{"id":1783,"date":"2018-05-30T11:34:37","date_gmt":"2018-05-30T14:34:37","guid":{"rendered":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/?p=1783"},"modified":"2018-05-30T18:39:12","modified_gmt":"2018-05-30T21:39:12","slug":"entrevista_joelzito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/entrevista_joelzito\/","title":{"rendered":"&#8220;A diversidade encurrala as narrativas euroc\u00eantricas hegem\u00f4nicas e as narrativas negras fazem parte desse movimento global&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Nascido em Nanuque, na fronteira entre Bahia e Minas, Joel Zito Ara\u00fajo \u00e9 um importante cineasta e pesquisador negro brasileiro. Professor e premiado realizador audiovisual mineiro, ou baianeiro (como tamb\u00e9m gosta de ser chamado), dirige filmes sobre quest\u00f5es diasp\u00f3ricas da pessoa negra no Brasil.<\/p>\n<p>Das suas obras, em 2001, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=PrrR2jgSf9M\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>A Nega\u00e7\u00e3o do Brasil<\/em> <\/a>foi premiado como melhor filme no Festival Internacional de Document\u00e1rios \u00c9 Tudo Verdade (It\u2019s all true) e como melhor roteiro no Festival de Recife; a fic\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=RPypCoawH4o\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>As Filhas do Vento<\/em><\/a> (2005) recebeu 8 kikitos no Festival de Gramado e o document\u00e1rio <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6BZG-6heFXw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Cinderelas, lobos e um pr\u00edncipe encantado<\/em><\/a> (2009) recebeu, pela vota\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, pr\u00eamios de melhor filme e melhor diretor na 9\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival Iberoamericano de Cinema de Sergipe. Seu \u00faltimo filme chama-se<em> Ra\u00e7a<\/em> (2013), narrativa que desnuda a democracia racial no Brasil.<\/p>\n<div id=\"attachment_1784\" style=\"width: 442px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/JOEL-ZITO-by-Sumaya-Lima.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1784\" class=\"size-full wp-image-1784\" src=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/JOEL-ZITO-by-Sumaya-Lima.jpg\" alt=\"\" width=\"432\" height=\"439\" srcset=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/JOEL-ZITO-by-Sumaya-Lima.jpg 432w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/JOEL-ZITO-by-Sumaya-Lima-295x300.jpg 295w\" sizes=\"auto, (max-width: 432px) 100vw, 432px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1784\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Sumaya Lima<\/p><\/div><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nO cineasta realiza filmes que v\u00e3o para o embate. Desconstroem imagens do eurocentrismo constru\u00eddas pela grande m\u00eddia sobre a pessoa negra no pa\u00eds e aprofunda em suas hist\u00f3rias. Seu trabalho caminha na afirma\u00e7\u00e3o de uma diversidade que enfrenta padr\u00f5es. Dialogam com um fen\u00f4meno social de revolu\u00e7\u00e3o, viabilidade e visibilidade de outras vozes no cinema e na comunica\u00e7\u00e3o no mundo todo.<\/p>\n<p>Joel Zito tamb\u00e9m \u00e9 doutor em ci\u00eancias da comunica\u00e7\u00e3o pela Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 ECA\/USP e fez p\u00f3s-doutorado no departamento de r\u00e1dio, TV e cinema e no departamento de antropologia da University of Texas, em Austin, nos Estados Unidos. Pesquisador ativo, tamb\u00e9m j\u00e1 publicou os livros <em>A Nega\u00e7\u00e3o do Brasil \u2013 o negro na telenovela brasileira<\/em> (2001) e<em> O negro na TV p\u00fablica<\/em> (2010). Em meio a tantos movimentos desse cineasta, conseguimos uma pequena entrevista com ele para conversarmos um pouco sobre identidade e cinema negro. Confira!<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n<strong>Festagu\u00e1: Em 13 de maio, completamos 130 anos da Lei \u00c1urea, sem repara\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, com abandono e marginaliza\u00e7\u00e3o do povo negro no Brasil. Promover narrativas negras \u00e9 intervir nesse cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 exatamente isso! N\u00f3s s\u00f3 vamos poder superar essas desigualdades a medida em que aqueles que est\u00e3o sob condi\u00e7\u00f5es de risco tiverem direitos e constru\u00edrem suas narrativas, possu\u00edrem escolhas e fazerem parte desse momento da hist\u00f3ria da humanidade, em que s\u00e3o muitos o meios de desabitua\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas. Ent\u00e3o isso \u00e9 fundamental. Sem essa possibilidade, voc\u00ea n\u00e3o tem como mudar o cen\u00e1rio de desigualdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n<strong>Festagu\u00e1: Qual \u00e9 o papel do audiovisual na afirma\u00e7\u00e3o das identidades afro brasileiras?<\/strong><\/p>\n<p>O audiovisual \u00e9 centrado na afirma\u00e7\u00e3o, na valoriza\u00e7\u00e3o ou na imposi\u00e7\u00e3o da identidade. Todo audiovisual \u00e9 assim. Se voc\u00ea pegar como exemplo o cinema de RKO (Radio Pictures) dos anos 50, estavam vendendo l\u00e1 o modo de vida americano, estavam vendendo os valores dos Estados Unidos, da terra de oportunidades, o tipo de vida da classe m\u00e9dia branca norte-americana. Na \u00e9poca, vendiam as geladeiras, os autom\u00f3veis, a Coca-cola. Vendiam tamb\u00e9m a est\u00e9tica identit\u00e1ria, em que os bonitinhos eram brancos, de olhos claros. Ent\u00e3o o cinema n\u00e3o tem como escapar da valoriza\u00e7\u00e3o de algum tipo de identidade.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a agora \u00e9 que a gente chegou em um ponto em que aqueles, o Norte, a parte da popula\u00e7\u00e3o que impunha sua identidade e seus valores &#8211; de que eles fossem mais humanos, como se os outros fossem n\u00e3o civilizados, distantes de um autopadr\u00e3o est\u00e9tico de beleza e valores -, est\u00e3o sendo questionados. Isso mostra o quanto \u00e9 ideol\u00f3gico esse tipo de vis\u00e3o: tomar o branco, tomar a cultura ocidental como o evento humano e os outros como n\u00e3o humanos. Os outros como humanos atrasados, ou humanos feios.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, neste momento, vemos um cinema da diversidade, que reafirma hist\u00f3rias puramente humanas de amor, \u00f3dio, ang\u00fastias, prazeres e alegrias em todos os lugares. Hoje temos um cen\u00e1rio do cinema mundial no qual voc\u00ea ver\u00e1 filmes sobre a hist\u00f3ria de guerra da Mong\u00f3lia. Voc\u00ea ver\u00e1 uma s\u00e9rie de amor da Cor\u00e9ia ou a hist\u00f3ria de pai com filho na \u00c1frica&#8230; Essa caracter\u00edstica de hoje \u00e9 que contextualiza todo esse momento. A diversidade encurrala as narrativas euroc\u00eantricas hegem\u00f4nicas e as narrativas negras fazem parte desse movimento global, em que o negro est\u00e1 consciente que ao longo da hist\u00f3ria ele foi uma pe\u00e7a fundamental da acumula\u00e7\u00e3o do capital, do crescimento do ocidente. O negro sabe que, para isso, ele foi transformado em enfeite, animal domesticado, cristianizado, escravizado. Neste momento, temos uma rebeli\u00e3o da afirma\u00e7\u00e3o do negro como ser humano e isso \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/DenyingBrazil_Feb2004.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1786 aligncenter\" src=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/DenyingBrazil_Feb2004.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"318\" srcset=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/DenyingBrazil_Feb2004.jpg 740w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/DenyingBrazil_Feb2004-300x191.jpg 300w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/DenyingBrazil_Feb2004-600x381.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>Festagu\u00e1: Por que a cria\u00e7\u00e3o e a experi\u00eancia est\u00e9tica cinematogr\u00e1fica pela e sobre a popula\u00e7\u00e3o negra s\u00e3o indissoci\u00e1veis de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p>Se a gente for somente objeto dos outros n\u00e3o teremos possibilidade de mudan\u00e7a, n\u00e9? Mudan\u00e7a pol\u00edtica. Ent\u00e3o n\u00e3o estamos s\u00f3 reclamando para que os outros nos incorporem em suas produ\u00e7\u00f5es, certo? Precisamos tamb\u00e9m da nossa autonomia para realizar as nossas produ\u00e7\u00f5es. N\u00f3s queremos fazer, n\u00e3o s\u00f3 participar das produ\u00e7\u00f5es dos outros. A a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que queremos hoje \u00e9 por essa capacidade de fazer. N\u00e3o s\u00f3 de ter um determinado n\u00famero de atores na Globo. Queremos autonomia de fazer, criar, dirigir os nossos filmes, s\u00e9ries de TV&#8230;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong><br \/>\nFestagu\u00e1: E como o senhor avalia esses espa\u00e7os no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos conquistando levemente essa democracia. Eu mesmo, por exemplo, sou curador do Festival de Cinema Negro Z\u00f3zimo Bulbul Brasil, \u00c1frica e Caribe. A cada ano, a cada edi\u00e7\u00e3o do festival, aumenta exponencialmente o n\u00famero de inscri\u00e7\u00f5es. Neste ano, por exemplo, temos 180 novos estilos de diretores e diretoras negras de curtas, m\u00e9dios e longas. Ano passado, foram de 107. Anteriormente 56. Ent\u00e3o, de um ano para o outro dobrou e agora cresceu mais 50%, \u00e9 um aumento incr\u00edvel. O que eu observo \u00e9 que a maior parte dessas produ\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas com recursos pr\u00f3prios, com pouca ajuda do Estado e de editais. S\u00e3o realizados por crowdfunding, sabe, s\u00e3o meios associativos e aut\u00f4nomos para poderem assegurar isso. Isso ainda \u00e9 um problema, mas \u00e9 um problema que n\u00e3o desestimula, pelo contr\u00e1rio. Essa nova gera\u00e7\u00e3o tem uma garra incr\u00edvel.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong><br \/>\nFestagu\u00e1: O senhor pode falar mais dos desafios do cinema negro no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>O desafio fundamental que est\u00e1 posto \u00e9 de ter acesso de forma democr\u00e1tica aos recursos existentes para fazermos cinema e audiovisual no pa\u00eds. \u00c9 de ter os mesmos direitos, os mesmos acessos, pois essa nova gera\u00e7\u00e3o e a gera\u00e7\u00e3o anterior tamb\u00e9m tem dificuldade de alcan\u00e7ar recursos. Eu. por exemplo. Meu \u00faltimo filme foi lan\u00e7ado em 2012, o Ra\u00e7a. Estou h\u00e1 seis anos sem lan\u00e7ar um filme, considerando que sou um cara super produtivo e bem avaliado, premiado. Todos n\u00f3s temos essa dificuldade de produ\u00e7\u00e3o. O racismo institucional e o racismo cultural atrapalham os nossos acessos. N\u00e3o estou falando de forma po\u00e9tica ou rom\u00e2ntica. Ano passado, eu fui do j\u00fari de um festival afirmativo e a quantidade de bons roteiros foi grande, n\u00f3s selecionamos tr\u00eas. Havia uns 12 muito bons, no meio de 70 e tantos, e havia outros que s\u00f3 precisavam trabalhar mais um pouco. Enfim, n\u00e3o estou falando de uma situa\u00e7\u00e3o hipot\u00e9tica, estou falando que temos bons roteiristas, jovens criativos e diretores negros que precisam de oportunidades para atuarem. Vejo v\u00e1rias produtoras se preocupando com a forma\u00e7\u00e3o, com a incorpora\u00e7\u00e3o desses jovens, mas ainda s\u00e3o minoria.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\">Por Webert da Cruz \u2013 jornalista e fot\u00f3grafo do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.gunga.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Est\u00fadio Gunga<\/a><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nascido em Nanuque, na fronteira entre Bahia e Minas, Joel Zito Ara\u00fajo \u00e9 um importante cineasta e pesquisador negro brasileiro. Professor e premiado realizador audiovisual mineiro, ou baianeiro (como tamb\u00e9m gosta de ser chamado), dirige filmes sobre quest\u00f5es diasp\u00f3ricas da pessoa negra no Brasil. 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