{"id":1703,"date":"2018-04-20T13:41:56","date_gmt":"2018-04-20T16:41:56","guid":{"rendered":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/?p=1703"},"modified":"2018-04-24T14:39:27","modified_gmt":"2018-04-24T17:39:27","slug":"mais-fortes-sao-os-poderes-do-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/mais-fortes-sao-os-poderes-do-povo\/","title":{"rendered":"&#8220;Mais fortes s\u00e3o os poderes do povo!&#8221; &#8211;  o audiovisual como ferramenta de luta"},"content":{"rendered":"<p>Parece temporalmente despropositada a evoca\u00e7\u00e3o \u00e0 obra marcante de Glauber Rocha, refer\u00eancia do Cinema Novo brasileiro. N\u00e3o \u00e9! Trata-se do \u00faltimo grito de Corisco ao ser atingido por uma bala de Ant\u00f4nio das Mortes, o ca\u00e7ador de cangaceiros contratado pela oligarquia para dar um jeito nos rebeldes. A cena, rodada em 1963, \u00e9 forte em simbologia e o filme em sua pot\u00eancia de resist\u00eancia, que atravessa as d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado em 1964, logo ap\u00f3s o golpe civil-militar que afundaria o Brasil em mais de 20 anos de ditadura, Deus e o Diabo na Terra do Sol fazia alegoria \u00e0s diversas formas de enfrentamento buscadas pelas popula\u00e7\u00f5es exclu\u00eddas do sert\u00e3o e as artimanhas dos arcaicos e provincianos senhores do poder na perpetua\u00e7\u00e3o de sua saga. Junto com outros filmes e produ\u00e7\u00f5es, a pel\u00edcula foi representativa de uma \u00e9poca de ebuli\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, com consider\u00e1vel organiza\u00e7\u00e3o tanto na cidade quanto no campo (vide as Ligas Camponesas) e engajamento dos realizadores nos processos de transforma\u00e7\u00e3o nas esferas cultural e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em um grave quadro de tens\u00e3o e ruptura, a arte, em especial o Cinema, n\u00e3o hesitaram em cumprir seu papel de posicionamento no momento hist\u00f3rico. Deus e o Diabo ganhou o mundo, levando a est\u00e9tica inovadora de Glauber e a bandeira dos \u201cCondenados da Terra\u201d, para usar um termo de Frantz Fanon que o diretor conheceria s\u00f3 depois, ao cruzar os mares e instigar curiosidade e rebeldia por onde passou.<\/p>\n<p>Mais de cinquenta anos depois, vivemos novamente um cen\u00e1rio de acirramento das disputas pol\u00edticas e ascens\u00e3o de um ide\u00e1rio conservador, com uma diferencia\u00e7\u00e3o na modalidade operativa de golpe nas institui\u00e7\u00f5es dirigentes nacionais. Sob a batuta da grande m\u00eddia, de empres\u00e1rios e investidores financeiros, os poderes da rep\u00fablica se curvam e implementam um projeto de devassa no er\u00e1rio, patrim\u00f4nio e servi\u00e7o p\u00fablico, al\u00e9m da persegui\u00e7\u00e3o desmedida a opositores, mesmo que alegadamente dentro dos \u201ctr\u00e2mites legais\u201d.<\/p>\n<p>Em um exerc\u00edcio comparativo entre a realidade dos anos de 63 e 64 e a nossa atual, veremos claramente que uma das coisas que n\u00e3o mudou \u00e9 o enorme abismo social e econ\u00f4mico entre a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o e os 5% mais ricos do pa\u00eds. Pior, esta realidade de desigualdade at\u00e9 se <a href=\"https:\/\/www.oxfam.org.br\/a-distancia-que-nos-une\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ampliou<\/a>, mesmo com as t\u00edmidas pol\u00edticas afirmativas de inclus\u00e3o e a inser\u00e7\u00e3o de um grande contingente populacional ao consumo, promovidas nos \u00faltimos governos. O Brasil se afirmou como o pa\u00eds da desigualdade.<\/p>\n<p>Outra coisa que n\u00e3o mudou \u00e9 o papel das elabora\u00e7\u00f5es e produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e culturais nas disputas por representa\u00e7\u00e3o e narrativas. A realiza\u00e7\u00e3o audiovisual \u00e9 fundamental neste ponto, ainda mais em um mundo altamente conectado, em que os conte\u00fados circulam com mais facilidade que h\u00e1 d\u00e9cadas atr\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/D1czdtfvM54\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A urg\u00eancia, tanto de produtores quanto de produ\u00e7\u00f5es engajadas, talvez seja a mesma, mas com uma escala incompar\u00e1vel, com uma possibilidade de acesso a equipamentos e a uma distribui\u00e7\u00e3o inimagin\u00e1vel aos cineastas que montavam pel\u00edculas no tempo de Glauber. Tamb\u00e9m pode se diferenciar a quest\u00e3o da autoria, sendo que hoje em dia muitos coletivos assinam produ\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim, o Cinema e o Audiovisual podem se converter em ferramenta de resist\u00eancia, de luta, de disputa das narrativas que buscam imprimir no imagin\u00e1rio social perspectivas marginalizadas pelos ve\u00edculos hegem\u00f4nicos, diminu\u00eddas no processo de constru\u00e7\u00e3o de valores e valida\u00e7\u00e3o dos acontecimentos na sociedade.<\/p>\n<p>Tomemos como exemplo as Jornadas de Junho de 2013, o seu potencial rebelde, contestador e transformador presente em milhares de impress\u00f5es audiovisuais dispersas, algumas delas mais elaboradas e efetivas, e a pasteuriza\u00e7\u00e3o e condu\u00e7\u00e3o dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o que passaram a estabelecer uma narrativa de acordo aos seus interesses. O que sobrou de resist\u00eancia de 2013 \u00e9 o que se produziu contra-hegemonicamente. O resto serviu ao conservadorismo e ao golpe.<\/p>\n<blockquote><p><em>Resist\u00eancia \u00e9 o que n\u00e3o falta no Brasil. A rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica \u00e9 certeira, como afirma o rapper e educador popular Mark\u00e3o Abor\u00edgine em sua can\u00e7\u00e3o manifesto: \u201cEnquanto houver opress\u00e3o e viol\u00eancia haver\u00e1 luta e resist\u00eancia\u201d. E estas marcas profundas da realidade nacional sobrevivem h\u00e1 518 anos.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ando m\u00e3o de c\u00e2meras, celulares e computadores port\u00e1teis, sem a ilus\u00e3o de que a tecnologia seja neutra, ind\u00edgenas, feministas, a juventude negra perif\u00e9rica, estudantes, trabalhadores e experientes cineastas podem efetivar o Audiovisual como uma importante ferramenta de luta, com muita criatividade, \u00e0s vezes com abordagens mais expl\u00edcitas, em outras com pegadas mais experimentais ou que enveredem caminhos mais simb\u00f3licos.<\/p>\n<p>Importante \u00e9 afastar o fantasma da isen\u00e7\u00e3o, o discurso sedutor da arte distanciada da realidade, uma esp\u00e9cie de capitula\u00e7\u00e3o que ao final fortalece as estruturas do poder estabelecido e que perpetua as desigualdades j\u00e1 descritas acima.<\/p>\n<p>Outro papel importante que pode ser assumido pelos realizadores audiovisuais \u00e9 o compromisso com a partilha do conhecimento e t\u00e9cnicas em processos formativos horizontais, participativos e emancipat\u00f3rios, multiplicando assim as possibilidades de perspectivas e os focos de resist\u00eancia. S\u00e3o v\u00e1rios os exemplos nos tempos recentes, como o projeto V\u00eddeo nas Aldeias, Cultura Digital, Movimento do V\u00eddeo Popular, diversas experi\u00eancias de midiativismo e projetos de forma\u00e7\u00e3o envolvendo princ\u00edpios de educa\u00e7\u00e3o popular e produ\u00e7\u00e3o audiovisual, como o Observat\u00f3rio da Crian\u00e7a e Adolescente (OCA) na Cidade Estrutural.<\/p>\n<p>As possibilidades s\u00e3o inesgot\u00e1veis, podendo envolver distintos agentes, formatos e abordagens, estabelecendo liga\u00e7\u00f5es e formula\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas criativas entre a subjetividade dos realizadores e a realidade concreta. \u00c9 inscrever no tempo as vozes e olhares populares, \u00e9 resgatar a dignidade dos exclu\u00eddos com a beleza da vida, da diversidade nas representa\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s do Audiovisual e do Cinema.<\/p>\n<p>Diante da realidade de perda de direitos e retrocesso em que passa o pa\u00eds, um p\u00e9ssimo e mal-ajambrado <em>remake<\/em> de 1964 &#8211; quando foi lan\u00e7ado o Deus e o Diabo &#8211; mas com inser\u00e7\u00f5es <em>crossover<\/em> de Terra em Transe, de 1967, \u00e9 mais do que passada a hora do Cinema assumir seu lugar hist\u00f3rico na disputa pol\u00edtica e imprimir a resist\u00eancia definitivamente na esfera p\u00fablica.<\/p>\n<p>Que proliferem as mensagens de que a sociedade n\u00e3o aceita nenhum direito a menos e n\u00e3o tolera crimes hediondos, como o assassinato de Marielle e Anderson ocorrido no \u00faltimo m\u00eas de mar\u00e7o, muito menos o alarmante exterm\u00ednio da juventude negra no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Que o Cinema encampe a boa luta, a luta por justi\u00e7a, a luta dos de baixo. Afinal, como a li\u00e7\u00e3o que Glauber nos deixou atrav\u00e9s do grito do cangaceiro Corisco: mais fortes s\u00e3o os poderes do povo!<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><em><br \/>\nPor Diego Mendon\u00e7a: realizador audiovisual, educador popular<\/em><br \/>\n<em> e mestre em Direitos Humanos pela UnB.<\/em><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parece temporalmente despropositada a evoca\u00e7\u00e3o \u00e0 obra marcante de Glauber Rocha, refer\u00eancia do Cinema Novo brasileiro. N\u00e3o \u00e9! Trata-se do \u00faltimo grito de Corisco ao ser atingido por uma bala de Ant\u00f4nio das Mortes, o ca\u00e7ador de cangaceiros contratado pela oligarquia para dar um jeito nos rebeldes. A cena, rodada em 1963, \u00e9 forte em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":1704,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[50,51,52],"class_list":["post-1703","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticia","tag-cinema-engajado","tag-cinema-politico","tag-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1703","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1703"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1703\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1731,"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1703\/revisions\/1731"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1704"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1703"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1703"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1703"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}