{"id":1742,"date":"2018-04-27T14:27:08","date_gmt":"2018-04-27T17:27:08","guid":{"rendered":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/?p=1742"},"modified":"2018-04-27T16:11:08","modified_gmt":"2018-04-27T19:11:08","slug":"entrevista-audiovisual-quebradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/entrevista-audiovisual-quebradas\/","title":{"rendered":"&#8220;O audiovisual feito na e pela periferia est\u00e1 posicionado em um campo de batalha cultural permanente&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 n\u00edtido que a produ\u00e7\u00e3o audiovisual no pa\u00eds ocupa espa\u00e7os bem mais profundos que o viciado mercado e a ind\u00fastria cultural. Ela tamb\u00e9m se apresenta como ferramenta pol\u00edtica de resist\u00eancia e transforma\u00e7\u00e3o social na vida de diversas comunidades. Para entendermos um pouco mais desse movimento de narrativas populares e suas interven\u00e7\u00f5es na realidade de um Brasil profundo, entrevistamos o pesquisador Wilq Vicente.<\/p>\n<p>Wilq \u00e9 mestre em Estudos Culturais pela Escola de Artes, Ci\u00eancias e Humanidades (EACH) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). \u00c9 pesquisador de v\u00eddeo, curador de mostras de cinema popular e organizador do livro: <a href=\"https:\/\/issuu.com\/cinusppauloemilio3\/docs\/quebrada_-_ok\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Quebrada? Cinema, V\u00eddeo e Lutas Sociais<\/em><\/a>. <a href=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/WilqVicente.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1743 aligncenter\" src=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/WilqVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/WilqVicente.jpg 1600w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/WilqVicente-300x225.jpg 300w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/WilqVicente-768x576.jpg 768w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/WilqVicente-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/WilqVicente-600x450.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>Festival: Que espa\u00e7os, al\u00e9m do cinema mercadol\u00f3gico e ind\u00fastria cultural, o audiovisual ocupa atualmente?<\/strong><\/p>\n<p>Um dos desafios para se pensar os processos culturais na atualidade diz respeito ao entendimento de que existe uma efervesc\u00eancia cultural in\u00e9dita que nas \u00faltimas d\u00e9cadas redefine o lugar do fazer art\u00edstico e cultural na cartografia brasileira. Acompanhando as mudan\u00e7as verificadas na estrutura social brasileira, como a redu\u00e7\u00e3o da extrema pobreza, a amplia\u00e7\u00e3o da classe C, entre outros, parece haver tamb\u00e9m mudan\u00e7as estruturais no que tange ao consumo e produ\u00e7\u00e3o cultural. Isso implica na amplia\u00e7\u00e3o, no reconhecimento e na maior visibilidade da apropria\u00e7\u00e3o dos mecanismos de realiza\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o audiovisual comunit\u00e1ria, popular e perif\u00e9rica, entre outros, pela popula\u00e7\u00e3o mais pobre do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Certamente, um movimento cultural consistente, insistente, diversificado e fragmentado, que vai ao encontro de iniciativas t\u00edmidas do poder p\u00fablico, do mercado e da sociedade civil organizada. N\u00e3o espanta que a produ\u00e7\u00e3o cultural da periferia tenha se tornado vis\u00edvel ao mesmo tempo que surgiram representa\u00e7\u00f5es da periferia na televis\u00e3o e no cinema, na ind\u00fastria cultural de uma maneira geral. \u00c9 sintom\u00e1tico que a ind\u00fastria cultural tenha buscado dialogar com esse novo nicho, que representa a nova ordem social, onde o nacional popular e seu esfor\u00e7o de abarcar o todo da sociedade caminha para a incorpora\u00e7\u00e3o da cultura popular perif\u00e9rica, a nova classe m\u00e9dia e sua promessa de um pa\u00eds com menos pobreza, de um pa\u00eds em desenvolvimento.<\/p>\n<p>Essas novas manifesta\u00e7\u00f5es podem ser identificadas, em especial, por meio de novos atores sociais, movimentos culturais que partem da periferia dos grandes centros urbanos, em pequenas comunidades populares, e que lutam pela amplia\u00e7\u00e3o de suas representatividades. De modo geral, os realizadores assumem uma trajet\u00f3ria comum: emitem a condi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da experi\u00eancia social e cotidiana.<\/p>\n<p>Parte fundamental da express\u00e3o dessa cultura \u00e9 o audiovisual como instrumento de mudan\u00e7a territorial na cidade, como instrumento de cria\u00e7\u00e3o de redes de interlocu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e cultural, por vezes articulando uma postura de luta de classes, por vezes buscando uma inser\u00e7\u00e3o ainda que marginal em um ainda restrito mercado cultural, tens\u00e3o permanente nas disputas desse campo. Hoje o audiovisual \u00e9 visto cada vez mais como um setor que n\u00e3o est\u00e1 restrito ao dito cinema mercadol\u00f3gico e \u00e0 ind\u00fastria cultural, e tamb\u00e9m como uma ferramenta no interior de a\u00e7\u00f5es culturais e sociais. Algumas a\u00e7\u00f5es pontuais buscaram contemplar esse setor do audiovisual nos \u00faltimos anos, reconhecendo o papel formativo, social e de cidadania que exerce e visando o est\u00edmulo \u00e0 \u201cdiversidade cultural\u201d em boa parte do Brasil. Isto eu considero um ganho.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>Festival: Por que a cria\u00e7\u00e3o e a experi\u00eancia est\u00e9tica de v\u00eddeos pela e sobre a periferia s\u00e3o indissoci\u00e1veis de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica? Qual a import\u00e2ncia dos projetos de capacita\u00e7\u00e3o em audiovisual nas quebradas? Cite alguns.<\/strong><\/p>\n<p>A emerg\u00eancia de novos artistas e coletivos de produ\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o cultural nas periferias introduz no cen\u00e1rio cultural um novo componente de disputa de significados e tamb\u00e9m de recursos e espa\u00e7os. Obviamente essa disputa ainda se d\u00e1 de maneira completamente desigual, reflexo de uma sociedade desigual. Com uma produ\u00e7\u00e3o ainda incipiente, mas que tem tomado cada vez mais f\u00f4lego, estes novos produtores culturais buscam se apropriar de meios, ferramentas e conhecimentos que at\u00e9 ent\u00e3o lhes foram negados. \u00c9 poss\u00edvel notar que tanto o Estado quanto o mercado est\u00e3o buscando fornecer respostas a este novo cen\u00e1rio, gerando uma tens\u00e3o entre o fomento e a apropria\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes atrav\u00e9s de pol\u00edticas de car\u00e1ter estruturante, \u00e0s vezes atrav\u00e9s de medidas aqu\u00e9m da necessidade ou de pouca efetividade.<\/p>\n<p>Seria a produ\u00e7\u00e3o de audiovisual capaz de articular um discurso contra-hegem\u00f4nico, que efetivamente traduz os interesses das periferias? Ou esta produ\u00e7\u00e3o se enquadraria na ideologia dominante, que incorporou elementos dos interesses do povo, parecendo ent\u00e3o represent\u00e1-lo de uma maneira geral? O audiovisual feito na e pela periferia est\u00e1 posicionado em um campo de batalha cultural permanente, onde distintas alian\u00e7as e for\u00e7as se colocam para dar significados e respostas.<\/p>\n<p>Neste aspecto, o audiovisual perif\u00e9rico surge como uma pr\u00e1tica social que em sua forma se desenvolve atrav\u00e9s da arte e exerc\u00edcio da linguagem. De toda forma, a ideia de &#8220;nossa realidade representada por n\u00f3s mesmos&#8221; se coloca o tempo todo como pauta da a\u00e7\u00e3o, apontando sobretudo para uma disputa cultural por representatividade. Almeja, sobretudo, vocalizar suas vis\u00f5es de mundo e experi\u00eancias de vida atrav\u00e9s de um meio de express\u00e3o interpretado como fundamentalmente art\u00edstico e n\u00e3o somente no campo da comunica\u00e7\u00e3o. Assim, diferentes formas de produ\u00e7\u00e3o, at\u00e9 v\u00eddeos realizados a partir de um olhar externo sobre as a\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es, concebidos por realizadores independentes, s\u00e3o bem aceitos. Esse diferencial decorre do seu conte\u00fado, de v\u00ednculos que s\u00e3o estabelecidos com os bairros, territ\u00f3rios e movimentos abordados nas produ\u00e7\u00f5es. Mais ainda: trata-se de engajar a vontade de indiv\u00edduos e grupos em uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o que implica em torn\u00e1-los agentes de uma a\u00e7\u00e3o transformadora.<\/p>\n<p>Como se trata de um setor ainda em expans\u00e3o, de car\u00e1ter cada vez mais din\u00e2mico, acredito que a atua\u00e7\u00e3o neste campo da cultura demanda um permanente aprimoramento e qualifica\u00e7\u00e3o dos saberes e pr\u00e1ticas, um processo formativo e reflexivo continuado. Projetos de forma\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o em audiovisual nas quebradas contribuem para a amplia\u00e7\u00e3o das oportunidades de conhecimento, capacitam jovens no setor e promovem o fortalecimento e a difus\u00e3o de novas narrativas e vozes. Diversas iniciativas de forma\u00e7\u00e3o, ligadas aos grupos e coletivos perif\u00e9ricos e arranjos variados em ONGs e outras institui\u00e7\u00f5es atuam neste sentido.<\/p>\n<p>Alguns projetos podem ainda vir a contribuir para a cadeia produtiva ligada \u00e0s artes e \u00e0 cultura em arranjos produtivos formais e n\u00e3o formais, no \u00e2mbito do Estado e nas institui\u00e7\u00f5es, no contexto da economia da cultura e da ind\u00fastria cultural, como tamb\u00e9m na economia de base solid\u00e1ria. Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, a SPcine desenvolveu o projeto \u201cSampa Cine Tec: Audiovisual, Cinema e Tecnologia\u201d, que contemplou iniciativas de inclus\u00e3o audiovisual, empreendedorismo criativo, associativismo, cooperativismo e atua\u00e7\u00e3o de redes na cidade. Com foco na periferia, priorizando a forma\u00e7\u00e3o e a capacita\u00e7\u00e3o na \u00e1rea do audiovisual.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>Festival: Como \u00e9 o processo de forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico para o cinema independente nas periferias?<\/strong><\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico \u00e9 um problema no audiovisual brasileiro como um todo, principalmente o realizado nas periferias. Os espa\u00e7os de exibi\u00e7\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica s\u00e3o, em geral, bem limitados, pois se resumem frequentemente a sess\u00f5es em cineclubes e ONGs, havendo, portanto, uma distribui\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o bastante restrita. S\u00e3o poucos ainda os filmes que conseguem entrar em festivais e que tamb\u00e9m dialogam com um p\u00fablico bastante espec\u00edfico.<\/p>\n<p>Em anos recentes, o Coletivo de V\u00eddeo Popular de S\u00e3o Paulo articulou, conjuntamente com o poder p\u00fablico municipal, um &#8220;Circuito de Exibi\u00e7\u00e3o de V\u00eddeos Populares&#8221; com programa\u00e7\u00e3o regular em cineclubes ligados a grupos culturais, ONGs, al\u00e9m de programa\u00e7\u00e3o mensal na Sala Cine Olido, equipamento cultural no centro da cidade. O Coletivo tamb\u00e9m manteve programa na Rede TVT, a\u00e7\u00e3o que durou at\u00e9 meados de 2012. Foram projetos que buscavam sobretudo viabilizar a distribui\u00e7\u00e3o e exibi\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, fortalecendo redes existentes e abrindo espa\u00e7o para o di\u00e1logo com novos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>S\u00e3o projetos que, apesar do vigor moment\u00e2neo, n\u00e3o tiveram sustentabilidade. Se por um lado \u00e9 poss\u00edvel ver um recrudescimento recente de espa\u00e7os de exibi\u00e7\u00e3o alternativos, como o Circuito, por outro lado \u00e9 poss\u00edvel notar, por parte do poder p\u00fablico, certa preocupa\u00e7\u00e3o com a exibi\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o independente, ao menos na cidade de S\u00e3o Paulo. Em 2016, por exemplo, foi criado uma rede de salas de cinema pela prefeitura, com 20 espa\u00e7os, com o intuito de forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico, sobretudo nos bairros perif\u00e9ricos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m as pol\u00edticas p\u00fablicas de forma\u00e7\u00e3o cultural e experimenta\u00e7\u00e3o art\u00edstica s\u00e3o fundamentais no processo de despertar o interesse para o cinema e fomentar o h\u00e1bito cultural da popula\u00e7\u00e3o. Certamente, uma forma de tentar superar o &#8220;gargalo&#8221; da exibi\u00e7\u00e3o \u00e9 articular parcerias necess\u00e1rias e poss\u00edveis com institui\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m acho fundamental que os realizadores de audiovisual pensem em espa\u00e7os e atividades alternativos de exibi\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m de festivais e das salas tradicionais.<\/p>\n<div id=\"attachment_1744\" style=\"width: 780px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cropped-arte.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1744\" class=\"wp-image-1744 size-full\" src=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cropped-arte.jpg\" alt=\"\" width=\"770\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cropped-arte.jpg 770w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cropped-arte-300x78.jpg 300w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cropped-arte-768x199.jpg 768w, https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/cropped-arte-600x156.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 770px) 100vw, 770px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1744\" class=\"wp-caption-text\">Arte do site <a href=\"https:\/\/videopopular.wordpress.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Coletivo V\u00eddeo Popular<\/a><\/p><\/div><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>Festival: Vivemos um momento hist\u00f3rico de muita aridez em diversas perspectivas da vida social e pol\u00edtica do pa\u00eds. Como narrativas audiovisuais se tornam ferramentas de luta, resist\u00eancia e transforma\u00e7\u00e3o dessa realidade?<\/strong><\/p>\n<p>Um cen\u00e1rio preocupante est\u00e1 colocado para todo setor cultural e as lutas sociais como um todo, e \u00e9 preciso enfrent\u00e1-los \u00e0 altura dos desafios lan\u00e7ados. O fim de alguns programas sociais e culturais acende um sinal vermelho para quem pensa a cultura para al\u00e9m de um mero reflexo da realidade. A cultura est\u00e1 investida de um papel estrat\u00e9gico, no sentido da constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds socialmente mais justo. Em outras palavras: o golpe parlamentar de 2016 apresentou-se como uma volta do que hav\u00edamos relegado h\u00e1 pelo menos 30 anos atr\u00e1s: censura, cortes nas pol\u00edticas sociais, fortalecimento de um discurso conservador, entre outros.<\/p>\n<p>Nota-se que ao longo da hist\u00f3ria brasileira o audiovisual, de maneira geral, desempenhou um importante papel de registro e difus\u00e3o das lutas sociais, da mem\u00f3ria e do imagin\u00e1rio popular ausentes dos meios hegem\u00f4nicos. O audiovisual esteve sempre presente em ambientes de resist\u00eancia pol\u00edtica e cultural. A arte \u00e9 justamente uma das formas de vislumbrar realidades que parecem imposs\u00edveis, experimentar e testar novas narrativas, que s\u00e3o ao mesmo tempo est\u00e9ticas e pol\u00edticas. E o audiovisual \u00e9, ainda, uma importante ferramenta de comunicar e difundir estas novas perspectivas, abordando aspectos da realidade que a narrativa oficial e os discursos conservadores em voga buscam suprimir.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>Festival: Quais desafios a produ\u00e7\u00e3o de v\u00eddeo independente e popular enfrenta hoje no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>O Estado tem buscado conceber a intera\u00e7\u00e3o com os novos atores atrav\u00e9s da \u00f3tica da diversidade e da cidadania cultural, sendo o apoio atrav\u00e9s de editais uma das principais pol\u00edticas. Tamb\u00e9m algumas entidades culturais privadas sem fins lucrativos t\u00eam atuado nesta \u00f3tica, fomentando a produ\u00e7\u00e3o independente e popular principalmente atrav\u00e9s de suas linhas de programa\u00e7\u00e3o cultural. J\u00e1 o mercado vem buscando incorporar artistas, ainda que de maneira pontual, ou procurando incorporar essa \u201ccultura de periferia\u201d nas produ\u00e7\u00f5es culturais hegem\u00f4nicas, como se tem visto na TV, por exemplo. O que sugere a possibilidade de acomoda\u00e7\u00e3o da perspectiva da \u201ccultura da periferia\u201d no status quo.<\/p>\n<p>A sustentabilidade econ\u00f4mica da atividade cultural \u00e9 uma das grandes quest\u00f5es para a diversidade atualmente. As linhas de fomento n\u00e3o s\u00e3o capazes de atender ao cada vez maior conjunto de iniciativas art\u00edsticas e a grande maioria delas n\u00e3o se viabiliza no mercado. As grandes institui\u00e7\u00f5es e espa\u00e7os culturais tem se questionado cada vez mais do seu papel neste cen\u00e1rio. Como contribuir para o florescimento desta produ\u00e7\u00e3o constru\u00edda em grande parte \u00e0 revelia dos espa\u00e7os e institui\u00e7\u00f5es culturais tradicionais?<\/p>\n<p>Nota-se que tal discurso abre espa\u00e7o para uma nova ambiguidade, permitindo que distintas perspectivas muitas vezes apare\u00e7am aglutinadas dentro das mesmas denomina\u00e7\u00f5es, ainda que estejam dentro de um campo de grande tens\u00e3o. A produ\u00e7\u00e3o de v\u00eddeo recente pode, desta forma, dialogar por um lado com o discurso oficial do Estado, por outro com a sociedade civil na figura dos movimentos sociais e de cultura de hoje, mas tamb\u00e9m com as ONGs e com o mercado. Garantir a sobreviv\u00eancia, desenvolvimento e aprimoramento de iniciativas com independ\u00eancia art\u00edstica e vigor est\u00e9tico, se posicionando neste campo complexo das for\u00e7as pol\u00edticas e econ\u00f4micas em jogo \u00e9 um enorme desafio.<\/p>\n<p>Nos anos 80 e 90, eram ausentes pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas e recursos p\u00fablicos de fomento para o setor, ao mesmo tempo em que surgiam uma s\u00e9rie de movimentos sociais e populares de maior estrutura\u00e7\u00e3o institucional que tinham o v\u00eddeo como ferramenta pol\u00edtica, tal como aqueles aglutinados em torno da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de V\u00eddeo Popular (ABVP), que se construiu de maneira aut\u00f4noma ao Estado e ao mercado.<\/p>\n<p>J\u00e1 ao longo da d\u00e9cada de 2000, os editais de sele\u00e7\u00e3o de projetos tornaram-se o principal modelo de financiamento estatal \u00e0 cultura no Brasil, ao lado das leis de incentivo fiscal, que se estabeleceram na d\u00e9cada anterior. Tais a\u00e7\u00f5es do Estado acabam por atingir a rela\u00e7\u00e3o entre duas esferas simbo\u0301licas ba\u0301sicas \u2013 o polo da ind\u00fastria cultural e o polo da produ\u00e7\u00e3o cultural popular, sendo o \u201cpopular\u201d um termo que encampa disputas simb\u00f3licas pelo seu significado. Tendo isso em vista, vislumbra-se um cen\u00e1rio em que, no fundo, a pol\u00edtica estatal de fomento \u00e0 diversidade cultural atrav\u00e9s de programas e editais por um lado incentiva e viabiliza a produ\u00e7\u00e3o, por outro promove um apaziguamento das tens\u00f5es de classes sem mudan\u00e7as efetivas nas estruturas de investimento, repasses de recurso e regula\u00e7\u00e3o do mercado por parte do Estado, mantendo se como sistema de natureza excludente. Desta forma, se por um lado h\u00e1 uma luta por pol\u00edticas espec\u00edficas para a produ\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo independente e popular, por outro n\u00e3o se pode perder de vista a natureza eminentemente excludente do Estado capitalista.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>Festival: Como surgiu a ideia e aconteceu a produ\u00e7\u00e3o do livro \u2018Quebrada? Cinema, v\u00eddeo e lutas sociais\u2019? \u00c9 preciso tamb\u00e9m ocupar a academia?<\/strong><\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado de um conjunto de atividades, reflex\u00f5es sobre a \u00e1rea da cultura e viv\u00eancias que tive com o v\u00eddeo e que de alguma forma preencheram meus \u00faltimos anos. Tive o privil\u00e9gio de acompanhar tentativas e erros. Nossas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es foram sendo superadas gra\u00e7as ao exerc\u00edcio de experimentar. Imposs\u00edvel, neste momento, n\u00e3o olhar para tr\u00e1s: reuni\u00f5es, debates, coisas ditas, escritas e o surgimento e a realiza\u00e7\u00e3o de um conjunto de iniciativas.<\/p>\n<p>Neste sentido, o livro atualiza um debate sobre a produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea popular, da quebrada e\/ou da periferia, evidenciando o papel pol\u00edtico e est\u00e9tico do audiovisual nas bordas. Buscando evidenciar uma escritura da quebrada e sobre a quebrada. Uma diversidade de leituras, sobre uma produ\u00e7\u00e3o pautada pela luta afirmativa das diferen\u00e7as, e, paradoxalmente suas singularidades. Um panorama plural no estilo e nos problemas levantados. Entrevistas e ensaios comp\u00f5em uma esp\u00e9cie de caleidosc\u00f3pio, dada as perspectivas, abordagens e agentes sociais mencionados.<\/p>\n<p>A academia \u00e9 ocupada majoritariamente por uma elite econ\u00f4mica e por uma classe m\u00e9dia cultural que pesquisa e cria suas narrativas oficiais sobre a periferia e as nossas vidas. Como todo espa\u00e7o de poder de narrativas, assim como o audiovisual, a academia tem pouco espa\u00e7o para a participa\u00e7\u00e3o e a cultura popular. Como espa\u00e7o formativo e de elabora\u00e7\u00e3o de ideias e reflex\u00f5es, \u00e9 um espa\u00e7o que deve entrar na disputa pelos significados. Ocupar para unir teoria e pr\u00e1tica.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>Festival: Quais filmes de refer\u00eancia produzidos nas quebradas voc\u00ea indica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Fa\u00e7o uma cronologia de filmes produzidos nas quebradas e de f\u00e1cil acesso (alguns dispon\u00edveis na internet). Boa sess\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1W2IR7Vv-n0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vaguei os livros e me sujei com a merda toda<\/a> (doc. 2007), de Allan da Rosa, Mateus Subverso e Akins kinte<br \/>\n&#8211; Na real do real (doc. 2008), do Coletivo Favela Atitude;<br \/>\n&#8211; <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=icwno4uJkSU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Videol\u00eancia<\/a> (doc. 2009), do N\u00facleo de Comunica\u00e7\u00e3o Alternativa (NCA);<br \/>\n&#8211; Qual Centro? (doc. 2010), do Coletivo Nossa Tela;<br \/>\n&#8211; Jennifer (fic. 2012), de Renato C\u00e2ndido;<br \/>\n&#8211; <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=NBjjtc9BXXY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Massacre de Pinheirinho: A verdade n\u00e3o mora ao lado<\/a> (doc. 2012), do Coletivo de Comunicadores Populares de Campinas;<br \/>\n&#8211; <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=mbUaWJUY-78\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Um salve doutor<\/a> (fic. 2015), do Coletivo Mundo em Foco;<br \/>\n&#8211; Um dia no Il\u00e8 (doc. 2015), de Guilherme Cesar;<br \/>\n&#8211; Peripat\u00e9tico (fic. 2017), de J\u00e9ssica Queiroz.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><em><strong>Por Webert da Cruz &#8211; jornalista e fot\u00f3grafo do <a href=\"http:\/\/www.estudio.gunga.com.br\/\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">Est\u00fadio Gunga<\/a><\/strong><\/em><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 n\u00edtido que a produ\u00e7\u00e3o audiovisual no pa\u00eds ocupa espa\u00e7os bem mais profundos que o viciado mercado e a ind\u00fastria cultural. Ela tamb\u00e9m se apresenta como ferramenta pol\u00edtica de resist\u00eancia e transforma\u00e7\u00e3o social na vida de diversas comunidades. 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