{"id":1809,"date":"2018-06-13T11:32:03","date_gmt":"2018-06-13T14:32:03","guid":{"rendered":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/?p=1809"},"modified":"2018-06-19T15:06:28","modified_gmt":"2018-06-19T18:06:28","slug":"em-tempos-de-crise-toda-acao-pode-ser-um-ato-politico-artigo-de-thay-limeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/em-tempos-de-crise-toda-acao-pode-ser-um-ato-politico-artigo-de-thay-limeira\/","title":{"rendered":"Em tempos de crise, toda a\u00e7\u00e3o pode ser um ato pol\u00edtico &#8211; Artigo de Thay Limeira"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u201cO papel do artista \u00e9 refletir seu tempo. Eu escolhi refletir os tempos<br \/>\ne as situa\u00e7\u00f5es <\/em><em>nas quais eu me encontro, para mim \u00e9 um dever<br \/>\ne nesse tempo crucial em nossas vidas, quando tudo parece<br \/>\ndesesperador, quando todo dia \u00e9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia&#8230;<br \/>\nEu acho que \u00e9 imposs\u00edvel voc\u00ea n\u00e3o se envolver&#8230; \u201c<br \/>\n(Nina Simone)<\/em><\/h6>\n<p>Olho para essa fala da Nina Simone e a percebo t\u00e3o atual, tem um frescor de uma gera\u00e7\u00e3o que perpassa seu recado a outra\u2026 gera\u00e7\u00f5es que parecem se conectar com causas hist\u00f3ricas semelhantes, parecem compartilhar as mesmas frustra\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, os mesmos desejos de liberdade e justi\u00e7a, com uma for\u00e7a de erguer o punho cerrado e ir pra luta. A\u00ed me pergunto, em momentos em que a esperan\u00e7a parece nos faltar e a ang\u00fastia de um tempo incerto aparenta nos sufocar, qual a forma que damos \u00e0s nossas cria\u00e7\u00f5es? At\u00e9 que ponto, transformamos o que criamos em reflexos cr\u00edticos do que vivemos?<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa se limitar a padr\u00f5es pr\u00e9-estabelecidos, \u00e9 fluida em forma e em significados. O processo criativo n\u00e3o se limita ao ser artista, pois qualquer um, meros mortais, tem sua pot\u00eancia criativa no que esculpimos como trabalho. No entanto, creio que o labor que se identifica com a necessidade de colocar pra fora um desejo inquieto vem a se transformar em arte. \u00c9 por essas lentes que vejo o cinema brotando da cria\u00e7\u00e3o para a tela, como uma fa\u00edsca de luz que atravessa o realizador at\u00e9 chegar ao espectador. \u00c9 poderosa essa rela\u00e7\u00e3o entre filme e espectador, quando o filme (cria\u00e7\u00e3o) coloca o espectador diante de um momento, de um tempo, de uma experi\u00eancia latejante de um corpo projetado na tela, que afeta aquele que o experi\u00eancia e o compartilha (o p\u00fablico). Nesse processo de ser afetado pela obra, o espectador se desloca no tempo e nas formas de olhar o que est\u00e1 em volta, fazendo-o repensar os variados mundos: os de dentro e os de fora.<\/p>\n<p>Em curtas como <em><a href=\"https:\/\/vimeo.com\/232282418\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Na miss\u00e3o com Kadu<\/a>\u00a0<\/em>(2016), <em>Peripat\u00e9ticos<\/em> (2017) e\u00a0<a href=\"https:\/\/vimeo.com\/229603022\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Tentei<\/em><\/a> (2017), n\u00e3o h\u00e1 como negar os inc\u00f4modos que se reproduzem na vida real. S\u00e3o filmes que exp\u00f5e conflitos morais e pol\u00edticos, que denunciam diversas formas de viol\u00eancia e desigualdade. Em <em>Na miss\u00e3o\u2026<\/em>, Kadu nos conduz por uma c\u00e2mera na m\u00e3o a vivenciar um dos maiores conflitos fundi\u00e1rios urbano da Am\u00e9rica Latina. Como n\u00e3o se sensibilizar com o desespero de Kadu, correndo com uma crian\u00e7a em suas m\u00e3os, fugindo de balas e bombas, atacados pela pol\u00edcia militar? Como n\u00e3o sentir a raiva da injusti\u00e7a em seu desabafo diante da c\u00e2mera?<\/p>\n<div id=\"attachment_1814\" style=\"width: 790px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Dirigido-por-jovem-negra-de-periferia-Peripat\u00e9tico-tem-sess\u00e3o-de-lan\u00e7amento-em-SP.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1814\" class=\"size-full wp-image-1814\" src=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Dirigido-por-jovem-negra-de-periferia-Peripat\u00e9tico-tem-sess\u00e3o-de-lan\u00e7amento-em-SP.jpg\" alt=\"\" width=\"780\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Dirigido-por-jovem-negra-de-periferia-Peripat\u00e9tico-tem-sess\u00e3o-de-lan\u00e7amento-em-SP.jpg 780w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Dirigido-por-jovem-negra-de-periferia-Peripat\u00e9tico-tem-sess\u00e3o-de-lan\u00e7amento-em-SP-300x169.jpg 300w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Dirigido-por-jovem-negra-de-periferia-Peripat\u00e9tico-tem-sess\u00e3o-de-lan\u00e7amento-em-SP-768x433.jpg 768w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Dirigido-por-jovem-negra-de-periferia-Peripat\u00e9tico-tem-sess\u00e3o-de-lan\u00e7amento-em-SP-600x338.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 780px) 100vw, 780px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1814\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena do curta Peripat\u00e9tico. Dira\u00e7\u00e3o: J\u00e9ssica Queiroz<\/em><\/p><\/div>\n<p>J\u00e1 em <em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=XVVRC01Yqjg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Peripat\u00e9tico<\/a>,<\/em> tr\u00eas jovens amigos, moradores da periferia de S\u00e3o Paulo, enfrentam os primeiros desafios da vida adulta: a busca por um emprego, a entrada na faculdade, um futuro em aberto\u2026 A luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o social e racial \u00e9 vis\u00edvel em seus cotidianos, e se agrava quando um conflito armado na periferia que moram leva a morte um dos amigos. Como sair ileso de uma realidade onde jovens inocentes s\u00e3o assassinados, v\u00edtimas de uma viol\u00eancia gerada pela desigualdade que o cercam? E o que falar de <em>Tentei,<\/em> que retrata a tentativa de uma mulher em denunciar o marido por viol\u00eancia dom\u00e9stica. O medo de se expor, a frieza do agente ao interrog\u00e1-la, o desespero de voltar para casa\u2026 Como n\u00e3o se questionar sobre essa realidade, mesmo percebendo-a t\u00e3o pr\u00f3xima?<\/p>\n<p>O cinema engajado em retratar os conflitos do nosso tempo tamb\u00e9m empodera protagonistas. Nos curtas document\u00e1rios <em>Toda noite, estarei l\u00e1<\/em> (2017) e <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8_zxJiii-Ls\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Cabelo Bom<\/em><\/a> (2017), a resist\u00eancia \u00e9 existir. Em<em> Toda noite, estarei l\u00e1<\/em>, a transexual Mel Ros\u00e1rio, luta contra a intoler\u00e2ncia e pelo direito de vivenciar sua f\u00e9 na igreja, de onde foi expulsa por sua condi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. J\u00e1 em <em>Cabelo Bom<\/em>, mulheres negras mostram o empoderamento dos desses corpos pol\u00edticos pela reafirma\u00e7\u00e3o da est\u00e9tica negra. Esses filmes destacam seus pap\u00e9is pol\u00edticos em dar a luz a realidades invisibilizadas e violentas, ao mesmo tempo em que libertam gritos calados e os transformam em vozes de (R)Exist\u00eancia.<\/p>\n<div id=\"attachment_1836\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/WhatsApp-Image-2018-06-13-at-12.04.39.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1836\" class=\"wp-image-1836 size-full\" src=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/WhatsApp-Image-2018-06-13-at-12.04.39.jpeg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/WhatsApp-Image-2018-06-13-at-12.04.39.jpeg 640w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/WhatsApp-Image-2018-06-13-at-12.04.39-300x225.jpeg 300w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/WhatsApp-Image-2018-06-13-at-12.04.39-600x450.jpeg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1836\" class=\"wp-caption-text\"><em>Toda noite, estarei l\u00e1. Dire\u00e7\u00e3o Thiago: Moulin<\/em><\/p><\/div>\n<p>Se tratando de produ\u00e7\u00f5es independentes, autorais e no formato de curta-metragem, como no caso desses filmes, os festivais e mostras de cinema s\u00e3o considerados o ponto de partida na carreira das obras. S\u00e3o espa\u00e7os que tem esse car\u00e1ter de lan\u00e7ar, circular e legitimar a carreira dos filmes, acolhendo muitas vezes o primeiro encontro da obra com o p\u00fablico. Al\u00e9m disso, tem a capacidade de reunir um p\u00fablico amplo e diverso em suas dimens\u00f5es culturais e de mediar as experi\u00eancias iniciais entre os filmes e os espectadores.<\/p>\n<p>Essas janelas tem um importante papel na forma\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, no que tange \u00e0 sensibiliza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica por meio da ludicidade do cinema. Mas pergunto, que tipo de experi\u00eancias os festivais est\u00e3o proporcionando ao p\u00fablico? Est\u00e3o comprometidos com a forma\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de seus espectadores? Ser\u00e1 que de fato pensam na sua contribui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e humana? Essas quest\u00f5es particularmente me inquietam, pois vejo que a responsabilidade desses espa\u00e7os se aproxima de agentes multiplicadores de conhecimento e informa\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m de dar visibilidade a uma cinematografia que atenda uma expectativa cin\u00e9fila. Deixo em aberto essas quest\u00f5es para que se mantenham vivas como uma b\u00fassola que norteia as dire\u00e7\u00f5es no pensar e no fazer cinema.<\/p>\n<p>Considero que precisa-se cada vez mais de janelas, obras e espectadores que tenha a disposi\u00e7\u00e3o de se envolver com o todo, que exponham coragem de partilhar suas viv\u00eancias e reflex\u00f5es de mundo, se colocando sens\u00edveis a olhar o que est\u00e1 por tr\u00e1s da est\u00e9tica e do entretenimento. Em tempos de crise, toda a\u00e7\u00e3o pode ser um ato pol\u00edtico.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><i><a href=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Thay-2018_corte.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-1813\" src=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Thay-2018_corte.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Thay-2018_corte.jpg 376w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Thay-2018_corte-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>Thay Limeira \u00e9 pernambucana, produtora cultural e curadora com experi\u00eancia cineclubista e forma\u00e7\u00e3o em Antropologia pela Universidade Bras\u00edlia. Realizou a produ\u00e7\u00e3o de diversas mostras e festivais de destaque, como o Curta Bras\u00edlia &#8211; Festival Internacional de Curta-Metragem de Bras\u00edlia, Cinefoot &#8211; Festival de Cinema e Futebol e InterAnima &#8211; Festival de Anima\u00e7\u00e3o e Interatividade. Como curadora, integrou a curadoria do Festival Curta Bras\u00edlia, Festival de Curta-metragem das Escolas P\u00fablicas, Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro e Mostra Canavial de Cinema.<br \/>\n<\/i><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO papel do artista \u00e9 refletir seu tempo. 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