{"id":1658,"date":"2017-11-17T16:42:50","date_gmt":"2017-11-17T19:42:50","guid":{"rendered":"http:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/?p=1658"},"modified":"2017-11-17T16:42:50","modified_gmt":"2017-11-17T19:42:50","slug":"william-alves-organizador-do-festival-comenta-o-filme-tekoha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/william-alves-organizador-do-festival-comenta-o-filme-tekoha\/","title":{"rendered":"William Alves, organizador do Festival, comenta o filme &#8220;Tekoha&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Tekoha foi o grande vencedor da 12\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival Taguatinga de Cinema. \u00c9 um filme realizado por Rodrigo Arajeju e Valdelice Veron (Xamiri Nhupoty) rodado no Mato Grosso do Sul e conta a hist\u00f3ria de uma tribo Kaiow\u00e1s que luta contra o agroneg\u00f3cio para se manter em suas terras e n\u00e3o perder suas ra\u00edzes e tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No filme, vemos um grupo de mulheres e crian\u00e7as que cuidam de seus afazeres e tamb\u00e9m da transmiss\u00e3o de costumes. O espectador transita entre imagens que nos levam a uma esp\u00e9cie de para\u00edso, com natureza abundante, muita \u00e1gua, ru\u00eddos e p\u00e1ssaros cantando, flautas e assobios e imagens da devasta\u00e7\u00e3o que avizinha a tribo.<\/p>\n<p>Ao som desses elementos e elementais, vamos conhecendo aqueles que surgem em primeiro plano, primeira pessoa, vamos conhecendo os Kaiow\u00e1s e a dura realidade a que est\u00e3o submetidos.<\/p>\n<p>A fotografia puxada para uma tonalidade mais terra, vai aos poucos se justificando, pois o que \u00e9 apresentado ao p\u00fablico como cen\u00e1rio da narrativa \u00e9 uma terra devastada, nua, sem vida, ocupada por m\u00e1quinas, chamin\u00e9s, tratores e monoculturas. Bras\u00edlia surge como algo distante, um sonho, um lugar onde n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a para uma causa t\u00e3o sofrida. \u00c9 uma Bras\u00edlia sombria, soturna e sem luz \u00e0 causa dos Kaiow\u00e1s.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio que tomamos contato com a luta desse povo da floresta, que vive na floresta, que depende da floresta, que \u00e9 parte da floresta e que est\u00e1, pouco a pouco, sendo destru\u00eddo, n\u00e3o s\u00f3 pela for\u00e7a dos tratores, das maquinas, do agroneg\u00f3cio e das armas que j\u00e1 assassinaram seus caciques e irm\u00e3os, mas tamb\u00e9m pela for\u00e7a que se imp\u00f5e sobre o seu modo de viver, sobre o Tekoha.<\/p>\n<p>&#8220;Tekoha significa, literalmente, o lugar do modo de ser Guarani, sendo esta categoria modo de ser (tek\u00f3) entendida como um conjunto de preceitos para a vida, em conson\u00e2ncia com os regramentos cosmol\u00f3gicos herdados pelos antigos guaranis. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser guarani e seguir o tek\u00f3 sem viver em um teko\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p>A luta pela terra dos Kaiow\u00e1s \u00e9 a luta pelo Tekoha, \u00e9 a luta pelo seu modo de exist\u00eancia em conjunto com o todo, com seu universo m\u00edtico, m\u00e1gico, cheio de mist\u00e9rios e de alegrias tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s que n\u00e3o compreendemos com profundidade o significado do Tekoha, podemos pensar que o Tekoha \u00e9 a experi\u00eancia de uma exist\u00eancia vivida pelos Kaiow\u00e1s, essa \u00e9 uma experi\u00eancia de aprendizado, de troca, de respeito e se d\u00e1 no dia a dia dos afazeres do grupo, na constru\u00e7\u00e3o de seus lugares sagrados, na confec\u00e7\u00e3o de suas vestes e indument\u00e1rias, nas pinturas com s\u00edmbolos carregados de significados e na troca de conhecimentos ancestrais entre os membros da tribo.<\/p>\n<p>O filme Tekoha \u00e9 um pouco disso tudo, com poder e for\u00e7a se estabelece em sua po\u00e9tica, no cuidado est\u00e9tico do som e da imagem, na forma como os personagens s\u00e3o abordados, apresentados, constru\u00eddos e na possibilidade de um futuro diferente do presente, de um futuro expresso na imagem de uma crian\u00e7a Kaiow\u00e1 sorrindo e correndo entre o limite da mata que ainda resta e a terra devastada.<br \/>\nUma crian\u00e7a com seu objeto m\u00e1gico aben\u00e7oando e significando a luta desse povo.<br \/>\nSonhar, sonhar, lutar, lutar, sem jamais desistir nem deixar de acreditar num futuro melhor.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 uma das coisas que podemos ver no excelente filme Tekoha.<\/p>\n<p>William Alves \u00e9 realizador de filmes e integra a equipe que organiza o Festival Taguatinga de Cinema.<\/p>\n<p>O filme Divina Luz de Ricardo S\u00e1, do Espirito Santo, ficou entre os filmes escolhidos pelo J\u00fari Oficial do Festival Taguatinga de Cinema, como os mais significativos dessa edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 um filme que reconstr\u00f3i a imagem de uma das mulheres mais ousadas da d\u00e9cada de 50, Dora Vivacqua, mais conhecida como \u201cLuz Del Fuego\u201d.<\/p>\n<p>Dora foi uma mulher \u00e0 frente de seu tempo, inspirou, nos anos 70 e 80 artistas que clamavam por mais liberdade, Rita Lee comp\u00f4s em 70 a m\u00fasica &#8220;Luz del Fuego&#8221; e em 82 o diretor de cinema David Neves fez um longa-metragem com o mesmo nome.<\/p>\n<p>Dora pregava a liberdade do ser, livre dos preconceitos comuns que ela considerava ser o fruto do atraso nas rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas. Escreveu o livro \u201cA Verdade Nua\u201d e foi uma das precursoras do nudismo no Brasil, tudo isso num pais onde n\u00e3o era permitido nem o uso de mai\u00f4 nas praias brasileiras. Como artista, hipnotizava o Brasil dan\u00e7ando, seminua, com duas cobras durante suas apresenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O filme de Ricardo S\u00e1, que pode ser considerado um ensaio audiovisual, cumpre bem a fun\u00e7\u00e3o ao reconstituir atrav\u00e9s de imagens de arquivo, fotos e filmes, parte da hist\u00f3ria de uma importante personagem brasileira. O gesto do cineasta na utiliza\u00e7\u00e3o de imagens de arquivos, destinados ao esquecimento \u00e9 um gesto poderoso, pois imagens de arquivos muitas vezes carregam consigo sentidos que necessitam de outros elementos, imagens e temporalidades, textos e depoimentos para se reafirmarem.<\/p>\n<p>Recentemente tive contato com a biografia do historiador franc\u00eas Jacques Le Goff, e ele dizia \u201c&#8230; o documento em muitos trabalhos art\u00edsticos, n\u00e3o \u00e9, em absoluto algo objetivo e inocente que expresse uma verdade sobre uma determinada \u00e9poca, mas aquilo que expressa, consciente ou inconsciente, o poder da sociedade do passado sobre a mem\u00f3ria e o futuro. \u201d<\/p>\n<p>Na apropria\u00e7\u00e3o de imagens, na recomposi\u00e7\u00e3o de lugares e situa\u00e7\u00f5es de outros tempos, de um tempo passado, Ricardo S\u00e1 produz n\u00e3o apenas a mem\u00f3ria hist\u00f3rica e cinematogr\u00e1fica de um lugar e de uma personagem, mas tamb\u00e9m uma percep\u00e7\u00e3o de que essa mem\u00f3ria n\u00e3o est\u00e1 congelada no tempo, que a hist\u00f3ria de \u201cDivina Luz\u201d e toda a viol\u00eancia contra a mulher sobrevivem e seguem firmes nos dias de hoje.<\/p>\n<p>Mesmo assim, com toda a tens\u00e3o gerada, percebemos que o ideal libert\u00e1rio sobrevive de algum modo, aos acontecimentos que tentam sufoca-lo e transform\u00e1-lo em algo menor, sem valor e sem a \u201cDivina Luz\u201d.<\/p>\n<p>Nesse sentido, esse ensaio cinematogr\u00e1fico, esse filme de Ricardo S\u00e1, se destaca pela abordagem do tema proposto pela 12\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival Taguatinga de Cinema.<\/p>\n<p>E como muito bem expressou nosso genial MC Guilherme: \u201cSonhar, sonhar, lutar, lutar, sem jamais desistir.<\/p>\n<p>William Alves<br \/>\nRealizador de filmes, integra a equipe que organiza o Festival Taguatinga de Cinema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tekoha foi o grande vencedor da 12\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival Taguatinga de Cinema. \u00c9 um filme realizado por Rodrigo Arajeju e Valdelice Veron (Xamiri Nhupoty) rodado no Mato Grosso do Sul e conta a hist\u00f3ria de uma tribo Kaiow\u00e1s que luta contra o agroneg\u00f3cio para se manter em suas terras e n\u00e3o perder suas ra\u00edzes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":1659,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-1658","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1658","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1658"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1658\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1660,"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1658\/revisions\/1660"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1659"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1658"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1658"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/festivaltaguatinga.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1658"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}