado, n\u00e3o \u00e9 mais do que o sil\u00eancio final. E ela talvez chegue r\u00e1pido, agora mesmo, antes que eu tenha dito o que preciso dizer. Ou enquanto eu traio a mim mesma pensando que algum dia falarei, ou esperando que outras o fa\u00e7am. (LORDE, 1977, p.1)<\/p>\n\n\n\n<p>Audre afirma que cada uma de n\u00f3s pode contornar os rostos de nossos pr\u00f3prios medos. Os meus t\u00eam faces de rejei\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia, e eles n\u00e3o diminu\u00edram ou cessaram por eu entender a homofobia como estrutura, me amar e aceitar por ser l\u00e9sbica, compreender que eu n\u00e3o sou um ser humano menos digno por isso. O erro estava a\u00ed: acreditar que empoderamento \u00e9 igual \u00e0 aus\u00eancia do medo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Audre me ensina a falar <em>apesar<\/em> do medo e minha voz \u00e9 o Cinema. Transformei meu sil\u00eancio em filme, e grav\u00e1-lo foi minha a\u00e7\u00e3o &#8211; que mais tarde mobilizou muitas outras. Sair do Arm\u00e1rio \u00e9 o primeiro de minha trilogia estreante no Cinema Brasileiro e \u00e9 tamb\u00e9m a prova de que, quando produzimos com o cora\u00e7\u00e3o, tocamos outros. Assim como Audre tocou o meu, assim como Sair do Arm\u00e1rio tocou o do Festival Taguatinga de Cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A trilogia \u00e9 seguida do meu curta experimental L\u00e9sbica (2018) e, por fim, o ficcional E o que a gente faz agora? (2019), que estar\u00e1 presente no FesTagu\u00e1 desse ano! Todos os tr\u00eas tratam da Lesbianidade, mas cada um focalizado em um aspecto da sexualidade: Sair do Arm\u00e1rio sendo o aspecto familiar, L\u00e9sbica, o aspecto pessoal, e o E o que a gente faz agora?, o aspecto amoroso.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00faltimo tem inspira\u00e7\u00e3o em um outro texto da Audre, mas isso eu deixo para contar pra voc\u00eas no debate do dia 15 de agosto, que farei com outros realizadores! Obrigada, Festival Taguatinga de Cinema, por todo o carinho, acolhimento, apoio e espa\u00e7o. Vida longa ao Cinema Brasileiro, vida longa ao Festival que mudou a minha vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">MARI<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Sair do Arm\u00e1rio, o filme de estreia de Marina Pontes, participa da Mostra Convida 2020 e pode ser visto at\u00e9 domingo, 28 de junho, aqui no site do festival.&nbsp;<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marina Pontes O t\u00edtulo \u00e9 uma interfer\u00eancia minha no texto \u201cA Transforma\u00e7\u00e3o do Sil\u00eancio em Linguagem e A\u00e7\u00e3o\u201d, da escritora Audre Lorde, proferido por ela em 1977, no painel \u201cL\u00e9sbicas e Literatura\u201d da Associa\u00e7\u00e3o de L\u00ednguas Modernas, e publicado em v\u00e1rios livros da autora. 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